Mostrar mensagens com a etiqueta Autores cabo-verdianos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Autores cabo-verdianos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Testamento para o dia claro






Quando do fundo da noite vier o eco da última palavra submissa
         E a patina do tempo cobrir a moldura do herói derradeiro,

         Quando o fumo do último ovo de cianeto
         Se dissipar na atmosfera de gases rarefeitos
         E a chama da vela da esperança
         Se acender em sol na madrugada do novo dia

         Quando só restar na franja da memória
         Lapidada pelo buril dos tempos ácidos
         A estria da amargura inconseqüente
         E a palavra da boca dos profetas
         Não ricochetear no muro do concreto
         Da negrura sem fundo de um poço submerso

         Sejais vós ao menos infância renovada da minha vida
         A colher uma a uma as pétalas dispersas
         Da grinalda dos sonhos interditos.
          
          ARNALDO FRANÇA

Arnaldo Carlos de Vasconcelos França nasceu na cidade da Praia, Cabo Verde, em 1925. Graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Universidade Técnica de Lisboa.

Queira ler mais sobre este autor, aqui, no Xaile de Seda.



====
Poema:Do site de António Miranda
e Blog Esquina do Tempo de Brito-Semedo
Imagem: daqui

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Éramos tu eu




Éramos eu e tu
Dentro de mim
Centenas de fantasmas compunham o espectáculo
E o medo
Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.

Mãos agarradas
Pulsos acariciados
Um afago nas faces.

Éramos tu e eu
Dentro de nós
Suores inundavam os olhos
Alagavam lençóis
Corriam para o mar.
As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga.

Éramos tu e eu
Dentro de nós.

As contracções cada vez mais rápidas
O descontrolo
A emoção
A ciência atenta
O oxigénio
A mão amiga
De repente a grande urgência
A Hora
A Violência
Éramos nós libertando-nos de nós.
É nossa a dor.

São nossos o sangue e as águas
O grito é nosso
A vida é tua
O filho é meu.

Os lábios esquecem o riso
Os olhos a luz
O corpo a dor.

A exaustão total
O correr do pano
O fim do parto.



O Milagre dos milagres. O amor incondicional. O lugar de todas as emoções. E Dina Salústio di-lo como ninguém.




Dina Salústio (pseudónimo de Bernardina Oliveira), escritora e poetisa cabo-verdiana nascida em 1941, em Santo Antão, em Cabo Verde, com o nome de Bernardina Oliveira.
Publicou em 1994 uma colectânea de 35 contos, Mornas Eram as Noites, que lhe valeu a obtenção do Prémio de Literatura Infantil de Cabo Verde.
A Louca de Serrano assinalou a sua estréia no romance, em 1998.
Dina Salústio foi uma das fundadoras da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, assim como de diversas publicações literárias.
Paralelamente à sua actividade de escritora, foi professora, assistente social e jornalista em Cabo Verde, assim como em Portugal e em Angola. Dirigiu também um programa de rádio dedicado a assuntos educativos e foi produtora de rádio.
Trabalhou ainda para o Ministério dos Assuntos Exteriores de Cabo Verde.


======

Quinzena do Amor:



Imagens: Pixabay

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nas praias da minha infância morrem barcos desmantelados





BARCOS

   "Nha terra ê quel piquinino
   ê São Vicente ê quê di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...


Yolanda Morazzo

Yolanda Morazzo Lopes da Silva Cruz Ferreira, poeta e escritora de língua portuguesa. Nasceu em Mindelo, ilha de S.Vicente-Cabo Verde, em 1928. 
Ver a antologia poética, No Reino de Caliban I, pg.200.

