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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Ao ver a Lagoa do Fogo, na ilha de São Miguel, percebi que não há nada semelhante no Universo

Palavras de Fernando Dacosta, em depoimento recolhido por Isabel Faria*, promovendo uma escapadinha imperdível à ilha de São Miguel, com o aliciante ingrediente de o mesmo estar a descrever um passeio dado com Natália Correia:


Natália Correia retratada por Bottelho

A escritora Natália Correia, que me ciceroneava pela sua ilha (São Miguel, Açores) onde eu estava pela primeira vez, impôs-me: "Hoje vai acompanhar-me a um dos poucos sítios habitados por deuses. Só os iniciados são dignos de o comungar". Mais um dos seus exageros, pensei. Depois de a ouvir, no piano do hotel, dizer odes a ninfas de levadas e faunos de bosques, partimos para o éden anunciado. "Prepare-se que o milagre vai dar-se", e o milagre aconteceu.



Fernando Dacosta prossegue, agora referindo-se à rota do referido passeio, a qual poderemos também adoptar, se aproveitarmos a sua sugestão:

Terra Nostra é um dos bosques mais harmoniosos do Mundo, com as suas árvores e flores igualmente únicas no Mundo, e o seu hotel suavíssimo de águas e hortênsias, e o seu cozido nas furnas, em panelas enterradas durante horas, "manjar de eleitos", repetia Natália, a tarde e a noite caindo sem horas nem notícias, só aquele universo existindo e nós nele, com ele.




Sedoso, um chá Gorreana prepara-nos para a última fase da jornada, "a mais misteriosa e cósmica", no sublinhar da autora de 'Sonetos Românticos', que "foi desocultada a humanos": a Lagoa do Fogo. Siderados, emudecidos, ao desfazer de uma curva, ante a sua aparição. Não há nada de semelhante no Universo. Natália substitui os deuses por vir, deusa ela ungida para nos proporcionar a apoteose do ali revelado em madrugada de Lua Cheia. "Quando eu morrer encontram-me aqui", cicia. Tenho voltado lá, àquela hora e àquela lua.

No seu 'Guia da Viagem' com três itens, DaCosta diz num deles:

Desculpem a imodéstia, mas não devem perder o livro de Natália Correia ('O Botequim da Liberdade') a lançar a 13 de Setembro, 90º aniversário da escritora, entretanto falecida. É por ela e pela Terra Nostra, Açores.

Pela minha parte, vou agora ao Banco de Poesia Fernando Pessoa buscar um dos sonetos do 'Sonetos Românticos', para vos oferecer. Apreciem (apreciai) a força das palavras desta Mulher:

A Alma

Votada ao fogo obediente ao perigo
Feroz do amor ser muito e o tempo pouco,
Chegas ébrio de sonho, ó estranho amigo
E eu não sei se por mim és anjo ou louco

Num beijo infindo queres morrer comigo.
Nesse extremo és sagrado a eu não te toco.
Esquivo-me: o teu sonho mais instigo.
Fujo-te: a tua chama mais provoco

A incêndio do teu sangue me condenasI
E com ciumentas ervas te envenenas
Dizendo às nuvens que só tu me viste.

Bebendo o vinho de amantes mortos queres
Que eu seja a mais prateada das mulheres.
E de ser tão amada eu fico triste.

In Sonetos Românticos

Natália Correia
   1923-1993

»»»»»

*Revista Domingo, 18.08.2013
Imagens:Internet

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Falavam-me de amor





Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia, 
in 'O Dilúvio e a Pomba'




Natália de Oliveira Correia (1923 -1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores.
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais. A partir de 1971, essas reuniões passaram a ter lugar no bar Botequim. Ficou conhecida pela sua personalidade livre de convenções sociais, vigorosa e polémica, que se reflecte na sua escrita. A sua obra está traduzida em várias línguas.
Ver mais aqui



Medley músicas de Natal nos
Açores






Abraços, amigos.

