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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Você: Brasil


Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas Você é parecido com a minha terra.

E o seu povo que se parece com o meu,
que todos eles vieram de escravos
com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.
E o seu falar português que se parece com o nosso falar,
ambos cheiros de um sotaque vagaroso,
de sílabas pisadas na ponta da língua,
de alongamentos timbrados nos lábios
e de expressões terníssimas e desconcertantes.
É a alma da nossa gente humilde que reflete
A alma das sua gente simples,

Ambas cristãs e supersticiosas,
sortindo ainda saudades antigas
dos sertões africanos,
compreendendo uma poesia natural,
que ninguém lhes disse,
e sabendo uma filosofia sem erudição,
que ninguém lhes ensinou.

E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.
dos seus cateretês, das suas toadas de negros,
caiu também no gosto da gente de cá,
que os canta dança e sente,
com o mesmo entusiasmo
e com o mesmo desalinho também...
As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,
fazem lembrar as suas músicas,
com igual simplicidade e igual emoção.

Você, Brasil, é parecido com a minha terra,
as secas do Ceará são as nossas estiagens,
com a mesma intensidade de dramas e renúncias.
Mas há no entanto uma diferença:
é que os seus retirantes
têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,
ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem
porque seria para se afogarem no mar...

Ler mais aqui

Jorge Barbosa

Jorge Vera-Cruz Barbosa nasceu na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 1902. Faleceu em Cova da Piedade, Portugal, em 1971. Foi funcionário público. Um dos membros mais importantes do movimento Claridade.
Publicou: Arquipélago. São Vicente: Cabo Verde, 1936; Ambiente. Praia: Cabo Verde, 1941. Caderno de um Ilhéu. Lisboa: 1956.

Do site de António Miranda

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Imagem do Rio de Janeiro - Net

sábado, 9 de julho de 2016

Viagem na noite longa



Na noite longa
minha alma
chora sua fome de séculos

Meus olhos crescem
e choram famintos de eternidade
até serem duas estrelas
brilhantes
no céu imenso.

E o infinito se detém em mim

Na noite longa
uma remotíssima nostalgia
afunda minha alma
E eu choro marítimas lágrimas
Enquanto meu desejo heróico
de engolir os céus
se alarga
e é já céu

Tenho então
a sensação esparsamente longa
de vogar no absoluto.

                        (Selô,1962)

MÁRIO FONSECA

Quem foi Mário Fonseca, ou seja, Mário Alberto de Almeida Fonseca? Veja aqui.
Entretanto, sempre vou dizendo que nasceu na Praia, Cabo Verde, e que foi um Poeta revolucionário, escritor, visionário e ex-combatente pela liberdade da Pátria (1963/74).

Cabo Verde tornou-se independente em 5 de Julho de 1975. Durante este mês de Julho trarei alguns apontamentos relacionados com a sua literatura.

 Desejo-vos um bom domingo.

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Fui buscar o poema ao site de António Miranda.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Nas praias da minha infância morrem barcos desmantelados





BARCOS

   "Nha terra ê quel piquinino
   ê São Vicente ê quê di meu"

Nas praias
Da minha infância
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...


Yolanda Morazzo

Yolanda Morazzo Lopes da Silva Cruz Ferreira, poeta e escritora de língua portuguesa. Nasceu em Mindelo, ilha de S.Vicente-Cabo Verde, em 1928. 
Ver a antologia poética, No Reino de Caliban I, pg.200.

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Imagem - daqui
Poema

sábado, 13 de junho de 2015

O político que queria ser poeta

Palavras de Corsino Tolentino no discurso que proferiu quando foi distinguido com o prémio Amílcar Cabral, em 2007. Do seu jeito de poeta deixo mais abaixo um poema dedicado à outra parte do seu grande projecto: Cabo Verde. Cabo Verde que, com sabedoria, vai seguindo o seu caminho gerindo os seus poucos recursos e as ajudas que lhe chegam. Dez ilhas no meio do oceano. 

