Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.
Somos todos nós os verdadeiros culpados, são nossos os muros e as grades onde escondemos a verdade. E deles ninguém se evadiu, somos todos nós os verdadeiros evadidos.
Eduardo White sempre se impôs como um poeta impar desde os primórdios da sua infância literária. Poeta notável e respeitado pela sua invulgar criatividade no seio dos amantes da literatura moçambicana, dos PALOP e da CPLP, onde foi agraciado com vários prémios.
Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se como um pote lanado no chão. Ali onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio já não restava nada. Nós estávamos mais pobres que nunca. Junhito tinha os joelhos escapando das pernas, cansado só de respirar. Já nem podíamos machambar.Minha mãe saía com a enxada, manhã cedinho, mas não se encaminhava para parte nenhuma. Não passava das micaias que vedavam o quintal. Ficava a olhar o antigamente. Seu corpo emagrecia, sua sombra crescia. Em pouco tempo, aquela sombra se ia tornar do tamanho de toda a terra.
Mesmo para nós, que tínhamos bens, a vida poentava, miserenta. Todos nos afundávamos, menos meu pai. Ele saudava a nossa condição, dizendo:a pobreza é a nossa maior defesa. A miséria faz conta era o novo patrão para quem trabalhávamos. Em paga recebíamos protecção contra más intenções dos bandidos. O velho exclamava, em satisfação:
_É bom assim! Quem não tem nada não chama inveja de ninguém. Melhor sentinela é não ter portas.
Excerto: Terra Sonânbula, de Mia Couto - pg.15
Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. É filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade. Ver mais aqui
Sei que não estarás lá, mas finjo ignorá-lo, procuro pensar que saíste, que saíste há pouco, numa ausência breve, como se tivesses saído para logo regressares.
Quando chegasses, se tu chegasses, dir-te-ia: Tu lembras-te? E o verbo acordaria ecos, nostalgias distantes, velhos mitos privados.
Sei que não virás, conjecturo até, por vezes teus distantes, inúteis diálogos numa praça gris que imagino em tarde de invernia.
Então disfarço, ponho-me a inventar, por exemplo, uma longilínea praia deserta, uma fina, fria, nebulosa praia muito silenciosa e deserta.
Pensando nela fito de novo este lugar e digo para mim que apenas partiste por um breve instante.
Rui Manuel Correia Knopfli (Inhambane, Moçambique, 10 de agosto de 1932 — Lisboa, 25 de dezembro de 1997) foi um poeta, diplomata e crítico literário e de cinema português. (...)
Publicou uma obra que cruza as tradições literárias portuguesa e anglo-americana. Integrou o grupo de intelectuais moçambicanos que se opôs ao regime colonial. Foi diretor do vespertino A Tribuna (1974-1975).
O navio faz-se ao mar e, por um momento, parece-me que quem se movimenta é o continente. Não será num barco que viajaremos. Navegaremos como sempre se viaja: através de lembranças e sonhos. Mas eu já não lembro nem sonho. Tenho quinze anos. Vou para longe de mim, sem bagagem e sem documentos. Mas levo comigo o meu filho, o princípio da minha eternidade.
A meio da noite, Dabondi e eu somos chamadas ao camarote do comandante Jaime Leote do Rego. À entrada, Dabondi toma nas suas mãos os braços do militar. É raro uma das nossas mulheres dar-se a esses avanços. A rainha, porém, simpatizou com o branco de barba grisalha. A afeição é recíproca: o tenente fita a rainha como se lhe estudasse o rosto. Perfeito, é ela quem eu queria, confirma ele com entusiasmo.
Ao fundo do camarote está uma tela suportada por um cavalete. Sobre uma cadeira estão pousados dois pincéis e uma paleta onde combinam diferentes tons de azul. Quero pintar o mar, confessa. Foi por isso que exigiu a presença de Dabondi. No cais, diz ele, escutei esta mulher. Diz-lhe que volte a cantar!