====
Imagem - daqui
Poema

sábado, 13 de junho de 2015

O político que queria ser poeta

Palavras de Corsino Tolentino no discurso que proferiu quando foi distinguido com o prémio Amílcar Cabral, em 2007. Do seu jeito de poeta deixo mais abaixo um poema dedicado à outra parte do seu grande projecto: Cabo Verde. Cabo Verde que, com sabedoria, vai seguindo o seu caminho gerindo os seus poucos recursos e as ajudas que lhe chegam. Dez ilhas no meio do oceano. 

E é a uma dessas ilhas que Cabral dedica estas palavras:


ILHA

Tu vives — mãe adormecida —  

                nua e esquecida,
                seca,
                fustigada pelos ventos,
                ao som de músicas sem música
                das águas que nos prendem…  

                Ilha:  
                teus montes e teus vales  
                não sentiram passar os tempos  
                e ficaram no mundo dos teus sonhos  
                —    os sonhos dos teus filhos   —  
                a clamar aos ventos que passam,  
                e às aves que voam, livres,  
                as tuas ânsias!  
                 Ilha:  
                colina sem fim de terra vermelha  
                —    terra dura   —  
                rochas escarpadas tapando os horizontes,  
                mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

                                                                              Praia -Santiago, 1945                                                                                                                   




Amílcar Cabral, um homem afável e profundo, um teórico com sentido prático e também um político original que viveu e agiu entre o rigor do cientista, que foi, e a liberdade do poeta que queria ser.



quinta-feira, 28 de maio de 2015

" Biografia do Língua", Mário Lúcio Sousa e Miguel Torga

Mário Lúcio Sousa é um escritor e músico cabo-verdiano. Também Ministro da Cultura. Com o seu romance Biografia do Língua, obra inédita, venceu a edição deste ano do Prémio Literário Miguel Torga, instituído pela Câmara Municipal de Coimbra e destinado a autores de língua portuguesa.

Segundo li aquio autor conta a história, parcialmente baseada em factos reais, de "um escravo que sabia línguas" e que, a partir de Cabo Verde, após os Descobrimentos, no século XV, seguia a bordo das naus portuguesas para "ajudar a vender outros irmãos", no Brasil e noutros territórios da América do Sul.

Tempo também para reler um dos poemas de Miguel Torga, no caso, com um título e desenvolvimento bastante sugestivos:

Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga

in 'Cântico do Homem' 


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Talvez um dia...Quem sabe!





POEMA

Talvez um dia
Quem sabe!...

Sim
talvez um dia...
pedra jogada
à nossa gaiola de vidro
e para nós
a fuga
além fronteira do mar.

Talvez arrebente um dia
o búzio dos mistérios
no fundo do mar
e mais um vulcão venha a tona
— dez vinte
mil vulcões — Quem sabe!...
e as ilhas fiquem derretidas:
Estranha alquimia
de montes e árvores
de lavas e mastros
de gestos e gritos.

Talvez um dia
onde é seco o vale
e as árvores dispersas
haja rios e florestas.
E surjam cidades de aço
e os pilões se tornem moinhos.

Ilhas renascidas
nuvens libertas...
Talvez um continente
À medida dos nossos desejos.

Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!

Arménio Vieira, Prémio Camões 2009





Palavras fortes, estranha alquimia. Exageros de poeta? Na sua visão escatológica prevê e anseia por uma renovação, rompendo fronteiras, um milagre da natureza. E progresso.

Fustigada pelos ventos contra-alísios, as lestadas, que arrastam para longe as nuvens prenhes de água, envolvida pela bruma seca vinda do Saara, é caso para dizer: "Gente sem sorte, ca tem ramede, tchorá bô sina, tchorá magoade"*.

E quando o vulcão se cansar de vomitar lavas incandescentes as pessoas voltarão. No sopé, a terra terá o adubo de que precisa para o cultivo da vinha. Na Chã das Caldeiras. E farão dela a terra do leite e do mel.

Povo paciente e resistente que lê nas estrelas o seu destino.

______

*Da Morna- letra de Gabriel Mariano, música de Jacinto Estrela:Sina de Cabo Verde.

