Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se como um pote lanado no chão. Ali onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio já não restava nada. Nós estávamos mais pobres que nunca. Junhito tinha os joelhos escapando das pernas, cansado só de respirar. Já nem podíamos machambar.Minha mãe saía com a enxada, manhã cedinho, mas não se encaminhava para parte nenhuma. Não passava das micaias que vedavam o quintal. Ficava a olhar o antigamente. Seu corpo emagrecia, sua sombra crescia. Em pouco tempo, aquela sombra se ia tornar do tamanho de toda a terra.
Mesmo para nós, que tínhamos bens, a vida poentava, miserenta. Todos nos afundávamos, menos meu pai. Ele saudava a nossa condição, dizendo:a pobreza é a nossa maior defesa. A miséria faz conta era o novo patrão para quem trabalhávamos. Em paga recebíamos protecção contra más intenções dos bandidos. O velho exclamava, em satisfação:
_É bom assim! Quem não tem nada não chama inveja de ninguém. Melhor sentinela é não ter portas.
Excerto: Terra Sonânbula, de Mia Couto - pg.15
Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. É filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade. Ver mais aqui
E as timbilas obedeceram à voz de quem sabe das coisas.
Mia Couto e Joe Dassin iniciam esta Quinzena do Amor. Se tudo correr bem aqui para as minhas bandas, publicarei um poema ou dois todos os dias. O que quer dizer, meus queridos amigos: aprestem-se a ler, preparem os olhos, assestem os óculos ou monóculos que esta quinzena vai ser de muita leitura, e de que maneira!
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto (Beira, 5 de julho de 1955), é um escritor e biólogo moçambicano. Dentre os muitos prémios literários com os quais foi galardoado está o Prémio Neustadt, tido como o Nobel Americano. Couto e João Cabral de Melo Neto são os únicos escritores de língua portuguesa que receberam esta honraria. daqui
O navio faz-se ao mar e, por um momento, parece-me que quem se movimenta é o continente. Não será num barco que viajaremos. Navegaremos como sempre se viaja: através de lembranças e sonhos. Mas eu já não lembro nem sonho. Tenho quinze anos. Vou para longe de mim, sem bagagem e sem documentos. Mas levo comigo o meu filho, o princípio da minha eternidade.
A meio da noite, Dabondi e eu somos chamadas ao camarote do comandante Jaime Leote do Rego. À entrada, Dabondi toma nas suas mãos os braços do militar. É raro uma das nossas mulheres dar-se a esses avanços. A rainha, porém, simpatizou com o branco de barba grisalha. A afeição é recíproca: o tenente fita a rainha como se lhe estudasse o rosto. Perfeito, é ela quem eu queria, confirma ele com entusiasmo.
Ao fundo do camarote está uma tela suportada por um cavalete. Sobre uma cadeira estão pousados dois pincéis e uma paleta onde combinam diferentes tons de azul. Quero pintar o mar, confessa. Foi por isso que exigiu a presença de Dabondi. No cais, diz ele, escutei esta mulher. Diz-lhe que volte a cantar!
- Não sou eu que canto - argumenta Dabondi. Outros usam a minha voz.
- Diz a essa mulher que não estou habituado a pedir.
A rainha sorri e responde: Pergunta a esse homem se recebe ordens para sonhar.
Com a ponta dos dedos Dabondi afaga a tela com delicadeza. Acredita que está perante um tear e que o comandante é um tecelão. Com gestos redondos, como se falasse com os braços, o português apresenta a obra por começar: o mar não se vê: nele nos vemos nós. Depois acrescenta: Eu vi o oceano quando escutei esta mulher a cantar no cais.
Oferece um cálice de aguardente à rainha. Dabondi vaza o cálice de um trago. Acena o copo vazio reclamando por uma segunda dose. Se me escutou cantando, este branco não pode ser um inimigo, diz ela. E acrescenta: A bebida é boa, vou fazer-lhe a vontade. Depois a rainha solta a voz. O comandante cerra as pálpebras e, lentamente, as águas do mar inundam o seu camarote.