E é a uma dessas ilhas que Cabral dedica estas palavras:


ILHA

Tu vives — mãe adormecida —  

                nua e esquecida,
                seca,
                fustigada pelos ventos,
                ao som de músicas sem música
                das águas que nos prendem…  

                Ilha:  
                teus montes e teus vales  
                não sentiram passar os tempos  
                e ficaram no mundo dos teus sonhos  
                —    os sonhos dos teus filhos   —  
                a clamar aos ventos que passam,  
                e às aves que voam, livres,  
                as tuas ânsias!  
                 Ilha:  
                colina sem fim de terra vermelha  
                —    terra dura   —  
                rochas escarpadas tapando os horizontes,  
                mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

                                                                              Praia -Santiago, 1945                                                                                                                   




Amílcar Cabral, um homem afável e profundo, um teórico com sentido prático e também um político original que viveu e agiu entre o rigor do cientista, que foi, e a liberdade do poeta que queria ser.



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Talvez um dia...Quem sabe!





POEMA

Talvez um dia
Quem sabe!...

Sim
talvez um dia...
pedra jogada
à nossa gaiola de vidro
e para nós
a fuga
além fronteira do mar.

Talvez arrebente um dia
o búzio dos mistérios
no fundo do mar
e mais um vulcão venha a tona
— dez vinte
mil vulcões — Quem sabe!...
e as ilhas fiquem derretidas:
Estranha alquimia
de montes e árvores
de lavas e mastros
de gestos e gritos.

Talvez um dia
onde é seco o vale
e as árvores dispersas
haja rios e florestas.
E surjam cidades de aço
e os pilões se tornem moinhos.

Ilhas renascidas
nuvens libertas...
Talvez um continente
À medida dos nossos desejos.

Sim
Talvez um dia...
Quem sabe!

Arménio Vieira, Prémio Camões 2009





Palavras fortes, estranha alquimia. Exageros de poeta? Na sua visão escatológica prevê e anseia por uma renovação, rompendo fronteiras, um milagre da natureza. E progresso.

Fustigada pelos ventos contra-alísios, as lestadas, que arrastam para longe as nuvens prenhes de água, envolvida pela bruma seca vinda do Saara, é caso para dizer: "Gente sem sorte, ca tem ramede, tchorá bô sina, tchorá magoade"*.

E quando o vulcão se cansar de vomitar lavas incandescentes as pessoas voltarão. No sopé, a terra terá o adubo de que precisa para o cultivo da vinha. Na Chã das Caldeiras. E farão dela a terra do leite e do mel.

Povo paciente e resistente que lê nas estrelas o seu destino.

______

*Da Morna- letra de Gabriel Mariano, música de Jacinto Estrela:Sina de Cabo Verde.

O Poema foi retirado do site de António Miranda.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

No princípio era o Verbo...


Havia somente as aves de rapina de garras afiadas as aves marítimas de vôo largo as aves canoras assobiando inéditas melodias...





Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas do ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
      de garras afiadas
as aves marítimas
       de vôo largo
as aves canoras
       assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastados para cá
pelas fúrias dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensa n´El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

Jorge Barbosa





HORA GRANDE

1

O mar sairá
Das nossas ilhas
Das nossas ruas
Das nossas casas
Das nossas almas...

0 mar irá para o mar
E limpos finalmente do lodo das algas
E libertos do sal do nosso sorriso de enteados
Seremos frutos de nós mesmos
Nascendo da barriga negra da terra...

2

Os náufragos
Do lago da nossa quietação
Erguerão os seus braços de todas as cores
E as suas mãos se fartarão
Da luz de um poente maduro!

0 negreiro estará perdido na légua do tempo
Porque a alma das nossas vozes
Não morrerá no fundo dos porões...

A fome não se alimentará da fome
E voaremos nas asas do Sol
Com o destino na palma da mão!