- Não sou eu que canto - argumenta Dabondi. Outros usam a minha voz.
- Diz a essa mulher que não estou habituado a pedir.
A rainha sorri e responde: Pergunta a esse homem se recebe ordens para sonhar.
Com a ponta dos dedos Dabondi afaga a tela com delicadeza. Acredita que está perante um tear e que o comandante é um tecelão. Com gestos redondos, como se falasse com os braços, o português apresenta a obra por começar: o mar não se vê: nele nos vemos nós. Depois acrescenta: Eu vi o oceano quando escutei esta mulher a cantar no cais.
Oferece um cálice de aguardente à rainha. Dabondi vaza o cálice de um trago. Acena o copo vazio reclamando por uma segunda dose. Se me escutou cantando, este branco não pode ser um inimigo, diz ela. E acrescenta: A bebida é boa, vou fazer-lhe a vontade. Depois a rainha solta a voz. O comandante cerra as pálpebras e, lentamente, as águas do mar inundam o seu camarote.
Com o braço direito soerguido, os passos afinados com a canção da rainha, o comandante Jaime Leote do Rego avança na minha direcção e pergunta:
- Já alguma vez dançaste com um homem branco?
Excerto, pgs. 106/107, O Bebedor de Horizontes, 3º volume da Trilogia, "As Areias do Imperador" - Mia Couto
=====
Fala de Imani que em conjunto com o Sargento Germano de Melo nos dão a conhecer esta parte da História de Moçambique, desenvolvendo uma narrativa epistolar. O sargento é uma personagem fictícia e em relação a Imani penso que se passa o mesmo. Não consegui encontrar qualquer referência como sendo real.
Mas ambos no desenrolar dos três livros têm a sua própria história. Uma história de vida. Íntima. E trágica. Espelho de outras vidas, talvez.
Jaime Leote do Rego, militar e oficial da marinha portuguesa, é comandante do navio onde seguiam, para o exílio, Ngungunyane, as suas sete mulheres, o filho Godide, o tio Molungo, o rival Zixaxa e as suas três mulheres. Para além de outros presos.
Dabondi é uma das sete mulheres do imperador.
O mar, esse, é uma entidade temida pelos vátuas.
Um pavor, quando tiveram de o enfrentar, embarcados
para destino desconhecido.
Elma Uamusse
Uma voz poderosa
Ao escritor foi atribuído o Prémio Jan Michalski, pela edição francesa da obra. O júri reconheceu “a excecional qualidade da escrita” de Mia Couto, que conjuga, “subtilmente, oralidade e narração literária e epistolar, contos, fábulas, sonhos e crenças, no seio da realidade histórica de Moçambique, no final do século XIX, na luta contra a colonização portuguesa”.*
Já Carlos Maria Bobone diz, em relação à Trilogia, que a obra não faz jus ao tema. Segundo ele: Mia Couto não podia ter escolhido melhor tema para a sua trilogia; e pior do que não ter feito um bom romance é ter conseguido fazer de um bom tema um mau romance.**
Poderá ver no "Xaile", dois posts sobre o assunto, Ngungunyane I, Ngungunyane II. Neles faço referência a:
Ungulani Ba Ka Kosa, que escreveu dois livros, "Ualalapi" e "As mulheres do Imperador", condensando-os num só volume,
e a:
Mia Couto, sobre o primeiro volume desta Trilogia que contém os seguintes títulos: I Mulheres de Cinza; II A Espada e a Azagaia; III O Bebedor de Horizontes.
Cingindo-se aos factos históricos, Mia Couto apresenta-os imprimindo-lhes o seu cunho peculiar, inconfundível.
Mia Couto (António Emílio Leite Couto) é um escritor moçambicano, nascido em 5 de julho de 1955, na cidade de Beira. Trabalhou como jornalista durante quase 10 anos, porém ingressou na Faculdade de Biologia e, posteriormente, tornou-se professor universitário, profissão que concilia com a sua carreira de escritor. Assim, em 1983, publicou seu primeiro livro de poesias— Raiz de orvalho.