Olinda





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Imagem: pixabay
Poema _ citador
Veja Natália Correia aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

"XIV Interação Fraterna de Natal"




Proposta da amiga Rosélia

Tema:
Você Acredita em Anjos?


***


Creio nos anjos que andam pelo mundo


Das carências mais prementes da vida talvez não ter um tecto seja das mais humilhantes. Conduz à situação de exclusão social, de morar debaixo da ponte, como se costuma dizer, de perda de dignidade. Sem um lugar para a própria higiene, para mudar de roupa, de não ter o direito de se sentar à própria mesa. Em suma, andar com a trouxa às costas e não ter eira nem beira. Um sem-abrigo depende da caridade alheia, de pessoas que na noite lhe leve uma refeição, de preferência quente...

Em Portugal segundo estatísticas de finais de 2022 os sem-abrigo já contavam um número preocupante de mais de 10000 pessoas, tendo sofrido durante este ano um aumento de 25%. Às portas de Lisboa existem aglomerações de tendas e cartões que protegem e mal quem se encontra na situação de não ter uma habitação. Até se fala em empregados, de parcos recursos, que não têm como pagar o aluguer de uma casa... No coração da cidade, nas arcadas, nos desvãos, nas reentrâncias dos prédios, onde quer que seja, os sem-tecto refugiam-se como podem...

Contudo:

A Constituição Portuguesa consagra, no artigo 65º, desde 1976, o direito à habitação, segundo o qual «todos têm direito, para si e para a sua família, a uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar.»

Há organizações que procuram minimizar o sofrimento de quem dorme na rua, ao relento, chova e/ou faça frio, tendo como agasalho alguns trapos e cartões...

Há voluntários que não olham a sacrifícios para acompanhar essas pessoas, fazendo o papel de anjos protectores, de humanos que têm arreigado no próprio ser o sentimento de solidariedade e de compaixão. 

Por isso digo, tal como Natália Correia no seu Poema "Credo", "Creio nos anjos que andam pelo mundo", que a seguir transcrevo. Penso que vem na linha do pensamento acolhido pelo Tema proposto:



CREDO
Natália Correia

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.





Comemora-se neste ano o Centenário do nascimento de Natália Correia, açoriana, escritora e poeta, nascida a 9 de Setembro de 1923.


***




Rosélia Bezerra
Blog:

NATAL/2023

***

RESSONÂNCIAS DA INTERAÇÃO FRATERNA





GRATA, ROSÉLIA, POR MAIS ESTA GRANDE 
FESTA DE NATAL

BEIJINHOS
OLINDA




===

Ver aqui algumas medidas tendentes a minorar o problema no município de Lisboa
Organizações de ajuda aos sem-abrigo - aqui
Imagens: pixabay

domingo, 10 de janeiro de 2021

Creio que o Amor tem asas de ouro






CREIO

Creio nos
anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

  in Sonetos Românticos


Amen.

Ao saudar este Ano de 2021 trago a extraordinária Natália Correia, mulher polémica na sua escrita e na sua postura, excessiva. Posições extremas na vida e com uma obra literária de respeito. Neste seu CREDO tomamos contacto com um léxico em que o maravilhoso toma assento e nos convida à descoberta da parte mais solidária da nossa visão do mundo.

E de facto andam anjos pelo mundo e é mister que acreditemos nisso. No meio da confusão que a nossa complexidade cria, em que sobressai especialmente o nosso lado lunar, não há dúvida de que aqueles que trabalham para o bem comum existem.

No nosso dia-a-dia há tanto por que agradecer a todos os que labutam para que a nossa vida seja o mais normal possível. Na saúde, no comércio, na restauração, na recolha dos nossos lixos, na agricultura e transporte de víveres, naqueles que nos vêm trazer a casa as compras que fazemos online ou por telefone, nos transportes públicos, nos voluntários que não conhecem distâncias e porfiam pelas ruas, pelos hospitais e demais instituições pelo bem-estar dos outros - aí, meus amigos, há que acreditar na ocupação do mundo pelas rosas. E é visível que coisas incríveis e assombrosas acontecem a cada instante. 

