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terça-feira, 2 de julho de 2019

Oceano Nox







Junto do mar, que erguia gravemente 
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...

Antero de Quental, 

in "Sonetos"




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Poema: Citador
Imagem: daqui
Video: 
Mar ê morada de sodade - Bana

domingo, 23 de abril de 2017

Sempre o futuro, sempre! E o presente...






(A J. Félix dos Santos)

Sempre o futuro, sempre! E o presente
Nunca! Que seja esta hora em que se existe
De incerteza e de dor sempre a mais triste,
E só farte o desejo um bem ausente!

Ai! Que importa o futuro, se inclemente
Essa hora, em que a esperança nos consiste,
Chega… é presente… só à dor assiste?...
Assim, qual é a esperança que não mente?

Desventura ou delírio?... O que procuro,
Se me foge, é miragem enganosa,
Se me espera, pior, espectro impuro…

Assim a vida passa vagarosa:
O presente, a aspirar sempre ao futuro:
O futuro, uma sombra mentirosa

In: Sonetos


      (1842-1891)



É isso, a vida passa sim, mas não sei se vagarosa. O que eu sei é que preocupados com o futuro não vivemos o presente, praticamente. Preparamos o momento seguinte, o dia de amanhã, a próxima semana, o mês que há-de vir, os anos vindouros, a reforma. 

O trágico disso tudo é que nem sabemos se estamos vivos na milésima de segundo seguinte que o tempo transpõe no seu movimento aparente e inexorável, deixando de ser futuro.

Mas, Antero resolveu o problema. Espírito inquieto, meditativo, indo até ao âmago do valor das coisas, tomou o assunto nas suas mãos, agarrou o presente, fê-lo seu, acabando assim com todas as tuas dúvidas, numa atitude radical.

Eu, porém, prefiro a vida, a vida vivida momento a momento, numa gargalhada, num sorriso, num abraço. Também eu quero gerir esse presente, mas de outro modo: encarando a Vida como uma dádiva. 

A todos os que por aqui passarem, desejo um bom domingo.

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Poema: Banco de poesia Fernando Pessoa
Imagem: Pixabay 

domingo, 17 de janeiro de 2016

Mea Culpa


Não duvido que o Mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto e seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, 
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso à ordem; nem à lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda…
É minha mãe… Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza;
É de crer que só eu seja o culpado!

Antero de Quental
   (1842-1891)

Natural de Ponta Delgada, Açores. 
Poeta e ensaísta, domina toda a chamada geração de 70, de que foi o ideólogo destacado, muito mais pelo seu espírito, cultura e dignidade moral do que pela escassa obra literária que deixou.
Foi sob a influência dos românticos, principalmente Lamartine, Victor Hugo e até Soares de Passos, que começou a compor os seus primeiros versos, reunidos posteriormente nas Primaveras Românticas, editadas em 1872.
(...)após a descoberta de Michelet, Proudhon e Hegel, a sua poesia transforma-se, segundo ele, na «própria voz da Revolução». A edição das Odes Modernas, em 1865, desencadeou a nossa ainda hoje maior polémica literária — a Questão Coimbrã —, onde o ultra-romantismo conservador de Castilho e da sua escola foi zurzido sem piedade por um jovem de 23 anos em luta contra a falta de liberdade criativa que dominava a anacrónica «presidência» das letras portuguesas.(...)

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In: Banco de Poesia Fernando Pesoa

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Solemnia Verba

Disse ao meu coração: Olha por quantos 
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,




Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

Antero de Quental, in "Sonetos"

O desengano e a dor, presentes até ao limite na vida do autor.

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Poema: Citador
Imagem: aqui 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tu, pensamento, não és fogo, és luz!

Antero de Quental (1842-1891) divide a sua obra Odes Modernas em Livro I e Livro II e estes em temas, os quais preenche com poemas longos e inflamados, numa 'missão revolucionária pela poesia', tendo um papel activo na chamada Geração de 70. Nesta missão também estão Guilherme Braga, Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Gomes Leal e muitos outros. Nuno Júdice faz o prefácio da edição que tenho à minha frente e refere que 'Antero adopta a construção alegórica, na qual as figuras se adequam a um quadro narrativo pré-determinado: a história da luta dos tempos - passado, presente e futuro - cada um dos quais move um determinado número de actores'.  Neste Século XIX, em que estes intelectuais procuram destronar o artificialismo instalado na literatura e que levaria à famosa Questão Coimbrã, é também tempo de severas críticas às instituições civis e religiosas, como poderemos aquilatar pelas não menos famosas Conferências do Casino. Estas conferências seriam o passo seguinte à formação do Cenáculo, em 1868, com Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão, inicialmente grupo boémio mas que depois se polariza na figura de Antero, numa fase de reformismo social. Para já fico por aqui, e retiro das Odes Modernas, não 'Tese e Antítese' cujo verso congregador do último terceto do soneto I 'Tu, pensamento, não és fogo, és luz' tanta gente tem inspirado, mas parte de um poema dirigido 'a uns políticos' e que se insere no tema Vida (páginas 70/71):

V - Vida
(A uns políticos)

Por que é que combateis? Dir-se-á ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem há vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Forum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas
Sobre um só ponto, e a ânsia, o ardente vórtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra à vossa sombra...
Ou que a sombra vos toma a terra toda!
Dir-se-á que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus há dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E voguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, vão e percam-se
De vista, no horizonte sem limites...
Dir-se-á que o mar da vida é gota d'água
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a...
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais, temendo que não chegue!

Homens! para quem passa, arrebatado
Na corrente da vida, nessas águas
Sem limites, sem fundo - há mais perigo
De se afogar, que de morrer à sede!

(...)

 


Gosto da sua fase romântica presente em Primaveras Românticas, com poemas de amor e fantasia que ele compõe ainda menino e moço, na casa dos vinte aninhos,(1860-1865), publicados primeiramente em periódicos dispersos sendo depois compilados na referida obra. Voltarei com alguns sonetos.

Poema in: Odes Modernas
A Geração de 70 - Uma revolução cultural e literária - download aqui