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domingo, 11 de fevereiro de 2024

Éramos Tu e Eu





Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.
As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga

De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.
A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.

 




E o milagre mais uma vez acontece. 
O maior amor do mundo.






Violeta Parra
Gracias a la vida



***

Nota: amanhã teremos a publicação de dois poemas.





====
Poema: Site de António Miranda

Dina Salústio (1957), pseudónimo adoptado por Bernardina de Oliveira Salústio, é uma antiga jornalista, professora e premiada escritora cabo-verdiana.Considerada a primeira mulher a escrever um romance em Cabo Verde e é membro fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras. Foi por duas vezes distinguida pelo Governo de Cabo Verde, primeiro com a Medalha de Mérito Cultural e depois com a 1ª Classe da Medalha do Vulcão. aqui

domingo, 5 de junho de 2022

Loucura no feminino

Isabel Raflaia, como lhe chamavam, achava que a minha mãe lhe tinha roubado o marido e os filhos. Tudo era dela. A casa, todos os haveres. E dizia-o em grande espavento e alarido. Andava pelas ruas andrajosa, vivendo do que lhe davam, mas não esquecia o caminho da nossa casa. Minha mãe vivia horrores quando ela aparecia, um misto de receio e compaixão. Abrigava-a, punha-a confortável. Marcou de tal maneira a nossa infância, minha e dos meus irmãos, que penso nela muitas vezes. Com uma nota de ternura. 

Procuro adivinhar as suas vivências e desaires. Que voragem de loucura era aquela em que o cérebro lhe ditava tais fantasias? Procuro adivinhar se teria ou não momentos de lucidez. Se nesses momentos nos via como éramos, filhos de um casal conhecido. Ou se a sua solidão era maior do que a realidade.

E pergunto-me: O que se passaria naquela cabeça? Que confusões e que perdas não terá sofrido na vida que a levavam àquela obsessão?


Almada Negreiros


Por motivos semi-profissionais tenho de ler "A Louca de Serrano", de Dina Salústio, daí, talvez, esta revisitação de Isabel Raflaia. Contudo, vejo que não me é possível ler esse livro pois está esgotado. Procurei-o por cá, pedi a amigos que mo procurassem na terra da escritora e nada. Pessoa amiga falou com o filho dela no sentido de obter alguma informação sobre editoras ou livrarias. E nada. Contento-me, para já, com o que se diz dele. Ou com alguma crítica e apreciação que encontre por aí.

Mas é uma dificuldade. Não há um resumo sequer, disponível. Há informações de download grátis mas depois vêm as exigências de liberalização de dados pessoais. Quer dizer que não há almoços grátis, como se costuma dizer. Leio que o romance foi o primeiro escrito, em Cabo Verde, por uma mulher. Vertido para a língua inglesa por Jethro Soutar, ganhou o Prémio PEN Reino Unido de Tradução, o que encheu de orgulho o país, conforme comunicado do ministério da cultura e das indústrias criativas:
 

A distinção (…) é um orgulho para Cabo Verde e um reconhecimento à mais expressiva e original voz literária feminina do actual panorama literário cabo-verdiano. É também um estímulo às escritoras cabo-verdianas e à internacionalização da literatura, dos contos, e da prosa no feminino. aqui


Nas minhas deambulações virtuais encontro títulos aliciantes de recensões críticas como "Memória e loucura: o movimento da insularidade em A louca de serrano, de Dina Salústio", que diz uma ou duas palavras sobre o assunto e depois não dá acesso. 

Em "Vozes femininas na obra A Louca de Serrano de Dina Salústio" há uma maior abertura. Consta de quatro páginas e revela o seu propósito, que é analisar as construções de gênero que permeiam a obra de Dina Salústio, levando em conta tanto o conteúdo da obra quanto a figura autoral feminina. E, mais adiante,


Ao tomar a figura mítica da Louca como veículo para revelar as verdades que os serranenses insistem em tentar esconder, a autora constrói uma narrativa do feminino cuja potência reside justamente nessa retomada de poder e na superação de um lugar discursivo relegado à subalternidade. Essa estratégia de representação dialoga muito bem com o próprio trajeto das mulheres na literatura, que muitas vezes enfrentam o mesmo silenciamento ao adentrar o universo literário. Da mesma forma, ao representar os homens de Serrano como figuras que, por prepotência ou ignorância, se recusam a ver as ditas verdades, a autora se utiliza do artifício da ironia e de um humor sutil para desestabilizar e contestar o lugar de poder que eles ocupam. aqui


Almada Negreiros


Fiquei deveras empolgada quando encontrei isto: "Entre dois mundos: a loucura feminina nos romances A Louca de Serrano, de Dina Salústio, e O alegre canto da perdiz, de Paulina Chiziane". Também Paulina Chiziane foi a primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, "Balada de amor ao vento", com o qual foi galardoada com o Prémio Camões, neste ano de 2022. Em relação ao tema que hoje aqui me traz, diz o que se segue, (claro que gostaria de uma maior explanação):

A literatura de autoria feminina nas sociedades pós-coloniais é considerada por Gayatri C. Spivak um processo metonímico da saga das mulheres usado como ferramenta de denúncia, que possibilita a quebra de mitos e preconceitos há muito reforçados pelo discurso patriarcal. (...) O objetivo desta tese é investigar nos romances A Louca de Serrano e O alegre canto da perdiz, de Dina Salústio e Paulina Chiziane, respectivamente, como se constrói a temática da loucura, representada pelas mulheres africanas (e personagens) Louca de Serrano e Maria das Dores (louca do rio), que pode ser compreendida como uma voz carregada de solidão, dor, negação, rebeldia e inconformismo e como marca de resistência à marginalização feminina nas e pelas práticas sociais hegemônicas. aqui


E pronto, fico por aqui. Resta-me pedir à autora que tenha a fineza de mandar fazer uma nova edição do referido livro, que parece ter sido muito limitada. Portanto, um apelo:

Dina Salústio, há quem queira ler "A Louca de Serrano"!


Meus amigos, tenham muito bom dia.

Abraços

Olinda


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Nota:
Veja aqui, no Xaile de Seda, dois belos poemas de Almada Negreiros, ilustrados com trabalhos seus:

Reconhecimento à Loucura
Rio-me sim rio-me do que fazem

 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Éramos tu eu




Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.

As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.



O Milagre dos milagres. O amor incondicional. O lugar de todas as emoções. E Dina Salústio di-lo como ninguém.




Dina Salústio (pseudónimo de Bernardina Oliveira), escritora e poetisa cabo-verdiana nascida em 1941, em Santo Antão, em Cabo Verde, com o nome de Bernardina Oliveira.
Publicou em 1994 uma colectânea de 35 contos, Mornas Eram as Noites, que lhe valeu a obtenção do Prémio de Literatura Infantil de Cabo Verde.
A Louca de Serrano assinalou a sua estréia no romance, em 1998.
Dina Salústio foi uma das fundadoras da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, assim como de diversas publicações literárias.
Paralelamente à sua actividade de escritora, foi professora, assistente social e jornalista em Cabo Verde, assim como em Portugal e em Angola. Dirigiu também um programa de rádio dedicado a assuntos educativos e foi produtora de rádio.
Trabalhou ainda para o Ministério dos Assuntos Exteriores de Cabo Verde.


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Quinzena do Amor:



Imagens: Pixabay