Já seu primeiro romance — Terra sonâmbula — foi publicado, em 1992, com grande sucesso de público e crítica. Ganhador do Prémio Camões em 2013, Mia Couto é um autor da literatura contemporânea, e suas obras são caracterizadas, principalmente, pelo resgate da tradição cultural moçambicana por meio de uma linguagem marcada por neologismos.
Os homens negros como eu não pedem para nascer nem para cantar. Mas nascem e cantam que a nossa voz é a voz incorruptível dos momentos de angústia sem voz e dos passos arrastados nas velhas machambas.
E se cantam e nascem os homens magros de olheiras fundas como eu não pediram a blasfémia de um sol que não fosse o mesmo para uma criança banto e o menino africânder.
Mas homens somos e com o mesmíssimo encanto magnífico dos filhos que geramos aqui estamos na vontade viril de viver o canto que sabemos e tornar também uma vida a vida de voluntário que não pedimos nem queremos e odiamos na ganga africana que vestimos e na ração de farinha que comemos.
E com as sementes rongas as flores silvestres das montanhas zulos e a dose de pólen das metralhadoras no ar de Sharpeville um xitotonguana azul canta num braço de imbondeiro e levanta no feitiço destes céus a volúpia terrível do nosso voo.
José João Craveirinhanasceu em Maputo, em 28 de maio de 1922, e morreu na mesma cidade, em 6 de fevereiro de 2003. Foi jornalista, poeta e cronista. É o principal nome da poesia de Moçambique, ao lado de Rui de Noronha, Kalungano (Marcelino dos Santos), Sérgio Vieira, Orlando Mendes, Rui Nogar, Sebastião Alba e Noémia de Sousa, entre outros autores.
Viveu a saga da resistência ao colonialismo português e participou ativamente do Movimento da Negritude. A resistência ao colonialismo e a sua participação nas ações da Frelimo motivaram a sua prisão, em 1965, pela polícia política portuguesa; julgado e condenado, cumpriu pena até 1969.
Recebeu inúmeros e importantes prêmios, entre os quais se destaca o Prêmio Camões, em 1991. A Universidade Eduardo Mondlane concedeu-lhe, em 2002, o grau de Doutor Honoris Causa e, como parte da homenagem, lançou na ocasião a suaObra Poética, com a inserção de vários poemas inéditos. Foi o primeiro presidente da Assembleia-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos. Foi também presidente da Assembleia-Geral da Associação Moçambicana de Língua Portuguesa. Escreveu os seguintes livros de poemas:Xigubo(1964),Karingana ua Karingana(1974),Maria(1980),Babalaze das Hienas(1997) ePoemas da Prisão(2003). Ver mais aqui
====
*(Sharpeville:Lugar de África do Sul onde em
20 de março de 1960 ocorreu uma repressão sangrenta
De volta às Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.
Desta vez trago Noémia de Sousa (Carolina Noémia Abranches de SousaSoares), considerada a Mãe da Literatura Moçambicana talvez por os seus poemas terem despertado consciências e acendido o diálogo com outras vontades e com o movimento da negritude, valendo-lhe ser presa e deportada para Portugal, juntamente com outros intelectuais moçambicanos. Viria a falecer em Cascais (2002).
