De António Lobo Antunes, 1942-2026, guardo, com ternura, o livro com as cartas que escrevera à mulher. De uma delas extraí algumas passagens a que intitulei "Meu querido amor", e que eu considerei a mais bela declaração de amor, incluída, salvo erro, numa "Quinzena do Amor".
São cartas de amor, de saudade e de descrição da guerra, quase um diário, com os altos e baixos, com um olhar crítico sobre o que se passava à sua volta.
Tenho-o à minha frente e não resisto em transcrever mais uma pequena passagem, agora dedicada à filha:
Minha querida filha
Soube ontem que você tinha nascido, e não pode calcular a alegria que essa notícia me deu. Não sei o dia, não sei a hora, não sei como foi. Mas sei que você já está cá neste mundo, e isso é que é importante.
Sou o seu pai. Há nove meses que tenho por si um amor como nunca tive por ninguém. Um amor diferente. Há nove meses que sonho com este dia, que penso como serão os seus olhos, o seu cabelo, a sua cara. E tenho a certeza que você é a rapariga mais bonita, mais bonita do mundo, sinto-me, já, muito orgulhoso de si.
...
Até agora tive dois momentos de grande, de intensa felicidade na minha vida. O primeiro, quando casei com a sua mãe. O segundo foi ontem, ao saber que tinha nascido, você, a minha filha mais velha. Você é um testemunho do amor de seus pais, e mais um motivo a uni-los, a dar-lhes força e coragem. Você é a nossa filha. ... Pg 208
Por Babylonia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nella passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Que siga com os rios, António Lobo Antunes.
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D'este viver aqui neste papel descriptoCartas de Guerra
1ª edição outubro de 2005
Lobo Antunes - aqui, no Xaile de Seda
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