O Poema foi retirado do site de António Miranda.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pela estrada longa da minha esperança




De cabelo ao vento,
  Pela estrada longa da minha esperança,
  Vou marchando sempre,
  Ao compasso quente do meu coração.

  Vou de mãos vazias, vou de lábios secos.
  Pela estrada longa da minha esperança
  Vou colhendo tudo e vou deixando tudo.

  Dias, meses, anos, vou-os sepultando
  Sob a estrada longa da minha esperança.

  Olham para mim
  E gritam de sarcasmo:
  -Por que vais marchando, por que vais sorrindo?
  Que mistério é esse que te acena ao longe?


         Vão caindo folhas...
         Frios ventos uivam
         Pelo descampado...


Aguinaldo Fonseca
   (1922-2014)

(Linha do Horizonte, 1958)

in: No Reino do Caliban, pg 167

****


Chegados a este poema, Aguinaldo Fonseca deixa uma pergunta no ar:'Que mistério é esse que te acena ao longe?'. Talvez seja mesmo a esperança a acenar-nos, a dizer 'estou aqui', não se percam de mim. Mas também há uma pergunta no ar em relação a ele próprio: Por que motivo não publicou mais nada além do livro de poemas, 'Linha do Horizonte'? Desesperança ou teria encontrado as respostas todas? Poderia um poeta desta força deixar de escrever, se ele considerava: 'para mim, poesia é vida'?

Considerado o primeiro, de entre os poetas cabo-verdianos, a envolver África, como um todo, na sua poesia, atravessando os limites da sua insularidade, e, muito embora não esquecendo os grandes temas da seca e da fome privilegiados a partir dos claridosos, 1936, não há dúvida que a sua obra consubstancia muitos dos princípios que fizeram escola no movimento designado por negritude.

Numa análise de Amílcar Cabral, lê-se a respeito:(...) a evolução da Poesia Cabo-Verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a “resignação” e a “esperança”. A “insularidade total” e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene.
As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de “querer partir”, não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas – os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum – compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.
Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.
Realmente Aguinaldo Fonseca fez chegar até nós a mensagem da sua Nova Poesia
Depois...calou-se?
 ****
Pela estrada longa da esperança este autor foi marchando, mas aos poucos foi murchando e a poesia, sua vida, foi acabando. Calou- se o poeta e o motivo só ele o saberá; mas...a esperança foi diminuindo...a ingratidão foi sentindo e aos poucos foi deixando tudo. Talvez se tenha cansado, o poeta, cansado de não ser ouvido...de não ser entendido e não ser reconhecido pelo tanto que estava a dar ao seu povo, alertando...consolando...dando esperanças . E, do mesmo modo que caem as folhas foram caindo as sua letras perdendo-se no grande descampado. Gostei muito de ter conhecido este poeta, Olinda e tenho pena que se tenha calado. Ainda bem que te lembraste dele e nos deste a conhecer o grande poeta Aguinaldo Fonseca.

Os Poetas vêm e sentem o caminho e o chamamento; parece depreender-se qual "[...] mistério é esse que (...) acena ao longe[...]".
Na Vida há muitos acenos a indicar os novos rumos traçados.
Acerca das tuas Notas complementares (excelentes) apenas a notação de que um Poeta não o é pelos Livros que escreve ou escreveu.
Haviam (há) demasiadas resistências (políticas e económicas) á publicação de Poesia na época, sobretudo quando se tratava de um Cidadão Português de Cabo Verde.

****
Imagem: Tela de Modesto Mamba-angolano
Retirado de aqui

domingo, 2 de fevereiro de 2014

E a Lua Cheia que veio // A voz quente do batuque, // Faz feitiço... // E o negro dorme // Sonhando ser santo um dia.



Magia negra

Abro
  De par em par a janela
  Ao convite da noite tropical.
  E a noite enche o meu quarto de estrelas vivas.

