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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Lídia Jorge - Prémio Camões 2026




 A Literatura para mim é um caminho pessoal, não é uma carreira

Palavras de Lídia Jorge laureada com o Prémio Camões pelo conjunto da sua obra, contribuindo para o património literário e cívico-cultural da Língua Portuguesa.

Dedicou este prémio a todas as mulheres que a antecederam e que receberam o mesmo Prémio.

Antes de Lídia Jorge, por nove vezes o Prémio Camões foi atribuído a uma mulher. Rachel de Queiroz (1993), Sophia de Mello Breyner Andresen (1999), Maria Velho da Costa (2002), Augustina Bessa-Luís (2004), Lygia Fagundes Telles (2005), Hélia Correia (2015), Paula Chiziane (2021), Adélia Prado (2024) e Ana Paula Tavares (2025). Nos últimos três anos foram três escritoras a receber o prémio.

Também dedicou o Prémio aos Professores portugueses que ensinam a Língua Portuguesa em todo o mundo.



Lídia Jorge é autora de romances, contos, ensaios, poesia e crónica, alguns já lidos por mim. Mas deixo aqui este poema que versa sobre um tema que adoro: a Chuva. 

Cai a Chuva no Portal
Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-nos do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.

(inédito)


Abraços meus amigos.
Olinda


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O Prémio Camões foi atribuído no dia 2/7/2026.

Prémio Camões - aqui

Poema trazido do Citador

terça-feira, 31 de março de 2026

"O escritor e a sua época"

 Em Angola há um Programa denominado "O Escritor e a sua Época ", abarcando o espaço temporal desde o século XIX, que visa promover o conhecimento da literatura angolana, incentivando o estudo das suas obras e também no sentido de valorizar a Língua Portuguesa.

O programa já vai na sua 20ª edição e desta vez, 27 de Março, foi homenageada Maria Eugénia Neto, escritora e jornalista luso-angolana, que escreve nos géneros literários:  poesia, prosa, encómio e literatura infantojuvenil.

Aproveito a oportunidade para transcrever este seu poema:



“Asas brancas dos confins do meu sonho”

Dos confins dos meu sonho
Eu estendo asas brancas
Sobre o ódio sobre a dor
Sobre a tristeza e o desespero

Dos confins dos meu sonho
Envio-te o elo da amizade
Que faz palpitar os homens justos
E os faça unir as mãos
E Construir já o porvir
E venham torrentes e vendavais
Plenos de vida e de energia
Mostrar como é puro o meu anseio

Eu estendo asas brancas
Sobre o desespero de querer ser audaz
E ser vencido pela timidez
Devendo avançar e não dar o passo
Fechando-se e metamorfoseando-se
Como crisálidas em casulos

Eu estendo asas brancas
Intercalando-as no caminho dinâmico da vontade
E sobre a impotência de não poder libertar-se
Dos que amarram os homens aos seus erros

Asas brancas dos confins do meu sonho
Para que a fraternidade seja uma conquista
E os homens verdadeiramente sejam homens

Eugénia Neto,
in “Foi esperança e foi certeza”, UEA 1976


1978 - A recepcionar o embaixador da Polónia e a 
embaixatriz Aleksandra


Não nos esqueçamos que Maria Eugénia Neto, mulher de Agostinho Neto, desempenhou um papel muito importante na luta anti-colonial. Ver aqui 


***


Abraços, meus amigos.

Olinda


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Programa “O escritor e a sua época” homenageia…

Poema : aqui

sexta-feira, 27 de março de 2026

"A Senhora GPS"

 


Hoje, aliás, há já algum tempo, entramos no carro e seguimos caminho tendo antes inserido o endereço do GPS sem muitas preocupações, pois sabemos que chegaremos ao destino. Embora a voz que nos orienta seja por vezes incomodativa, vire à direita, vire à esquerda, saia na primeira saída da rotunda etc, temos em nós a certeza de que chegaremos sem problemas.

Lembro-me muito bem de quando queríamos ir a algum sítio, era aquela incerteza e íamos às apalpadelas, desejando encontrar pelo caminho alguém que nos indicasse a rua ou a região se as indicações de trânsito não fossem explícitas. Actualmente, vemos o carro a seguir estrada fora, uns a virem e outros e irem, e o nosso veículo bem assinalado na imagem.