3

Nas feridas do seu parto
As raízes do nosso umbigo beberão a seiva
E no ventre da "mamã-terra"

Germinarão as sementes das nossas certezas
E nos embriagaremos da carne dos seus frutos...

As crianças nascerão sem metas nos olhos
E as suas mãos sujar-se-ão
Do mel do nosso olhar...

As crianças serão crianças!
Negras e loiras e brancas
Serão pétalas da mesma flor...

Onésimo Silveira.




























Contradições do ilhéu. Há o mar que o circunscreve a um espaço em que só a linha do horizonte lhe permite sonhar, (o que haveria para além dessa linha?) e o mar que o levará a descobrir outros mundos. Nessa luta entre prisão e liberdade decorrem os seus dias entre incertezas e vontade de levantar voo.

Da janela do seu quarto, Dufinha contempla o mar calmo e a estrada de luz que lhe promete maravilhas.  À noite, as luzes da ilha vizinha, pontinhos brilhantes ao longe, trazem-lhe notícias, embora veladas, do fim do lago da nossa quietação. Levaria tempo...  


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Poemas : Jorge Barbosa, "Prelúdio"; Onésimo Silveira, "Hora Grande", do site

de António Miranda - aqui

1ª imagem - Ilha da Brava - Cabo Verde - Tema Biodiversidade - aqui

2ª imagem - Vulcão do Fogo Cabo Verde - erupção em 1995 - aqui
3ª imagem - Pormenor da Cidade da Praia em Santiago, Cabo Verde, a 1ª ilha a que os descobridores aportaram- aqui


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Ciclo Macaronésia

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Pela estrada longa da minha esperança




De cabelo ao vento,
  Pela estrada longa da minha esperança,
  Vou marchando sempre,
  Ao compasso quente do meu coração.

  Vou de mãos vazias, vou de lábios secos.
  Pela estrada longa da minha esperança
  Vou colhendo tudo e vou deixando tudo.

  Dias, meses, anos, vou-os sepultando
  Sob a estrada longa da minha esperança.

  Olham para mim
  E gritam de sarcasmo:
  -Por que vais marchando, por que vais sorrindo?
  Que mistério é esse que te acena ao longe?


         Vão caindo folhas...
         Frios ventos uivam
         Pelo descampado...


Aguinaldo Fonseca
   (1922-2014)

(Linha do Horizonte, 1958)

in: No Reino do Caliban, pg 167

****


Chegados a este poema, Aguinaldo Fonseca deixa uma pergunta no ar:'Que mistério é esse que te acena ao longe?'. Talvez seja mesmo a esperança a acenar-nos, a dizer 'estou aqui', não se percam de mim. Mas também há uma pergunta no ar em relação a ele próprio: Por que motivo não publicou mais nada além do livro de poemas, 'Linha do Horizonte'? Desesperança ou teria encontrado as respostas todas? Poderia um poeta desta força deixar de escrever, se ele considerava: 'para mim, poesia é vida'?

Considerado o primeiro, de entre os poetas cabo-verdianos, a envolver África, como um todo, na sua poesia, atravessando os limites da sua insularidade, e, muito embora não esquecendo os grandes temas da seca e da fome privilegiados a partir dos claridosos, 1936, não há dúvida que a sua obra consubstancia muitos dos princípios que fizeram escola no movimento designado por negritude.