No ano que acaba de nos deixar vemos sem dificuldade mulheres que em plena pandemia souberam elevar-se e trazer soluções válidas para as suas comunidades, como por exemplo Ursula von der Leyen(UE), Ângela Merkel, (Alemanha), Jacinda Ardern (Nova Zelândia), Tsai Ing-Wen (Taiwan). Tomaram nas mãos as suas responsabilidades, com lucidez, e mostraram como se faz. 

Por cá, de entre um exército de gente anónima dedicadíssima, tenho a assinalar Marta Temido e Graça Freitas que sem informações concretas sobre o vírus, com a pressão insuportável vivida por todos, enfrentaram o seu dever de dar a cara e representar um ponto de apoio numa altura em que ninguém se entendia. 

E confesso que creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, em coisas que parecem transcender-nos, como a magia de crer num mundo capaz de momentos de glória e de superação. Com a nossa idiossincrasia, própria de humanos, habitamos as duas faces de uma mesma moeda, pairamos entre o lado brilhante do Sol e o obscuro. Mas com discernimento e livre arbítrio creio que temos a capacidade de proceder à leitura correcta do que poderá constituir a nossa felicidade e a dos outros. 

Assim seja.

BOM ANO, meus amigos. 

Abraços.


====
Poema: daqui
Título do post retirado do poema transcrito
Até que foi Deusa, de Fernando Pinto Amaral, artigo sobre Natália Correia


sábado, 1 de maio de 2021

Estado de Emergência

como dispor a mesa
entre os acordes
da distância

esta

a que me separa
da alvorada nas teclas
dum incontido piano
sobre as ervas

nossas

até ontem nossas
confissões escarlate

recatadamente dispostas
sobre a letargia dos campos

Ângela de Almeida  
in: estado de emergência
-2020-




Ângela de Almeida é uma investigadora, ensaísta e poeta portuguesa, natural da cidade da Horta, onde viveu até aos 16 anos de idade. Estudou em Lisboa, sendo doutorada em Literatura Portuguesa e, nesse contexto, colabora com organismos regionais e nacionais, participando também em colóquios e congressos, promovidos por instituições portuguesas e europeias. Anteriormente, lecionou no Ensino Secundário e no Ensino Superior, foi editora e assessora para a Cultura. No domínio do ensaio, é autora de Retrato de Natália Correia (1993, Círculo de Leitores), vários estudos introdutórios a obras da mesma autora, A simbólica da ilha e do Pentecostalismo em Natália Correia (2019, Letras Lavadas) e Natália Correia, um compromisso com a humanidade (2019, em publicação). Tem, no prelo, o ensaio, Censura e estilo na Literatura Portuguesa do século XX, resultante da conferência, que apresentou na Universidade Sorbonne-Collège de France. No domínio da poesia, publicou: sobre o rosto (1989), manifesto (2005), a oriente (2007), caligrafia dos pássaros (2018). Publicou também a narrativa poética, o baile das luas (1993) e dois livros de viagem. aqui


Nota: Devo ao Manuel Veiga o conhecimento desta excelente Autora açoriana. 
Grata, meu amigo.




Hoje passámos ao estado de calamidade, com a abertura da maior parte das "cercas sanitárias". A vida das pessoas, que dependem dos seus negócios, merece. A necessidade de conviver, de ir à escola, de visitar espaços culturais, mostrou nos últimos tempos que precisamos disso como do pão para a boca. 

Mas mantenhamos alguma parcimónia nesta liberdade conquistada a pulso, observando cuidados importantes como: utilização de máscara, distanciamento físico, higienização das mãos.

Há pelo mundo regiões que vivem momentos de aflição. As notícias que nos chegam da Índia, nos últimos dias, são aterradoras. A pandemia alastra-se e há falta de tudo, até de espaço digno para cremação daqueles que perdem a vida nessa luta desigual com o vírus.