Imaginamos quanto trabalho outros tiveram de desenvolver para que esta tecnologia nos viesse facilitar a vida. Além das dificuldades e obstáculos que tiveram de arrostar.



É o caso de Gladys West, 1930-2026, que deu o seu contributo e que ficou conhecida como  "mãe do Gps". Licenciada em Matemática colaborou nos cálculos que ajudariam a criar o Sistema de Posicionamento Global, vulgo GPS, que agora até as crianças aconselham os pais a recorrer a ele quando não conhecem o caminho. 

Em entrevista à agência Associated Press, em 2018, a pioneira admitiu que, na época em que trabalhou com os cálculos que ajudariam a criar o sistema do GPS, não tinha ideia do tamanho da importância que a tecnologia ganharia para a sociedade.



Hoje é o Dia da Mulher Cabo-Verdiana. Não consegui transferir para aqui a imagem que uma amiga me enviou, de modo que procurei esta na Net. 

Abraços.
Olinda

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Gladys West - aqui

quarta-feira, 11 de março de 2026

Cartas de Amor

 De António Lobo Antunes, 1942-2026, guardo, com ternura, o livro com as cartas que escrevera à mulher. De uma delas extraí algumas passagens a que intitulei "Meu querido amor", e que eu considerei a mais bela declaração de amor, incluída, salvo erro, numa "Quinzena do Amor".

São cartas de amor, de saudade e de descrição da guerra, quase um diário, com os altos e baixos, com um olhar crítico sobre o que se passava à sua volta. 

Tenho-o à minha frente e não resisto em transcrever mais uma pequena passagem, agora dedicada à filha:

Minha querida filha

Soube ontem que você tinha nascido, e não pode calcular a alegria que essa notícia me deu. Não sei o dia, não sei a hora, não sei como foi. Mas sei que você já está cá neste mundo, e isso é que é importante.

Sou o seu pai. Há nove meses que tenho por si um amor como nunca tive por ninguém. Um amor diferente. Há nove meses que sonho com este dia, que penso como serão os seus olhos, o seu cabelo, a sua cara. E tenho a certeza que você é a rapariga mais bonita, mais bonita do mundo, sinto-me, já, muito orgulhoso de si.

...

Até agora tive dois momentos de grande, de intensa felicidade na minha vida. O primeiro, quando casei com a sua mãe. O segundo foi ontem, ao saber que tinha nascido, você, a minha filha mais velha. Você é um testemunho do amor de seus pais, e mais um motivo a uni-los, a dar-lhes força e coragem. Você é a nossa filha. ... Pg 208 

Da sua extensa obra outros falarão e muito melhor do que eu. 

Contudo, assinalo aqui "Sôbolos rios que vão", título retirado de um poema de Camõesnuma altura em que precisava reflectir sobre o fluxo contínuo da vida da memória e da arte. 

Sôbolos rios que vão

Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado. 
..." 
Luis Vaz de Camões



Que siga com os rios, António Lobo Antunes.  


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D'este viver aqui neste papel descripto
Cartas de Guerra
1ª edição outubro de 2005
Lobo Antunes - aqui, no Xaile de Seda

sábado, 7 de março de 2026

Revelação de Arquétipos


Hipnotizaste minha inocência,
tocaste em algo muito raro.

Em meio à escuridão,
uma rosa te esperava.

Despertei, mesmo vulnerável,
eu te permiti, sem entender.

O acesso indeferido aos demais
foi liberado. ofereci-te minha raridade.

Há tempo não florescia,
como contigo...

Teu toque despertou meu desabrochar,
sei saberes minha vulnerabilidade.

Estava trancada em mim,
minha nudez de alma   tu desvendastes.

Despiste-me, viste como sou,
sem máscaras, de forma genuína.

Não se trata de roupas,
sim, de vestes da alma, algo sagrado.

Um sentimento místico, mágico,
nudez de espírito, despertou-nos.

Tu despertaste-me, foste despertado,
foste luz na minha escuridão.

Nus, não nos esquecemos,
somos o real um ante o outro.

De forma genuína, me tocaste,
sentiste-me, não nos esquecemos.

Foge da explicação lógica,
chama gêmea, nos compactuamos.

Sinto-me com o ouro na mão,
além da matéria, guardo no coração.

Somos segredo do nossa essência,
nosso sagrado não foi violado.

Eu  me mostrei vulnerável,
ante tua sobriedade, tua lógica.

Momento único, irreversível,
já não voltamos atrás...