É autora de um único livro de poemas, intitulado Sangue Negro, publicado apenas em 2001 pela Associação dos Escritores Moçambicanos, em homenagem ao seu 75º aniversário. O livro condensa a sua produção poética de 1948 a 1951. Os seus textos tinham sido publicados em jornais, como O Brado Africano, e em revistas, como a brasileira Sul. Mais aqui
Escritor moçambicano, Eduardo Costley White nasceu em Quelimane (Moçambique), a 21 de novembro de 1963 e faleceu a 24 de agosto de 2014. Numa preocupação com as origens, Eduardo White tenta na sua poesia refletir sobre a sua história e sobre Moçambique, numa tentativa de apagar as marcas da guerra e de dignificar a vida humana. Para isso, escreve através de um amor diversificado que pode ser pela amada, pela terra ou mesmo pela própria poesia, sempre num tom de ternura, de onirismo, de musicalidade e, por vezes, de erotismo.(Daqui)
Congratulei-me com a escolha de Paulina Chiziane para a atribuição do Prémio Camões deste ano. Em 2019 publicara no Xaile de Seda excertos de Balada de amor ao Vento. Vejo com agrado que foi uma das obras apontadas, para além de "Niketche" que também referi na altura.
Aproveito para transcrever o teor do texto que então produzi, sendo o título retirado de uma das passagens do livro, assinalando precisamente a poligamia, e com isso a humilhação da mulher no contexto africano. Há quem aceite com uma certa bonomia essa condição em determinados espaços, como sendo cultural. Não há dúvida de que há quem não concorde com isso.
E a autora, Paulina Chiziane, demonstra-o não só na sua obra como também no Testemunho: "Eu Mulher...por uma nova visão do mundo", cujo link indico abaixo.
Recordemos, pois, a minha publicação de 11/04/2019, sobre Paulina Chiziane e Balada de amor ao Vento:
PAULINA CHIZIANE, escritora moçambicana, diz-se contadora de histórias e não romancista: Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.* Essas suas palavras fazem-me lembrar a arte de contar a vida passada, os mitos e as lendas, que os mais velhos (os griots) transmitiam ou transmitem, ainda, aos jovens. A oratura - outra designação que tem vindo a fazer escola. Balada de amor ao Vento é o primeiro livro de Paulina Chiziane, publicado em 1990 e, tal como o nome indica, trata-se de uma história de amor, antes de mais. O primeiro capítulo começa já numa toada lírica envolvente, em que a saudade, as recordações num tom sofrido nos dão a medida do valor sentimental desta narrativa. Ali, toda a natureza é chamada: as árvores, as ervas, as plantas, as flores, os bichos e, especificamente, o Save. Este atravessa o livro, quase testemunhando as ilusões e desilusões de Sarnau no seu amor por Mwando. Tenho saudades do meu Save, das águas azul-esverdeadas do seu rio. Tenho saudades do verde canavial balançando ao vento, dos campos de mil cores em harmonia, das mangueiras, dos cajueiros e palmares sem fim. Quem me dera voltar aos matagais da minha infância, galgar as árvores centenárias como os gala-galas e comer frutas silvestres na frescura e na liberdade da planície verde. Estou envelhecida e sinto a aproximação do fim da minha jornada,(...)
Essa caminhada inicia-se quando Sarnau avista Mwando e sente-se presa àquele amor, irremediavelmente. Dá-se o encontro: as mãos encontram-se, veio o abraço tímido. Trocámos odores, trocámos sabores, empreendemos a primeira viagem celestial nas asas das borboletas.Mas cedo,vem a desilusão. Mwando casa-se com outra mulher por imposição familiar, diz ele.
E ela, Sarnau, descoroçoada, aceita casar com o filho do rei, recebendo a família o lobolo de 36 vacas. Depressa constata que existem mais seis mulheres além dela: agora somos sete...
Abri com violência a porta do meu quarto. Meu marido está ao lado de outra mulher mesmo na minha cama, sorriem, suspiram envoltos nas minhas capulanas novas, meu Deus, eu sou cadáver, abre-te terra, engole-me num só trago. Caminhei vencida para a fogueira e aqueci o banho deles...
Capulanas - património cultural moçambicano
Paulina Chiziane,denuncia, neste seu primeiro romance, a poligamia e a condição de subalternidade e humilhação da mulher. Fá-lo-á também em "Niketche - uma história de poligamia", publicado em 2002.