Numa análise de Amílcar Cabral, lê-se a respeito:(...) a evolução da Poesia Cabo-Verdiana não pode parar. Ela tem de transcender a “resignação” e a “esperança”. A “insularidade total” e as secas não bastam para justificar uma estagnação perene.
As mensagens da Claridade e da Certeza têm de ser transcendidas. O sonho de evasão, o desejo de “querer partir”, não pode eternizar-se. O sonho tem de ser outro, e aos Poetas – os que continuam de mãos dadas com o povo, de pés fincados na terra e participando no drama comum – compete cantá-lo. O cabo-verdiano, de olhos bem abertos, compreenderá o seu próprio sonho, descobrirá a sua própria voz, na mensagem dos Poetas.
Parece que António Nunes e Aguinaldo Fonseca estão na vanguarda dessa nova Poesia. Não se conformam com a estagnação. A prisão não está no Mar.
Realmente Aguinaldo Fonseca fez chegar até nós a mensagem da sua Nova Poesia
Depois...calou-se?
 ****
Pela estrada longa da esperança este autor foi marchando, mas aos poucos foi murchando e a poesia, sua vida, foi acabando. Calou- se o poeta e o motivo só ele o saberá; mas...a esperança foi diminuindo...a ingratidão foi sentindo e aos poucos foi deixando tudo. Talvez se tenha cansado, o poeta, cansado de não ser ouvido...de não ser entendido e não ser reconhecido pelo tanto que estava a dar ao seu povo, alertando...consolando...dando esperanças . E, do mesmo modo que caem as folhas foram caindo as sua letras perdendo-se no grande descampado. Gostei muito de ter conhecido este poeta, Olinda e tenho pena que se tenha calado. Ainda bem que te lembraste dele e nos deste a conhecer o grande poeta Aguinaldo Fonseca.

Os Poetas vêm e sentem o caminho e o chamamento; parece depreender-se qual "[...] mistério é esse que (...) acena ao longe[...]".
Na Vida há muitos acenos a indicar os novos rumos traçados.
Acerca das tuas Notas complementares (excelentes) apenas a notação de que um Poeta não o é pelos Livros que escreve ou escreveu.
Haviam (há) demasiadas resistências (políticas e económicas) á publicação de Poesia na época, sobretudo quando se tratava de um Cidadão Português de Cabo Verde.

****
Imagem: Tela de Modesto Mamba-angolano
Retirado de aqui

domingo, 2 de fevereiro de 2014

E a Lua Cheia que veio // A voz quente do batuque, // Faz feitiço... // E o negro dorme // Sonhando ser santo um dia.



Magia negra

Abro
  De par em par a janela
  Ao convite da noite tropical.
  E a noite enche o meu quarto de estrelas vivas.

  Nesta hora morna e calma,
  Profunda e densa como um túnel,
  O rumorejar longínquo das palmeiras
  Varrendo o Céu
  É misteriosa voz do negro martirizado

  Prendo os meus gestos e o meu grito abafo.
  Silêncio...
  No poço da paz nocturna
  Interceptada
  Pela orgia sincopada
  Das estrelas e dos grilos,
  Arrasta-se o vão lamento
  Da África dos meus Avós,
  Do coração desta noite,
  Ferido, sangrando ainda
   Suores e chicotes.

  E a Lua Cheia que veio
  A voz quente do batuque,
  Faz feitiço...
  E o negro dorme
  Sonhando ser santo um dia.

  Aguinaldo Fonseca
     (1922-2014)

(Linha do Horizonte, 1951)

in:No Reino de Caliban, pg 165


***

Penúltimo post desta série, em homenagem a Aguinaldo Fonseca.

Agradeço a todos, tanto a presença como os comentários.

Votos de um bom domingo.

Abraço

Olinda


***

Imagem: Pintura- de Malangatana, moçambicano.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Herança





O meu avô escravo
legou-me estas ilhas incompletas
este mar e este céu.

As ilhas
por quererem ser navios
ficaram naufragadas
entre mar e céu.

Agora
aqui vivo eu
e aqui hei-de morrer.

Meus sonhos
de asas desfeitas pelo sol da vida
deslocam-se como répteis sobre a areia quente
e enroscam-se raivosos
no cordame petrificado da fragata
das mil partidas frustradas.

Ah meu avô escravo
como tu
eu também estou encarcerado
neste navio fantasma
eternamente encalhado
entre mar e céu.

Como tu
também tenho a esmola do luar
e por amante
essa mulher de bruma, universal, fugaz,
que vai e vem
passeando à beira-mar
ou cavalgando sobre o dorso das borrascas
chamando, chamando sempre,
na voz do vento e das ondas.