Com o braço direito soerguido, os passos afinados com a canção da rainha, o comandante Jaime Leote do Rego avança na minha direcção e pergunta:
- Já alguma vez dançaste com um homem branco?
Excerto, pgs. 106/107, O Bebedor de Horizontes, 3º volume da Trilogia, "As Areias do Imperador" - Mia Couto
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Fala de Imani que em conjunto com o Sargento Germano de Melo nos dão a conhecer esta parte da História de Moçambique, desenvolvendo uma narrativa epistolar. O sargento é uma personagem fictícia e em relação a Imani penso que se passa o mesmo. Não consegui encontrar qualquer referência como sendo real.
Mas ambos no desenrolar dos três livros têm a sua própria história. Uma história de vida. Íntima. E trágica. Espelho de outras vidas, talvez.
Jaime Leote do Rego, militar e oficial da marinha portuguesa, é comandante do navio onde seguiam, para o exílio, Ngungunyane, as suas sete mulheres, o filho Godide, o tio Molungo, o rival Zixaxa e as suas três mulheres. Para além de outros presos.
Dabondi é uma das sete mulheres do imperador.
O mar, esse, é uma entidade temida pelos vátuas.
Um pavor, quando tiveram de o enfrentar, embarcados
para destino desconhecido.
Elma Uamusse
Uma voz poderosa
Ao escritor foi atribuído o Prémio Jan Michalski, pela edição francesa da obra. O júri reconheceu “a excecional qualidade da escrita” de Mia Couto, que conjuga, “subtilmente, oralidade e narração literária e epistolar, contos, fábulas, sonhos e crenças, no seio da realidade histórica de Moçambique, no final do século XIX, na luta contra a colonização portuguesa”.*
Já Carlos Maria Bobone diz, em relação à Trilogia, que a obra não faz jus ao tema. Segundo ele: Mia Couto não podia ter escolhido melhor tema para a sua trilogia; e pior do que não ter feito um bom romance é ter conseguido fazer de um bom tema um mau romance.**
Poderá ver no "Xaile", dois posts sobre o assunto, Ngungunyane I, Ngungunyane II. Neles faço referência a:
Ungulani Ba Ka Kosa, que escreveu dois livros, "Ualalapi" e "As mulheres do Imperador", condensando-os num só volume,
e a:
Mia Couto, sobre o primeiro volume desta Trilogia que contém os seguintes títulos: I Mulheres de Cinza; II A Espada e a Azagaia; III O Bebedor de Horizontes.
Cingindo-se aos factos históricos, Mia Couto apresenta-os imprimindo-lhes o seu cunho peculiar, inconfundível.
Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é um escritor moçambicano, nascido em 5 de julho de 1955, na cidade de Beira. Trabalhou como jornalista durante quase 10 anos, porém ingressou na Faculdade de Biologia e, posteriormente, tornou-se professor universitário, profissão que concilia com a sua carreira de escritor. Assim, em 1983, publicou seu primeiro livro de poesias— Raiz de orvalho.
Já seu primeiro romance — Terra sonâmbula — foi publicado, em 1992, com grande sucesso de público e crítica. Ganhador do Prémio Camões em 2013, Mia Couto é um autor da literatura contemporânea, e suas obras são caracterizadas, principalmente, pelo resgate da tradição cultural moçambicana por meio de uma linguagem marcada por neologismos.
Mia Couto (1955) é um escritor, poeta e jornalista moçambicano. Ganhador do Prêmio Camões de 2013. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras para a cadeira n.º 5.
Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. Filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade.
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, n.1955 - escritor e biólogomoçambicano.
Conhecemo-lo não é verdade? Autor falado e admirado aqui no Xaile, por várias vezes, pela sua prosa, pela sua poesia, pelas suas ideias. Também pelo jeito de dar à Língua Portuguesa uma outra faceta, criando vocábulos e modo de dizer que retratam o ambiente moçambicano.
Hoje trago-o neste Poema, Identidade, que me dá a ideia (numa interpretação livre) de que para ser eu própria terei de entrar na pele do outro. Terei de sentir as suas lutas e fracassos. E congratular-me com as suas vitórias.