Em nota de curiosidade e quase anedótico não fosse a tristeza da situação, em Braga, Mire de Tibães, o cemitério lotado há quinze anos leva a que se enterre no passeio. 

Autarca diz: "Em 2005 avançámos com o pedido de alargamento do cemitério, porque já nessa altura o Executivo se debatia com a lotação do terreno, mas temos esbarrado com a classificação da envolvente do Mosteiro"-(Mosteiro Beneditino de São Martinho de Tibães)aqui 

Ora, meus senhores, ponham os olhos em Sinhozinho Malta que ainda tinha a noção de perguntar "Tô certo ou tô errado?". 



Votos de bom Dia do Trabalhador a quem por aqui passar.

Abraços.


02/05/2021

A TODAS AS MÃES



DIA FELIZ





Partilho convosco esta Canção da Mariza que acabo de receber :)


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Veja aqui, na BNP, registos sobre "Estado de Emergência" da autoria de Ângela de Almeida e Henrique Levy . Este autor possui uma biografia e bibliografia interessantes. De explorar futuramente. :)

Imagem: Pixabay

sábado, 10 de fevereiro de 2024

De amor nada mais resta que um Outubro


Antigo o canto. Ardendo.
Gota a gota.
Em cada espanto.






De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

in “Poesia Completa”


***


O amor, com tantas faces e volte-faces. 
"É um contentamento descontente".




Zeca Afonso
Balada do Outono



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Citador: Poema

Natália de Oliveira Correia (1923-1993) foi uma escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores.
A obra de Natália Correia estende-se por géneros variados, desde a poesia ao romance, teatro e ensaio. Colaborou com frequência em diversas publicações portuguesas e estrangeiras. Durante as décadas de 1950 e 1960, na sua casa reunia-se uma das mais vibrantes tertúlias de Lisboa, onde compareciam as mais destacadas figuras das artes, das letras e da política (oposicionista) portuguesas e também internacionais...aqui

domingo, 31 de março de 2024

Ode à Paz





Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,


Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

In: Inéditos (1985/1990)


***

A Paz! Senhora que nos fita do alto de várias incongruências, que nos acena, que nos sorri. E parece tão ao alcance das nossas mãos. Mas qual quê! Queremo-la realmente? Quantas e quantas vezes não pomos à frente as nossas próprias vontades.
Mas hoje saudemo-la, à Paz, desejemo-la com todas as nossas forças. Ela não é uma palavra vã. Olhemos para o que se passa lá fora, para as guerras que grassam e que fazem tantas vítimas. Vítimas de bombas das mais sofisticadas, da fome declaradamente visível. 
Quando vejo vultos de sacos ou volumes que caem dos céus, largados por aviões, e os pobres massacrados a correrem pela praia ou outros lugares para os apanhar, sendo por vezes atingidos pela metralha sem poderem gozar esse bem, começo a pensar que a nossa evolução como pessoas é uma "treta". 
A crueldade anda à solta.
 
E junto a minha voz à de Natália Correia:

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,

deixa passar a Vida!

***

BOA PÁSCOA
FAÇAMOS A NOSSA PARTE,
PARA A NOSSA REDENÇÃO.

Abraços

Olinda



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Poema: citador

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

2º Encontro Temático


Iniciativa do amigo,

 JUVENAL NUNES - PALAVRAS ALADAS




NATAL

Pergunto-me: como escrever sobre o Natal sem me repetir, nem repetir as talentosas palavras de quem ao longo de dois milénios 
tem reflectido sobre o tema? 

Como uma luz, de repente, deixei de me preocupar. Não há mal nenhum em nos repetirmos, pois o tema é Amor. Nunca será demais propalar aos quatro ventos a Boa Nova de nos amarmos uns aos outros. Precisamos de ouvi-la, sempre, como de pão para a boca.

 


Aliás, "Nem só do pão vive o homem, mas também da palavra de Deus", disse aquele que veio ensinar a humildade dos actos, dos gestos, da nossa postura na vida. Nascer, viver e morrer para que pudéssemos um dia alcançar a Bem-Aventurança é o maior legado que esse Menino-Deus nos deixou. 