Queira ler, aqui, fazendo download, o seu Testemunho - EU, MULHER...POR UMA NOVA VISÃO DO MUNDO.
Mia Couto (1955) é um escritor, poeta e jornalista moçambicano. Ganhador do Prêmio Camões de 2013. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras para a cadeira n.º 5.
Mia Couto, pseudônimo de Antônio Emílio Leite Couto, nasceu na cidade da Beira, em Moçambique, África, no dia 5 de julho de 1955. Filho de Fernando Couto, emigrante português, jornalista e poeta que pertencia aos círculos intelectuais de sua cidade.
Ó ímpeto do Espírito, radícula que o vento despenteia e o músculo imprime travejado por dentro!
Ó longilínea dilatação do tempo, barca oblonga onde nascem os rios, lentos, adornando seu plasma na noite!
Da tua anca de água negra, das cavernas soltas no dorso do abismo, é que te escarvo, osso côncavo, a fauce rilhando de te lancetar a carne inútil, o gume da estraçalhada língua, o sibilante enigma, a curva suspensa e a sombra eléctrica, ó força, ó inominado!
E de te ver!
Nem linha elíptica, tu a combinatória do que persiste no desvão das palavras, quando ingénuas convocam a eternidade, e nem trave rectilínea ou frontispício, ou ensanguentada testa de fauno, tu que só aceitas o esterno e o ilíaco e a lava que se derrama dos pulmões furiosos;
E concebeste o indizível! Como dizer o que há no vazio em riste dessa curvatura, oscilante eco sem memória de ventre onde nem a águia se atreve ao vôo e a serpente se desenrola até à evaginação de si?
Não te nomeio. Caminho. E o plano se inclina, grave, ondulantemente terrível. Névoa ou pele ou pano, já às raízes se contraem e pulsam, odoríferas, húmidas, um enxamear de deuses espargindo a poeira;
E tu, intacto, flutuante onde ninguém te disse e a palavra se acoita, espasmódica, fetal. Seu silêncio enformando-o, ao osso, côncavo.
"O Osso Côncavo e outros poemas", uma Antologia, (1980-2004), foi lançada pela Caminho, em 2005.
Em 2018 foi-lhe atribuído o prémio de Literatura em Língua Portuguesa, "Oceanos" (4º lugar) pela obra "O Deus Restante".
Segundo Pedro Mexias,aqui, tanto nos livros mais antigos como nos recentes, Patraquim assume-se herdeiro de uma tradição lírica africana (em língua portuguesa) que apresenta características como o poema breve de verso curto e a ode mais expansiva, as referências histórico-geográficas, um ‘nós’ identitário que pode ser um ‘nós’ de amigos como de povos, o poema político,...
É a primeira vez que trago este autor ao Xaile de Seda. Talvez este poema não seja o mais expressivo, à primeira vista, em relação ao tema que pretendo abordar, em síntese. Mas é uma Ode, e as odes têm aquele quê de trágico que transcende o quotidiano. E o que se passa no norte de Moçambique nada tem de normal.
Há mais de três anos que se fala de Cabo Delgado, à boca pequena. Exceptuando-se Nuno Rogeiro que tem vindo a alertar incansavelmente, num programa de televisão, para a situação vivida por aquele povo, o resto da comunicação social pouco ou nada tem dito. E, de repente, faz parte das manchetes... Como diz o Da Literatura foi preciso que elementos estrangeiros fossem atacados para que o mundo começasse a tomar consciência do que lá se passa.
Continuo a citar:
Situada no extremo Norte de Moçambique, Palma é uma das principais bases de exploração de gás natural, naquele que é o maior investimento privado de toda a África. Entre as petrolíferas internacionais envolvidas destaca-se a Total, presente em Moçambique há mais de 60 anos.