E assim lembro o povo moçambicano que atravessa momentos de grande dor. Na sua província de Cabo Delgado grassa o terror e a violência. E desespera por ajuda internacional.
Pergunta-me qualquer coisa, uma tolice, um mistério indecifrável, simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber. A incerteza bate à porta do coração? No amor há que desfazer todas as dúvidas.
Pergunta-me se ainda és o meu fogo se acendes ainda o minuto de cinza se despertas a ave magoada que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada se o vento tudo arrasta se na quietude do lago repousaram a fúria e o tropel de mil cavalos
Pergunta-me se te voltei a encontrar de todas as vezes que me detive junto das pontes enevoadas e se eras tu quem eu via na infinita dispersão do meu ser se eras tu que reunias pedaços do meu poema reconstruindo a folha rasgada na minha mão descrente
Qualquer coisa pergunta-me qualquer coisa uma tolice um mistério indecifrável simplesmente para que eu saiba que queres ainda saber para que mesmo sem te responder saibas o que te quero dizer
Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho' Mia Couto,(5 de julho de 1955), é um escritor e biólogo moçambicano. Estreou-se no prelo com um livro de poesia, Raiz de Orvalho, publicado em 1983.
Mia Couto tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crónicas, e é considerado como um dos escritores mais importantes de Moçambique. As suas obras são publicados em mais de 22 países e traduzidas em alemão, francês, castelhano, catalão, inglês e italiano. Ver mais aqui
Conhecendo o meu interesse pelas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, pessoa amiga enviou-me ontem a notícia do lançamento do Livro de Mia Couto e José Eduardo Agualusa, O Terrorista Elegante e outras histórias, ao que eu respondi: Um mundo interessantíssimo que não me canso de tentar descobrir. Esse livro que aparece agora faz-me quase visualizar a imagem do mapa cor-de-rosa, o caminho percorrido entre Angola e Moçambique, agora a nível cultural, passado quase século e meio.
Com efeito, é na Conferência de Berlim de 1884/1885 que se verifica a divisão de África, de que resulta uma Acta assinada por: França, Grã-Bretanha, Portugal, Alemanha, Bélgica, Itália, Espanha, Áustria-Hungria, Países Baixos, Dinamarca, Suécia e Noruega, Turquia e EUA, na qual foi activada a obrigação de uma ocupação efectiva desses territórios, de que resultaram as tais Campanhas de África, de má memória para os Africanos. Portugal apresentou nessa altura a pretensão de ter para si o corredor que vai de Angola a Moçambique, ao que a Grã-Bretanha se opôs.
Tive a oportunidade de fazer esse caminho com amigos, não há muito tempo, através de três videos cujos links (Parte I, Parte II, Parte III)aqui deixo, com o título "De Angola à Contra-Costa", lembrando a obra de Hermenegildo Capelo e Roberto Ivense asua travessia, um pouco antes do terminus da Conferência de Berlim. O mesmo é dizer que o trabalho desses dois cientistas/exploradores nada teria a ver com essa Conferência, porquanto foi realizada entre 6 de Janeiro de 1884 e 20 de Setembro de 1885, embora se integrasse num contexto político marcado por um forte surto expansionista europeu.
Mia Couto e Agualusa, mostram-nos nas suas obras, de ontem e de hoje, de quanto se fez esta viagem de séculos. Uma miscigenação, cultural neste caso, que traz para a Língua Portuguesa elementos de revigoração, a qual, por via disso, se perpetuará no tempo.
Façam esta viagem, amigos.
Nela encontrarão, porventura, muitos dos elementos que temos vindo a referir aqui no Xaile.