Daqui vos saúdo, meus amigos!

Depois de algum tempo de Pausa volto para o vosso convívio.
Neste ano não me foi possível editar a "Quinzena do Amor",
mas a amiga Rosélia Bezerra não se esqueceu e enviou-me um
belo poema. Prometi-lhe que o mesmo constaria do meu 
primeiro post.

Amanhã é o Dia destinado no Calendário à Mulher. Embora
saibamos que a mulher está sempre activa em todos os dias
do ano, aproveitemo-lo para a prestigiar e honrar.

Abraços e beijinhos.

Olinda


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Imagem: pixabay

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Na sombra de Camilo?

 



Sempre ouvimos falar de Ana Plácido quando é referido Camilo Castelo Branco, o célebre escritor que teve uma vida conturbada, com prisão pelo meio e que mais tarde seria acometido pela cegueira e paralisia. Não conseguindo arrostar com as dificuldades da vida resolveu pôr-lhe fim.

Consta da biografia de Ana Augusta Plácido (1831-1895), viscondessa de Correia Botelho, que foi escritora e que publicou romances, crónicas, poemas, contos e que participou activamente da imprensa portuguesa e brasileira no século XIX. 

De aqui constam algumas das publicações que contaram com a colaboração da autora: A Esperança – Semanário de Recreio Literário, Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, O Ateneu, O Civilizador, Diário Ilustrado, O Leme, O Nacional.

Em 1863 publicou o seu primeiro romance, Luz Coada por Ferros, uma obra em tom amargo, onde Plácido recorda o tempo em que esteve presa na Cadeia da Relação do Porto por adultério, em virtude da sua relação com Castelo Branco. 

Na dedicatória à memória da irmã Maria José, escreveu:

[…] «Grande parte destes escritos nasceram na calamitosa época do cárcere e do escárnio dos meus algozes, nunca saciados das torturas que me infligiram. Dedicar-te-hei, pois, estas páginas, onde por vezes aparece o teu nome como a estrela da manhã, rompendo a custo das sombras pesadas da noite: é um dever sagrado. Foste a minha única amiga neste mundo: não conheci afeição mais verdadeira.» […]

Em 1871, já a viver na Quinta de São Miguel de Seide (onde hoje funciona a casa-museu dedicada a Camilo), publicou o romance Herança de Lágrimas. Sob o pseudónimo de Gastão Vidal de Negreiros, começou a publicar na Gazeta Literária do Porto o romance Regina, que ficou inacabado."

Então qual o motivo desse quase anonimato? Encontramos explicação no facto de quase todas as mulheres que escreviam, para serem levadas a sério, assinavam com nomes masculinos.

Lê-se que: No decurso da sua carreira literária assinou algumas vezes com pseudónimos, sendo os mais conhecidos Gastão Vidal de Negreiros (como se referiu acima) e Lopo de Sousa. Também usou abreviaturas, sendo as mais comuns A. A. (Ana Augusta) e A. A. Plácido (Ana Augusta Plácido).



Casa-museu inaugurada em 1922,
Camilo Castelo Branco


Portanto, esta é a mulher que esteve com Camilo no cárcere sob acusação de adultério e com quem casaria após o falecimento do marido, ficando eles a residir na casa que recebeu de herança e que passaria a ser a Casa-museu de Camilo Castelo Branco. 

Esta é a mulher inteligente e intelectual que o acompanhou toda a vida e que o ajudou em muitos textos. O caso do processo de adultério prejudicou-a socialmente, não se dando a conhecer como merecia levando-a a uma grande humildade e quase escondendo a sua qualidade de escritora.

Também na vida familiar não terá tido a vida facilitada. Teresa Bernardino escreveu O Segredo de Ana Plácido, romance em que aborda a vida de Camilo pelo mais imprevisível dos ângulos: através do olhar louco e visionário de Jorge, o segundo filho do casal.

Diz-se que, tendo em conta o que se sabe de Ana Plácido, as circunstâncias da sua vida coloca-a num destacado lugar de luta pela emancipação feminina.


Abraços, meus amigos.
Olinda





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- Veja aqui : "Sabe quem é Ana Plácido?" de José Soeiro, um artigo que não só foca as discriminações em relação â mulher intelectual, à mulher trabalhadora-escravizada, 
como também à colonização.

- Bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco, aqui, no Xaile de Seda.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

AQUI






Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu — eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
in 'Dia do Mar'



Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Ler mais






Boa sexta-feira, meus amigos.
Abraços
Olinda



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Poema - citador
Veja esta autora, aqui, no Xaile de Seda

sexta-feira, 11 de julho de 2025

"As Melusinas à Margem do Rio"




Tenho estado a ler alguns livros de Philippa Gregory sobre a "Guerra das Rosas", de 1455 a 1487, entre a Casa Lencastre e a Casa de York, uma guerra feroz entre primos. Tratando-se de uma aristocracia terra-tenente, o objectivo maior era deixar herdeiros, prometendo em casamento meninos e meninas no sentido de juntar casas e fortunas. Assim, o importante era ascender ao trono e permanecer ali e se necessário mandar decapitar familiares e amigos que tentassem impedir esse estado de coisas, no seu próprio interesse, como é evidente.

O penúltimo romance que li foi "A Rainha Branca", referente à flor branca dos York. A esposa de Eduardo IV de nome Isabel Woodville, era tida como bruxa dizendo-se que o seu poder lhe vinha de Melusina, personagem da lenda e folclore europeus, um espírito feminino das águas doces em rios e fontes sagradas. Ela é geralmente representada como uma mulher que é uma serpente ou peixe (ao estilo das sereias), da cintura para baixo. 

Consta que, a beira do rio Tamisa, Isabel Woodville e a mãe, Jacquetta de Luxemburgo, lançariam pragas para que Melusina produzisse tempestades no sentido de que a parte contrária não pudesse avançar com as suas tropas. 

Posto isto, chamou-me a atenção a notícia de que um documentário da autoria de Melanie Pereira ganhara o prémio de grande vencedor do 21º festival de cinema DocLisboa, em 2023, com este título: "As Melusinas à Margem do rio". 

Esse documentário nada tem a ver com a Guerra das Rosas, mas sim com Melusina e o rio e sobre o fenómeno da imigração. Fala da história de cinco mulheres, reflectindo sobre identidades fragmentadas e sentimentos de não pertença: Ana-Filipa, Melina, shanila, Amela, e a própria realizadora, Melanie, nascidas em Luxemburgo de pais imigrados. A finalidade do filme é, precisamente, tentar uma reconciliação com o país que as viu nascer. Contudo, no trailer diz-se que o que é fragmentado não tem reconstituição possível.

Eis uma passagem do referido documentário:

Há também algo de profundamente terapêutico na forma como Melanie Pereira, se aproxima das suas amigas: Ana Filipa, Melina, Shanila e Amelia. As conversas que partilham não têm pressa. São feitas de pausas, de memórias familiares, de perguntas difíceis como “De onde és, afinal?”. O que para muitos é uma pergunta banal, mas para elas é um poço sem fundo. “As Melusinas à Margem do Rio” não procura respostas fáceis. Antes, tenta habitar o desconforto, o desenraizamento, a sensação de nunca se ser “de lá”, mesmo quando se nasceu lá. A segurança económica e o conforto social do Luxemburgo não apagam o sentimento de exclusão cultural. E é nesse desfasamento que nasce a dor, mas também a arte e a simplicidade da realizadora.

Transpus a similaridade deste caso para outros que conheço, de filhos de imigrantes que nascem em países que não os dos pais e que lutam toda a vida com essa diferença.

Um exemplo flagrante, mal estudado, é o caso dos filhos dos europeus que vieram de África, os chamados retornados, que nunca se integraram verdadeiramente e os filhos dos africanos que carregam nas costas a marca desse estrangeirismo
 
O papel do documentário referido acima é deveras importante porque foca esse sentimento de não pertença. Filhos sem terra, quase expatriados, que não pertencem a lado nenhum, que tentam construir uma vida baseada no trabalho, na integração social e política e que nem sempre se sentem realizados.  



Abraços, amigos.
Olinda



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Imagem: pixabay

Embora o documentário se refira a Luxemburgo, em homenagem aos livros de Philippa Gregory optei pela imagem acima. Isabel Woodville esteve muito tempo refugiada com os seus filhos, na Abadia de Westminster.

Ver aqui "As Melusinas à Margem do Rio - Análise / Uma história de sereias reais".



domingo, 22 de junho de 2025

Contrição





           (a pretexto de uma mulher de Portinari
           que lembra Picasso (ou Antonello?
)

Meus versos já têm o seu detractor sistemático:
uma misoginia desocupada entretém os ócios
compridos, meticulosamente debruçada sobre
a letra indecisa de meus versos.
Em vigília atenta cruza o périplo das noites
de olhos perdidos na brancura manchada do papel,
progredindo com infalível pontaria
na pista das palavras e seus modelos.

