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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Trago os meus lábios salgados e algas no paladar. Mas também...Num desvão da alma ainda debruça uma varanda sobre um mar de auréolas.


Andam Palavras na Noite

Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a Noite não lhe quer dar! 




Mãe Ilha

Foi isto outrora na ilha das fadas
Embrumada em hortênsias. Não sonhei.
Sobre as lagoas de águas encantadas
Dormiam os feios e não havia lei.

As vacas, nas colinas esfumadas
Ruminavam o eterno. Ali folguei
Na festa das crianças coroadas.
Reinava o Amor e não havia lei.

Dentro da música a casa repousava.
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.

Rumores longínquos da infância oclusa,
Que num desvão da alma ainda debruça
Uma varanda sobre um mar de auréolas

Natália Correia

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Hoje acordei com estes versos no pensamento. Também com uma ponta de nostalgia a envolver-me a alma. Mas olho lá para fora e vejo que o dia está convidativo, a chamar-me para um passeio refrescante.


A quem por aqui passar desejo qualquer coisa como a paz que estas palavras transmitem:


Dentro da música a casa repousava. 
Minha mãe docemente penteava
Os meus cabelos e caíam pérolas.


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Imagem: pixabay

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Sinais que no amor se adiantam






No teu olhar se esfuma e desvanece
A cidade onde o corpo por enquanto é preciso.
É quando a outra face do luar aparece
E o balir das ovelhas tem o som do meu riso.

Para tapar meu seio já nenhum astro tece
A roupa com que outrora saí do paraíso.
0 pudor é da terra. Só por isso anoitece
E a nudez dos amantes é não darem por isso.

A semente do Filho que em nós amadurece
Trouxe-a no bico a Pomba que o seu reino prepara.
Por isso na cidade já ninguém nos conhece
Pois que ambos trazemos esse filho na cara.
Natália Correia

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Imagem: daqui

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Manhã cinzenta



À partida de S. Miguel

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais..
0 meu veleiro — era de espuma fria —
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui. por quantas gentes.
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta — mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda...
Natália Correia

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Imagem-daqui

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Eu vim de longe, de muito longe

Balouçando-se na cadeira, com ar sonhador, Dufinha cantarolava, Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei pra aqui chegar... Este som e estas palavras não lhe saíam da cabeça. A lonjura era uma constante na sua percepção do mundo. Da sua ilha, na macaronésia, chegam-lhe agora outros sons e outras palavras: do mar que brame, batendo nas rochas, dos segredos trazidos pelos búzios quando, outrora, os encostava ao ouvido.


Minha beleza é mais dizível
nos segredos que perscruto 
no mar que um búzio retém.

Vozes que só eu escuto 
são a forma do meu corpo 
aqui absorto 
num sonho que depus além. *


Natália Correia













  
Internando-se pela laurissilva, procura desvendar e interpretar estes vestígios dos tempos antigos, pré-históricos, estuantes de vida e que resistem à acção da má conduta dos homens. O olhar é um pensamento que esvoaça e vai ao encontro de coisas belas, tantas, que compõem o universo. Mesmo quando a luz cambaleia e a beleza é ameaçadora o passo em frente é necessário. E o poeta consegue, sempre, escrever mais alto. É esta a sua convicção.

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.**

Herberto Helder
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Poemas de:
* Natália Correia, "O rosto que ninguém vê"
**Herberto Helder, "O olhar é um pensamento"

Eu vim de longe...Canção de José Mário Branco

Imagem:apontamento da floresta laurissilva-Madeira

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Ciclo Macaronésia

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Metamorfoses necessárias para a reconquista do mundo

Quando a flor da água não for superfície 
Nem for outra cor para a flor do fundo; 
Quando a sombra der de si mesma indício; 
Quando um lírio for de si mesmo oriundo;


Quando os astros forem a luz que os anima 
E as rosas iguais ao que são por fora 
E a forma do corpo florir na retina 
Subida do peso carnal que a demora;

Quando um rouxinol for no próprio canto 
Vibração da sua mais longínqua era; 
Quando as violetas não forem o espanto 
De se transformarem para a primavera;