Nesta minha fase africanista muito severa, não que não tenha já passado por outras de igual cariz e com muito gosto, pretendo continuar a falar de Moçambique e da sua História, isto é, na óptica de alguns dos seus escritores. O tema em presença é o iniciado num post anterior intitulado: Ngungunyane ou as Areias do Imperador I. Começo com esta pergunta colocada por Mia Couto, sobre a questão dos mitos e dos heróis: Que nação no mundo não mitificou pelo menos uma parte da sua História? As nações precisam destas grandes mentiras. E, aqui, é quase cruel: cada vez que se gera um herói em Moçambique, ele está muito próximo de quem o criou. Um herói não pode ter essa proximidade.*
Na verdade e tendo em conta as experiências por que temos passado, verificamos que a História é uma construção humana. Documentos panegíricos é que o mais abunda. Por exemplo, na História de Portugal, bastaria lembrarmo-nos das crónicas de Fernão Lopes entre outros cronistas. E um dado interessante que agora me ocorre é que o que sabemos sobre os Gauleses foi-nos transmitido por Júlio César, em De Bello Gallico, onde narra a forma como venceu Vercingétorix (o verdadeiro Astérix da BD). Um simples apontamento. Isto para dizer que é preciso haver distanciamento para que os factos históricos sejam analisados, comparados, e lhes seja dado o cunho científico que se pretende nesta disciplina, muito embora ciência humana. E assim, a criação de mitos. Tratando-se de ferramentas importantes para determinada visão do mundo pátrio, é um elo que se quer forte na construção da identidade nacional.
E é na procura dessa identidade que Moçambique tem envidado esforços no sentido de marcar a sua moçambicanidade, focando a diversidade da sua cultura que se espraia nas muitas línguas nacionais e na sua relação com a língua portuguesa, cabendo aos intelectuais a maior parte dessa tarefa, com a utilização de uma língua que não é a sua, mas o veículo necessário para a transmissão das suas ideias.
Continuando com o tema proposto no titulo, depois de Ualalapi/As Mulheres do Imperador, de Ungulani Ba Ka Khosa,Mia Couto brinda-nos com uma trilogia sobre Ngungunyane, Gungunhana para os portugueses, (o último dos imperadores que governou toda a metade sul de Moçambique), quanto à sua acção, o seu tempo e son entourage: As areias do Imperador.** Nela, o autor prefere seguir um caminho diverso, uma estrada epistolar a par da oralidade (forma de transmissão dos ancestrais) afastando-se um pouco do conceito de romance histórico tradicional para se situar no campo de uma recriação quase poética ou recreação ficcional e também tendo em conta o maravilhoso, sem descurar, obviamente, os dados históricos em si. Mia Couto considera-se um poeta, e a partir desse dado constrói a trama dos seus livros, assinalando que a sua história não será menos verdadeira que as histórias oficiais tanto de Portugal como de Moçambique, sobre o assunto. Realmente, em toda a História do Homem, para cada momento há histórias e realidades que se sobrepõem. Uma visão unívoca pecará por insuficiente, creio eu. No caso desta trilogia, a acção se passa entre dois territórios: o dos documentos escritos e o da oralidade, como referi acima. Dois personagens contam a história: Um deles é osargento Germano de Melo. Mia Coutocoloca-o num posto no meio do nada e pô-lo a contactar os seus superiores através de cartas, nas quais lhes dá conta das dificuldades, da falta de recursos e em especial da falta de homens. É logo na primeira carta que diz isto, ele que participara na revolta de 31 de Janeiro e estava em Moçambique na condição de deportado: ...os nossos domínios, que tão pomposamente chamamos de "Terras da Coroa", encontram-se votados ao desgoverno e à imoralidade. Na maior parte desses territórios nunca nos fizemos realmente presentes durante séculos. E nas terras onde marcámos presença foi ainda mais grave, pois quase sempre nos fizemos representar por degredados e criminosos. Não existe, entre os nossos oficiais, nenhuma crença de que sejamos capazes de derrotar Gungunhane e o seu Estado de Gaza.*** Falta de homens e de recursos. E mais ainda: falta de organização dificultando a boa gestão dos poucos meios. Eis um dado histórico perfeitamente comprovado em todas as ex-colónias, um império demasiado vasto para um tão pequeno país. Esta acção decorre no último quartel do Século XIX, relativamente pouco tempo após a Conferência de Berlim de 1884/85 que retalha África e obriga os intervenientes a uma ocupação efectiva dos territórios. Então, um Ah! de espanto se evola dos nossos lábios perante as campanhas de pacificação e quejandos! Imani, menina de quinze anos, é o personagem que contará o outro lado da história, ela que pertence à tribo dos VaChopi uma das poucas que ousou opor-se à invasão de Ngungunyane. Tornar-se-à intérprete de Germano de Melo e apesar das diferenças entre os seus mundos há um envolvimento entre os dois que aumenta com o tempo, como se verá. A última carta do sargento, no primeiro volume, datada de 26 de Agosto de 1895, é escrita por Imani, que entretanto aprendeu a ler, porque segundo o próprio ficou sem mãos: ambas voaram como asas de anjo, rasgadas por uma bala desfechada à queima roupa. Assim também as cartas que se seguirão.