Aqui se detecta Manuel Bandeira e além
Carlos Drummond de Andrade também
brasileiro. Esta palavra vida
foi roubada a Manuel da Fonseca
(ou foi o russo Vladimir Maiacovsky
quem a gritou primeiro?). Esta,
cardo, é Torga indubitável, e
se Deus Omnipresente se pressente,
num verso só que seja, é um Deus
em segunda trindade, colhido no Régio
dos anos trinta. Se me permito uma blague,
provável é que a tenha decalcado em O’Neill
(Alexandre), ou até num Brecht
mais longínquo. Aquele repicar de sinos
pelo Natal é de novo Bandeira (Porque não
Augusto Gil, António Nobre, João
de Deus?). Estão-me interditas,
com certos ritmos, certas palavras. Assim,
não devo dizer flor nem fruto,
tão-pouco utilizar este ou aquele nome próprio,
e ainda certas formas da linguagem comum,
desde o adeus português (surrealista)
ao obrigatório bom-dia! (neo-realista).
Escrevendo-o quantos poetas, sem o saber,
mo interditavam apenas a mim; a mim, perplexo
e interrogativo, perguntando-me, desolado:
— E agora, José?, isto é, — E agora, Rui?

Felizmente, é pouco lido o detractor de meus versos,
senão saberia que também furto em Vinícius,
Eliot, Robert Lowell, Wilfred Owen
e Dylan Thomas. No grego Kavafi,
no chinês Po-Chu-I, no turco
Pir Sultan Abdal, no alemão
Gunter Eich, no russo André Vozenesensky
e numa boa mancheia de franceses. Que desde
a Pedra Filosofal arrecado em Jorge de Sena.
Que subtraio de Alberto de Lacerda
e pilho em Herberto Hélder e que
— quando lá chego e sempre que posso —
furto ao velho Camões. Que, em suma,
roubando aos ricos para dar a este pobre,
sou o Robin Hood dos Parnasos e das Pasárgadas.

Mas bastando-lhe o pouco que sabe de meus delitos,
e sem esse tanto que ignora, o detractor de meus versos.
relata circunstanciadamente e com detalhes perversos,
a feia história de meus feios actos.
A distracção de grupos sonolentos
acorda enfim para o timbre esquisito do meu nome
(Na sombra envenenada se entretece
o primeiro braçado dos louros que hão-de
cingir-me a fronte…). Por isso não quero mal
ao detractor de meus versos. Antes lhe quero
bem. Pela teimosa persistência do seu trabalho
vigilante é afinal um detractor amoroso,
o sistemático detractor de meus versos.

Rui Knopfli

(de Mangas Verdes com Sal, 1969)


Rui Manuel Correia Knopfli (InhambaneMoçambique10 de agosto de 1932 - Lisboa25 de dezembro de 1997), foi um poetadiplomata e crítico literário e de cinema português.




Veja aqui a interessante biografia de
Rui Knopfli  



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Poema -  aqui
Considerações sobre a escrita de Rui Knopli - aqui
Imagem: pixabay

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Diz




Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram 
de ti

o que quiseram 
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher 
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas 
de gritar
tua vida encarcerada

In: Mulheres de Abril
p. 21 a 23




Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros (1937-2025) foi uma escritora, jornalista e poetisa portuguesa. É uma das autoras do livro Novas Cartas Portuguesas, pelo qual foi processada e julgada em 1972, ao lado de Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa. aqui




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Nota:
Publiquei este poema no ano passado, aquando do 50º aniversário do 25 de Abril.
Volto a publicá-lo hoje, em homenagem a esta grande Mulher que faleceu a 4 de Fevereiro deste ano.

sexta-feira, 28 de março de 2025

A louca




Ela andava com o filho por todo o lado, fazendo ele parte do seu corpo mesmo depois de nascido. Punha-o às costas, amarrava-o à cintura, desafiava precipícios agarrando-o pelos bracitos. 

Fruto de (quem sabe?), sedução ou violação por parte do senhor da terra, que, talvez, tivesse mais filhos que terras. Homem tido como portador de valores, fino, de bom trato, discípulo de padres, autoridade máxima da terra, casado. Os filhos, não reconhecidos, povoavam a sua casa, tratavam-no por tio. 