Por junto, existem neste momento setecentos mil deslocados em Cabo Delgado, uma das onze províncias de Moçambique. mais aqui
Eduardo Costley-White (1963 - 2014) foi um poeta moçambicano.
Autor de vários livros de poesia como: Amar sobre o Índico (1984), Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (Caminho, 1992), Janela para Oriente (Caminho, 1999) ou O Manual das Mãos (Campo das Letras, 2004).
Além de poesia, publicou também novelas, como As Falas do Escorpião (2002), e outros textos em prosa. Mais aqui
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, n.1955 - escritor e biólogomoçambicano.
Conhecemo-lo não é verdade? Autor falado e admirado aqui no Xaile, por várias vezes, pela sua prosa, pela sua poesia, pelas suas ideias. Também pelo jeito de dar à Língua Portuguesa uma outra faceta, criando vocábulos e modo de dizer que retratam o ambiente moçambicano.
Hoje trago-o neste Poema, Identidade, que me dá a ideia (numa interpretação livre) de que para ser eu própria terei de entrar na pele do outro. Terei de sentir as suas lutas e fracassos. E congratular-me com as suas vitórias.
E assim lembro o povo moçambicano que atravessa momentos de grande dor. Na sua província de Cabo Delgado grassa o terror e a violência. E desespera por ajuda internacional.
Tenho uma janela amarela virada para Oriente. Docemente e sem assombro. Todos os dias me sento defronte dela para a olhar. E o vento que a bate faz-me um incêndio para escrever, desce devagar a rampa por onde vou saltar. Minha e sem fim esta natureza fresca dos seus vidros, a luz que por ela é uma magia tão puríssima. Tenho a janela num quarto que amo, unido com o sangue verde do vale que dela eu vejo, dos livros fechados em seus destinos, dos jornais aos montes e sem notícias. O ar deste quarto está de sorrisos e de surpresas, de desgostos que irão viver, cheio de lugares que ainda não sou. Oiço músicas dentro dele, caladas e brancas de repente, oiço cores incessantes e um poeta que pressinto esteja a morrer. Leio as palavras que o são. Frias. Concretas. Óbvias e desertas. E a morte é um murmúrio por detrás de tudo o que gritam sem dizer. Um sibilar envenenado e arrepiante, um voar rasante e precipitante. A morte desenha-lhe as mãos que daqui posso ver a tremerem. E, por isso, fica o quarto mais cinzento, mais frio, severo como a pedra de um deus.
É directo e dói o poeta, dói como um peregrino que amanhece sem dormir.
Eduardo White -Janela para Oriente - (excertos) - Caminho
=== Disse atrás que iria falar, por estes dias, da Literatura da Guiné Bissau, não é verdade? Contudo, eis-me aqui com este excerto do livro de Eduardo C. White, Janela para Oriente... Impressiona-me a saudade que perpassa na sua escrita. E a inspiração no espaço confinado de um quarto, um ar de sorrisos e surpresas e de lugares que nunca serão. E músicas e tantas outras coisas que invadem o poeta como peregrino na transmutação de um mundo que fica cinzento e frio. É directo e dói... ====
Escritor moçambicano, Eduardo Costley White nasceu em Quelimane (Moçambique), 1963-2014. Integrou um grupo literário que fundou, em 1984, a Revista Charrua. Junto a outros poetas, colaborou também com a Gazeta de Letras e Artes da Revista Tempo, publicação cuja importância, assim como Charrua, foi indiscutível para o desenvolvimento da literatura moçambicana. Por intermédio desses periódicos, afirmou-se um fazer poético intimista, caracterizado pela preocupação existencial e universalizante.aqui Em 2001, Eduardo White foi considerado a figura literária do ano em Moçambique, e três anos depois recebeu o Prémio José Craveirinha, atribuído pela AEMO ao seu livro O Manual das Mãos. Em 1992, já recebera o Prémio Nacional de Poesia por Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave. aqui ==== 1999 - JanelaparaOriente, Ed. Caminho