Termino esta exposição que já vai longa, transcrevendo ainda um pequeno texto que inicia o livro Um: A estrada é uma espada. A sua lâmina rasga o corpo da terra. Não tarda que a nossa nação seja um emaranhado de cicatrizes, um mapa feito de tantos golpes que nos orgulharemos mais das feridas que o intacto corpo que ainda conseguirmos salvar. =====
O post que se seguirá está relacionado com: as línguas nacionais e a língua portuguesa - o último por agora :)
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*Entrevista a Mia Couto em Ler - Inverno 2017/2018
**As areias do Imperador: Mulheres de Cinza-I, 2015 ; A Espada e a Azagaia-II, 2016; O Bebedor de Horizontes-III, 2017
No pós-independência houve tendência para transformá-lo num herói nacional. Mas o povo não o terá reconhecido como tal. Estava fresca na memória dos descendentes daqueles que sofreram os castigos e as invasões, a sanha hegemónica que comandava os actos do Imperador de Gaza, no Sul de Moçambique.
Vários foram os povos que sucumbiram sob o jugo da sua ambição desmedida. Diz-se que Mouzinho de Albuquerque lhe deu a mão numa altura em que, talvez, já não estivesse na sua pujança plena. Nos bancos da escola aprendemos que ele foi vencido e trazido para os Açores onde morreu. Os seus restos mortais foram trasladados para Moçambique mas também se desconfia que o esquife imperial apenas contivesse torrões de areia.
Ungulani Ba Ka Kosa, nome tsonga de Francisco Esaú Cossa, com a competência que a sua formação académica, como historiador, lhe confere e com a sua sensibilidade para assunto dessa importância, como romancista, traça em Ualalapi, 1987, a figura desse homem violento e cruel, um tirano para o seu povo bem como para os povos submetidos. Completa a sua narrativa, num só volume, com As Mulheres do Imperador, na qual conta a vida das mulheres que o acompanharam no exílio, secundarizadas e condenadas ao isolamento. Deixo aqui os nomes das sete mulheres deNgungunyane para que constem da nossa memória, aqui, e nos solidarizemos com elas, em espírito – Phatina, Malhalha, Namatuco, Lhésipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi. O imperador foi mantido nos Açores até à sua morte, em 1906. As mulheres foram forçadas a deixar os Açores e enviadas para novo exílio, São Tomé, onde viveram até 1911, altura em que, apenas quatro, conseguiram voltar para Moçambique, após quinze anos.
Mas, o que era Moçambique? Para essas mulheres apenas existia o Império de Gaza, para o bem e para o mal. Nada no seu imaginário lhes falava dessa pátria que viria a povoar os sonhos e os anelos de José Craveirinha. Com efeito, de forma abrangente e concreta, ele estendia a sua preocupação sobre o território que ia do Rovuma ao Incomati:
A comunidade de território aparece em Craveirinha como o elemento fundamental de identificação nacional (...): Machava e Ilha de Moçambique, Gaza e Zambézia, Manhiça e Mussoril, Guijá e Mocímboa do Rovuma, Norte, Centro e Sul reaparecem frequentemente a delimitar poeticamente a unidade entre povos que o colonialismo procurava dividir, e a fazer surgir como um todo coeso a imagem de um país de homens escravos:
“Arroz de Gaza apodreceu nos armazéns
na Zambézia a seca rebentou barrigas negras na Manhiça milho sobrou nos celeiros e nem um milho para cem bocas no Mussoril. No Guijá deu muita mexoeira mas nem um grão de mexoeira nem ao menos um grão em Mocímboa do Rovuma Ai a passividade animal!”