A mulher legítima, teve dois filhos e soçobrava sob o peso dessa população. O quarto, a solidão seria a sua melhor companheira. Talvez sofresse de depressão crónica, doença não diagnosticada na época.

Ela, a louca, viu-se sem o filho antes de lhe acontecer alguma desgraça. Foi-lhe retirado pela família do pai da criança. Conheci este filho de ninguém. Chamava-se Júlio. Meu tio.

Vítimas do tempo, da época, das contingências morais e sociais, que obrigavam a mulher a atitudes que se assemelhavam, muitas vezes, a patologia incurável ou à loucura. 



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Pintura: Almada Negreiros


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Como nos Prodígios


Sou-te presente mulher e chama,
ímpeto fremente de lua abandonada.
aberta do calor na turbulência da noite,
ignota fonte de ternura derramada.



Encontrou-o à entrada do deserto,

absorto, como se conhecesse

todas as invocações do silêncio.

Lia-se nos olhos dele a atracção pelo vento,

pelas areias, pelo espaço imenso, pela solidão.

Ela saía do deserto. O mesmo deserto.

Trazia um cacto murcho em cada mão

e um rio seco a escamar-lhe a pele.

Olharam-se. Ela contou-lhe.

Contou-lhe das vezes que se afogou no chão

pensando que era água;

como rebentaram seus lábios pela sede interminável.

Disse-lhe que quase morreu com saudades do mar;

que bebeu o próprio sangue

para curar a febre e o delírio.

Falou-lhe do medo e do cansaço

que venceu cambaleando, rastejando,

dormindo agarrada à noite.

Ele hesitou.

Depois, com uma quietude

que nos prodígios acontece,

pegou-lhe na mão e foi com ela até ao mar.

Graça Pires



Como nos prodígios apreende-se o mistério
que envolve este belo poema.
As palavras envolvem-nos e fazem-nos pressentir um
certo sofrimento e dedicação aproximado ao amor.



Paganini



O blog: Ortografiadoolhar


Quinzena do Amor

Post 1-Só o amor; Post 2-Alastrar Paz e Amor; Post 3-Ouça as vozesPost 4-Estética da Vida; Post 5-Quando o Amor chora de sede; Post 6-Um gosto antigo de alfazema


===

In: A solidão é como o vento, de Graça Pires

pg.61

Citação: Rio de Infinitos, pg162

domingo, 8 de dezembro de 2024

"XV Interação Fraterna de Natal"


Convite da amiga Rosélia Bezerra para

a Festa do Advento, de

08 a 15/12/24


Tema:

SE O MENINO DEUS NASCESSE NO LITORAL
 

***






MILAGRE DE NATAL

Dia de sol brilhante
não corria sequer uma aragem
o céu azul com milhentas nuvens
brancas de um algodão macio
a terra ressequida abria
gretas clamando aos céus
e as aves surgiam em 
inquietas revoadas

O mar parecia feito
de azeite doce, e ao longe
uma falua remansa vogava
num mar de calmaria prenhe de 
maus presságios, contraste com
a placidez do lugar, enquanto a
natureza parecia rolar
mansamente

De súbito pérolas de todos
os tamanhos, gotas preciosas
atingem os miúdos que corriam
nas brincadeiras de roda
e de senhor barqueiro deixe-me
passar tenho filhos pequeninos
que preciso sustentar, passarás
mas um deles deixarás

Num cesto de vime, frágil
vislumbra-se uma cabecinha
mimosa e sorridente que
seguindo a viva correnteza
semeava de esperança os anos
de seca extrema que grassava
e distribuía belas e perfumadas
flores, prenúncio de 
bonança

Atrás seguiam, uma mulher
e um homem com o seu cajado que
abria passagem por entre as
pedras que, obedientes e graciosas,
como nenúfares, se fastavam e 
davam passagem
a tão bela carga, e ouvia-se
num coro celestial e harmonioso
que inundava o ar

GLORIA IN 
EXCELSIS DEO!

Olinda

***



***



***


Desejo a todos um Santo Natal.


***


IMAGEM DE PARTICIPAÇÃO NO DESAFIO.
(Fui buscá-la à Chica.:) Não consegui copiá-la do blog da Rosélia)



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Imagem: Nossa Senhora e o Menino - Antonello da Messina