Aguinaldo Fonseca
   (1922-2014)

(Claridade, nº8, 1958)

in: No Reino de Caliban, pgs 158/159


Imagem:Trabalho de Eduardo Malé
artista são-tomense


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Estiagem




Esta secura calada na garganta
não sei bem se veio do vento
ou das entranhas do inferno.

Este horizonte estreito
a estrangular distâncias e esperanças
não sei se é feito de sangue
ou de poeira vermelha.

(Oh! que desejo de uma carícia
de sombra fresca
de verdes ramos
e rochas húmidas)!

Será que perdi a voz
neste mar de sol
onde a paisagem é figura desfocada?

Se grito
o grito em mim persiste a esbracejar
porque não sai
do poço desta angústia amordaçada.

Aguinaldo Fonseca

  (1922-2014)

(Claridade, nº 8, 1958)

in: No Reino do Caliban, pg 166

****

 Emília Pinto
  1. Assim como a Mãe negra, também nós temos a tendência de olhar o céu tão azul para ver se ele nos aquieta... se enche o nosso coração de esperança...de muita serenidade. às vezes por mais azul que esteja só vemos nuvens escuras carregadas de cinzento, mas continuamos sempre à espera que uma estrelinha brilhe em " forma de
    carícia ", mas, a " secura calada na garganta" e horizonte estreito
    a estrangular distâncias e esperanças" continuam. Fome de pão...fome de afectos...fome de humanidade; muitos " gritos " por todo o lado num" poço de angústia amordaçada "
    E assim vai este poeta cantando as desventuras de um povo nos seus dias de " estiagem."
    Obrigada, Olinda por este momento de bela poesia. Um beijinho, amiga e, apesar de tanta chuva, desejo-te um bom fim de semana
    Emília
  2. A geografia do nordeste do Brasil, é tão semelhante a de Cabo Verde, e já cantada e decantada por vários poetas de cá e de lá... Que comumente me embrenho na paisagem dos dois países, como se estivesse em um.

    Sou uma apreciadora do movimento Claridade, o momento em que nasce uma poesia caboverdiana, onde a poética das Ilhas Crioulas, a diáspora, o milho, as montanhas, o lestada, o harmatão, a solidão, o universo, o Oceano Atlântico dão o movimento poético, a identidade poética dos Claridosos, dos pós-claridosos e dos contemporâneos, como Vera Duarte, Dina Salústio, Filinto Silva, José Luís Hopffer Almada, entre outros...

    Que alegria, que bela poesia, que lindo gesto o seu, Olinda!

    Obrigada, querida, um beijão!

    ;))

cabo-verdiano

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mãe Negra




A mãe negra embala o filho
  
  Canta a remota canção
  Que seus avós já cantavam
  Em noites sem madrugada.

  Canta, canta para o céu
  Tão estrelado e festivo.

  É para o céu que ela canta,
  Que o céu
  Às vezes também é negro.

  No céu
  Tão estrelado e festivo
  Não há branco, não há preto,
  Não há vermelho e amarelo.
  -Todos são anjos e santos
  Guardados com mãos divinas.

  A mãe negra não tem casa
  Nem carinhos de ninguém...

  A mãe negra é triste, triste,
   E tem um filho nos braços...

  Mas olha o céu estrelado
  E de repente sorri.
  Parece-lhe que cada estrela
  É uma mão acenando
  Com simpatia e saudade...

   Aguinaldo Fonseca
      (1922-2014)

  (Linha do Horizonte, 1951)

in; No Reino do Caliban, pg 163


***

E a nossa querida Elvira recorda-nos aqui Prelúdio/MÃE-NEGRA, de Alda Lara, na maravilhosa voz de Paulo de Carvalho:





Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos 
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..

Lisboa, 1951 (Poemas, 1966)

Poema: retirado do comentário e de O Castendo

****Imagem: Pintura de Keith Mallet, norte-americano.
Estilo pictórico africano, moderno