20 de Abril Ninguém nasce desta ou daquela raça. Só depois nos tornamos pretos, brancos ou de outra qualquer raça Extracto do diário de Irene, parafraseando Simone de Beauvoir
... 23 de Abril Deus fez a árvore para que o Homem não sentisse medo do tempo. Dito do cego Andaré 24 de Abril Já não carecemos da igreja: o mundo inteiro se converteu numa imensa igreja. De joelhos, arrebanhados até ao sonho, aceitamos a qualquer preço isso a que chamam de redenção. Dos cadernos de Irene 25 de Abril "Toda a terra ficará branca com a luz das estrelas e o céu será engolido pelas andorinhas" Shaka Zulu a Dingane, seu assassino 26 de Abril Até que o leão aprenda a escrever, o caçador será o único herói. Nozipo Maraire, em Carta a Minha Filha
... Vinte e Zinco é o título do livro que Mia Couto escreveu a convite da Editorial Caminho aquando do 25º aniversário da Revolução de Abril de 1974. É escrito em forma de diário, de 19 a 30 de Abril, e cada dia é iniciado com a citação de um dito dos personagens, exceptuando-se um ou outro.
Antes do primeiro dia, há uma página onde vem gravada esta fala da adivinhadora Jerussima, justificando-se o título do livro:
"Vinte e cinco é para vocês que vivem nos
bairros de cimento.
Para nós, negros pobres que vivemos na madeira
e zinco, o nosso dia ainda está por vir"
A referida Editora convidou, na altura, outros escritores constituindo assim uma colecção fechada, Colecção Caminho de Abril. Passo a indicá-los: Alexandre Pinheiro Torres - Amor, só Amor, Tudo Amor Alice Vieira - Vinte e Cinco a Sete Vozes Almeida Faria - A Reviravolta Carlos Brito - Vale a Pena Ter Esperança Germano Almeida - Dona Pura e os Camaradas de Abril Manuel Alegre - Uma Carga de Cavalaria Maria Isabel Barreno - As Vésperas Esquecidas Mário de Carvalho - Apuros de Um Pessimista em Fuga Mia Couto - Vinte e Zinco (citado acima) Sebastião Salgado - Um Fotógrafo em Abril Urbano Tavares Rodrigues - O Dia Último e o Primeiro De referir que a indicação da Editora, destes autores e das suas obras é apenas por amor à arte, não obedecendo assim a nenhuma espécie de publicidade de que o Xaile de Seda se distancia sempre. Neste Dia do Livro, proponho a leitura do livro de Mia Couto, que é o autor aqui homenageado, seguindo o meu propósito de, por estes dias, assinalar escritores moçambicanos, mas também poderá ser de um dos autores acima mencionados ou então um autor e um livro à vossa escolha.
O importante é ler e, também, respeitar os direitos autorais.
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Mia Couto, Vinte e Zinco - citações páginas: 11, 24, 59, 73, 90, 98 Leia, se interessar:
Uma análise:Mia Couto e a reescrita da história: o 25 de Abril em Vinte e Zinco
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, escritor moçambicano internacionalmente conhecido, lido e traduzido, nasceu na Beira em 1955.
A cidade da Beira, por vezes em conversa, é confundida com as nossas Beiras. Mas a raiz é de cá e, depois da independência de Moçambique, conservou essa designação. Fora originalmente fundada pelos portugueses em 1887, sendo-lhe atribuído o nome de um rio local, Chiveve. Em 1907, recebera a visita do Príncipe da Beira, Dom Luís Filipe portador do decreto real que a elevava à categoria de cidade. Tradicionalmente, o príncipe herdeiro de Portugal detinha o título de Príncipe da Beira, província histórica de Portugal.
Nesse aspecto, rezam as crónicas: Talvez por ser a maior província de Portugal, no século XVII, foi transformada num principado honorífico, cujo titular era, inicialmente, a filha mais velha do Monarca e, depois, o Príncipe herdeiro da coroa de Portugal.