  Nesta hora morna e calma,
  Profunda e densa como um túnel,
  O rumorejar longínquo das palmeiras
  Varrendo o Céu
  É misteriosa voz do negro martirizado

  Prendo os meus gestos e o meu grito abafo.
  Silêncio...
  No poço da paz nocturna
  Interceptada
  Pela orgia sincopada
  Das estrelas e dos grilos,
  Arrasta-se o vão lamento
  Da África dos meus Avós,
  Do coração desta noite,
  Ferido, sangrando ainda
   Suores e chicotes.

  E a Lua Cheia que veio
  A voz quente do batuque,
  Faz feitiço...
  E o negro dorme
  Sonhando ser santo um dia.

  Aguinaldo Fonseca
     (1922-2014)

(Linha do Horizonte, 1951)

in:No Reino de Caliban, pg 165


***

Penúltimo post desta série, em homenagem a Aguinaldo Fonseca.

Agradeço a todos, tanto a presença como os comentários.

Votos de um bom domingo.

Abraço

Olinda


***

Imagem: Pintura- de Malangatana, moçambicano.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Herança





O meu avô escravo
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.

As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.

Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.

Meus sonhos
de asas desfeitas pelo sol da vida
deslocam-se como répteis sobre a areia quente
e enroscam-se raivosos
no cordame petrificado da fragata
das mil partidas frustradas.

Ah meu avô escravo
como tu
eu também estou encarcerado
neste navio fantasma
eternamente encalhado
entre mar e céu.

Como tu
também tenho a esmola do luar
e por amante
essa mulher de bruma, universal, fugaz,
que vai e vem
passeando à beira-mar
ou cavalgando sobre o dorso das borrascas
chamando, chamando sempre,
na voz do vento e das ondas.

Aguinaldo Fonseca
   (1922-2014)

(Claridade, nº8, 1958)

in: No Reino de Caliban, pgs 158/159


Imagem:Trabalho de Eduardo Malé
artista são-tomense


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Estiagem




Esta secura calada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.

Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.

(Oh! que desejo de uma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas)!

Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?

Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.

Aguinaldo Fonseca

  (1922-2014)

(Claridade, nº 8, 1958)

in: No Reino do Caliban, pg 166

****

 Emília Pinto
  1. Assim como a Mãe negra, também nós temos a tendência de olhar o céu tão azul para ver se ele nos aquieta... se enche o nosso coração de esperança...de muita serenidade. às vezes por mais azul que esteja só vemos nuvens escuras carregadas de cinzento, mas continuamos sempre à espera que uma estrelinha brilhe em " forma de
    carícia ", mas, a " secura calada na garganta" e horizonte estreito
    a estrangular distâncias e esperanças" continuam. Fome de pão...fome de afectos...fome de humanidade; muitos " gritos " por todo o lado num" poço de angústia amordaçada "
    E assim vai este poeta cantando as desventuras de um povo nos seus dias de " estiagem."
    Obrigada, Olinda por este momento de bela poesia. Um beijinho, amiga e, apesar de tanta chuva, desejo-te um bom fim de semana
    Emília
  2. A geografia do nordeste do Brasil, é tão semelhante a de Cabo Verde, e já cantada e decantada por vários poetas de cá e de lá... Que comumente me embrenho na paisagem dos dois países, como se estivesse em um.

    Sou uma apreciadora do movimento Claridade, o momento em que nasce uma poesia caboverdiana, onde a poética das Ilhas Crioulas, a diáspora, o milho, as montanhas, o lestada, o harmatão, a solidão, o universo, o Oceano Atlântico dão o movimento poético, a identidade poética dos Claridosos, dos pós-claridosos e dos contemporâneos, como Vera Duarte, Dina Salústio, Filinto Silva, José Luís Hopffer Almada, entre outros...

    Que alegria, que bela poesia, que lindo gesto o seu, Olinda!

    Obrigada, querida, um beijão!