Tenhamos isso bem presente nos nossos corações, antes de entrarmos em guerras e quezílias. 
Fala-se em consumismo desenfreado, especialmente nestas datas. Tenhamos contenção nos gastos, para o nosso bem e também pensando naqueles que nada têm.

Faz bem ao coração as palavras simples que nos dirigimos, onde quer que seja, no Café, nas Lojas, em estabelecimentos de toda a ordem:
Boas Festas! Feliz Natal! E ficamos com a grata ilusão de que nos amamos e desejamos o bem comum. E a verdade é que estamos a sentir o que dizemos. 

O Milagre acontece.
É mágica esta quadra, não há dúvida.

O amigo Juvenal pediu "Um Poema de Natal" para este 2º Encontro Temático. Assim sendo, vou recorrer à grande Natália Correia, cujo Centenário se comemora no ano de 2023:


Falavam-me de Amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

 in 'O Dilúvio e a Pomba'
 

FELIZ NATAL




E Boa Consoada.



Abraços fraternos.
Olinda


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Poema: Citador
Imagens: pixabay



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Eu vim de longe, de muito longe

Balouçando-se na cadeira, com ar sonhador, Dufinha cantarolava, Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei pra aqui chegar... Este som e estas palavras não lhe saíam da cabeça. A lonjura era uma constante na sua percepção do mundo. Da sua ilha, na macaronésia, chegam-lhe agora outros sons e outras palavras: do mar que brame, batendo nas rochas, dos segredos trazidos pelos búzios quando, outrora, os encostava ao ouvido.


Minha beleza é mais dizível
nos segredos que perscruto 
no mar que um búzio retém.

Vozes que só eu escuto 
são a forma do meu corpo 
aqui absorto 
num sonho que depus além. *


Natália Correia













  
Internando-se pela laurissilva, procura desvendar e interpretar estes vestígios dos tempos antigos, pré-históricos, estuantes de vida e que resistem à acção da má conduta dos homens. O olhar é um pensamento que esvoaça e vai ao encontro de coisas belas, tantas, que compõem o universo. Mesmo quando a luz cambaleia e a beleza é ameaçadora o passo em frente é necessário. E o poeta consegue, sempre, escrever mais alto. É esta a sua convicção.

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.**

Herberto Helder
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Poemas de:
* Natália Correia, "O rosto que ninguém vê"
**Herberto Helder, "O olhar é um pensamento"

Eu vim de longe...Canção de José Mário Branco

Imagem:apontamento da floresta laurissilva-Madeira

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Ciclo Macaronésia

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Metamorfoses necessárias para a reconquista do mundo

Quando a flor da água não for superfície 
Nem for outra cor para a flor do fundo; 
Quando a sombra der de si mesma indício; 
Quando um lírio for de si mesmo oriundo;


Quando os astros forem a luz que os anima 
E as rosas iguais ao que são por fora 
E a forma do corpo florir na retina 
Subida do peso carnal que a demora;

Quando um rouxinol for no próprio canto 
Vibração da sua mais longínqua era; 
Quando as violetas não forem o espanto 
De se transformarem para a primavera;

Quando uma laranja comer um rapaz 
Em vez desta fome disposta ao contrário; 
Quando for o mesmo à frente ou atrás; 
Quando estar sentado for imaginário;

Quando uma donzela não for colorida 
E a terra a medida dum corpo no chão 
E a morte não for outro nome para a vida 
E a vida esta grande falta de razão:

Quando uma cidade for A Conseguida
Porque uma cigarra tem opinião;
Quando dar a mão não for despedida
E um gesto não for o exílio da mão…


Natália Correia

1923-1993


Senhora de grande talento, foi poeta, dramaturga, romancista, tradutora, jornalista, guionista e editora. Combativa, evidenciou-se em vários momentos
pelo seu posicionamento na vida política. A sua escrita foi classificada por alguns críticos como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica.

Poema retirado do Banco de Poesia Fernando Pessoa.