Quando uma laranja comer um rapaz 
Em vez desta fome disposta ao contrário; 
Quando for o mesmo à frente ou atrás; 
Quando estar sentado for imaginário;

Quando uma donzela não for colorida 
E a terra a medida dum corpo no chão 
E a morte não for outro nome para a vida 
E a vida esta grande falta de razão:

Quando uma cidade for A Conseguida
Porque uma cigarra tem opinião;
Quando dar a mão não for despedida
E um gesto não for o exílio da mão…


Natália Correia

1923-1993


Senhora de grande talento, foi poeta, dramaturga, romancista, tradutora, jornalista, guionista e editora. Combativa, evidenciou-se em vários momentos
pelo seu posicionamento na vida política. A sua escrita foi classificada por alguns críticos como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica.

Poema retirado do Banco de Poesia Fernando Pessoa.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ao ver a Lagoa do Fogo, na ilha de São Miguel, percebi que não há nada semelhante no Universo

Palavras de Fernando Dacosta, em depoimento recolhido por Isabel Faria*, promovendo uma escapadinha imperdível à ilha de São Miguel, com o aliciante ingrediente de o mesmo estar a descrever um passeio dado com Natália Correia:


Natália Correia retratada por Bottelho

A escritora Natália Correia, que me ciceroneava pela sua ilha (São Miguel, Açores) onde eu estava pela primeira vez, impôs-me: "Hoje vai acompanhar-me a um dos poucos sítios habitados por deuses. Só os iniciados são dignos de o comungar". Mais um dos seus exageros, pensei. Depois de a ouvir, no piano do hotel, dizer odes a ninfas de levadas e faunos de bosques, partimos para o éden anunciado. "Prepare-se que o milagre vai dar-se", e o milagre aconteceu.



Fernando Dacosta prossegue, agora referindo-se à rota do referido passeio, a qual poderemos também adoptar, se aproveitarmos a sua sugestão:

Terra Nostra é um dos bosques mais harmoniosos do Mundo, com as suas árvores e flores igualmente únicas no Mundo, e o seu hotel suavíssimo de águas e hortênsias, e o seu cozido nas furnas, em panelas enterradas durante horas, "manjar de eleitos", repetia Natália, a tarde e a noite caindo sem horas nem notícias, só aquele universo existindo e nós nele, com ele.




Sedoso, um chá Gorreana prepara-nos para a última fase da jornada, "a mais misteriosa e cósmica", no sublinhar da autora de 'Sonetos Românticos', que "foi desocultada a humanos": a Lagoa do Fogo. Siderados, emudecidos, ao desfazer de uma curva, ante a sua aparição. Não há nada de semelhante no Universo. Natália substitui os deuses por vir, deusa ela ungida para nos proporcionar a apoteose do ali revelado em madrugada de Lua Cheia. "Quando eu morrer encontram-me aqui", cicia. Tenho voltado lá, àquela hora e àquela lua.

No seu 'Guia da Viagem' com três itens, DaCosta diz num deles:

Desculpem a imodéstia, mas não devem perder o livro de Natália Correia ('O Botequim da Liberdade') a lançar a 13 de Setembro, 90º aniversário da escritora, entretanto falecida. É por ela e pela Terra Nostra, Açores.

Pela minha parte, vou agora ao Banco de Poesia Fernando Pessoa buscar um dos sonetos do 'Sonetos Românticos', para vos oferecer. Apreciem (apreciai) a força das palavras desta Mulher:

A Alma

Votada ao fogo obediente ao perigo
Feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco

Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado a eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco

A incêndio do teu sangue me condenasI
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.

Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.

In Sonetos Românticos

Natália Correia
   1923-1993

»»»»»

*Revista Domingo, 18.08.2013
Imagens:Internet

domingo, 10 de junho de 2012

Meditação

A carne é flor ou consequência do seu perfume?
Seja o que for
é intensidade que a flor resume


A mão é gesto que ultrapassa. 0 gesto é além. 
Porque a mão toca o horizonte 
que o gesto da mão contém


O homem canta.
E enquanto canta o homem dura. 
Porque o seu canto é perceber 
que a voz prevalece a criatura.


Natália Correia