    ;))

cabo-verdiano

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mãe Negra




A mãe negra embala o filho
  
  Canta a remota canção
  Que seus avós já cantavam
  Em noites sem madrugada.

  Canta, canta para o céu
  Tão estrelado e festivo.

  É para o céu que ela canta,
  Que o céu
  Às vezes também é negro.

  No céu
  Tão estrelado e festivo
  Não há branco, não há preto,
  Não há vermelho e amarelo.
  -Todos são anjos e santos
  Guardados com mãos divinas.

  A mãe negra não tem casa
  Nem carinhos de ninguém...

  A mãe negra é triste, triste,
   E tem um filho nos braços...

  Mas olha o céu estrelado
  E de repente sorri.
  Parece-lhe que cada estrela
  É uma mão acenando
  Com simpatia e saudade...

   Aguinaldo Fonseca
      (1922-2014)

  (Linha do Horizonte, 1951)

in; No Reino do Caliban, pg 163


***

E a nossa querida Elvira recorda-nos aqui Prelúdio/MÃE-NEGRA, de Alda Lara, na maravilhosa voz de Paulo de Carvalho:





Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos 
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..

Lisboa, 1951 (Poemas, 1966)

Poema: retirado do comentário e de O Castendo

****Imagem: Pintura de Keith Mallet, norte-americano.
Estilo pictórico africano, moderno

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Voo desfeito no berço





Revolta


(Ao Evandro Matos)*

Revolta dentro do peito
 Por aquilo que não fiz
 E que eu devia ter feito.

Revolta dentro de mim
Por tropeçar em mim mesmo,
Por não saber onde estou...
Por caminhar tanto a esmo
Que trago os passos perdidos
Nos próprios passos que dou.

Revolta desde menino
Por tantas horas perdidas
A procurar o Destino
Nas sombras doutros destinos.

Revolta crua e sem fim...
Tantos pedaços de mim
Que destrocei sem saber!...
Revolta, sempre revolta,
Por um pedaço de céu
Que não me dão... e era meu...

Revolta, funda revolta,
Dentes rangendo na sombra.

No fundo de um corredor
Crescem gemidos de dor
Dos escravos meus avós...
Grilhetas prendendo os pés,
Prendendo também a voz...
E o sangue formou um rio
E o rio correu para o mar
E foi chorar, noite e dia,
Nas praias de todo o mundo.

Revolta dentro de nós,
Revolta arrastando os passos...
Vozes mancharam-me a voz,
Braços prenderam os braços...
Voo desfeito no berço...

Revolta crua e sem fim,
Revolta triste e infeliz,
Por trazer esta revolta
Fechada dentro de mim,
Num verso que nunca fiz.

Aguinaldo Fonseca
   (1922-2004)

(Linha do Horizonte, 1951)

In: No Reino de Caliban, pgs 160/161



* Sobre Evandro Matos: Esquina do Tempo


Imagem: 
Batik de Anselmo José Godinho
Guineense

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Nova Poesia




(Ao Amílcar Cabral)

Um dia, misteriosamente,
  A Poesia perdeu-se.
  E muita gente
  Andou por montes e vales
  Buscando-a raivosamente.

  Encostas inacessíveis
  Foram galgadas em vão.
  Gritos e mãos para os céus,
  Lágrimas, sangue e suor...
  E a própria vida
  Foi também oferecida...
  Mas a poesia estava
  Irremediavelmente perdida.

  Os homens gritaram raivas:
  -Não sabiam que fazer...

  Mas, de cada peito contrito
  De cada lágrima ou grito,
  De cada gesto de dor,
  De todo o sangue ou suor
  Discretamente nascia 
  Uma nova Poesia.

Aguinaldo Fonseca
  (1922-2014)

(Linha do Horizonte, 1951)

in: No Reino de Caliban, pgs 165/166


  
Imagem: Gakonga e Augusta Asberry