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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

A Revolução da Bondade

Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem por este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.

José Saramago
in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995"





Continuação de boa semana, meus amigos.
Abraços
Olinda

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Citador
Imagem: pixabay

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Palavras para uma Cidade

"Num tom leve, em jeito de história, José Saramago evoca as palavras primeiras que deram nome a Lisboa, conduzindo-nos ao passado longínquo anterior à chegada dos Romanos até ao topónimo por que é reconhecida nos nossos dias.


Tempo houve em que Lisboa não tinha esse nome. Chamavam-lhe Olisipo quando os romanos ali chegaram, Olissibona quando a tomaram os Mouros, que logo deram em dizer Ascchbouna, talvez porque não soubessem pronunciar a bárbara palavra. Quando, em 1147, depois de um cerco de três meses, os Mouros foram vencidos, o nome da cidade não mudou logo na hora seguinte: que aquele que iria ser o nosso primeiro rei enviou à família uma carta a anunciar o feito, o mais provável é que tenha escrito ao alto Aschbouna, 24 de Outubro, ou Olissobona, mas nunca Lisboa. Quando começou Lisboa a ser Lisboa de facto e de direito? Pelo menos alguns anos tiveram de passar antes que o novo nome nascesse, tal como para que os conquistadores Galegos começassem a tornar-se portugueses…

Estas miudezas históricas interessam pouco, dir-se-á, mas a mim interessar-me-ia muito, não só saber, mas ver, no exato sentido da palavra, como veio mudando Lisboa desde aqueles dias. Se o cinema já existisse então, se os velhos cronistas fossem operadores de câmara, se as mil e uma mudanças por que Lisboa passou ao longo dos séculos tivessem sido registadas, poderíamos ver essa Lisboa de oito séculos crescer e mover-se com um ser vivo, como aquelas flores que a televisão nos mostra, abrindo-se em poucos segundos, desde o botão ainda fechado ao esplendor final das formas e das cores. Creio que amaria a essa Lisboa por cima de todas as cousas.




Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória. Memória que é a de um espaço e de um tempo, memória no interior da qual vivemos, como uma ilha entre dois mares: um que dizemos passado, outro que dizemos futuro. Podemos navegar no mar do passado próximo graças à memória pessoal que conservou a lembrança das suas rotas, mas para navegar no mar do passado remoto teremos de usar as memórias que o tempo acumulou, as memórias de um espaço continuamente transformado, tão fugidio como o próprio tempo. Esse filme de Lisboa, comprimindo o tempo e expandindo o espaço, seria a memória perfeita da cidade." 
José Saramagoin O Caderno, Lisboa, Caminho, 2009' 


Nesse repositório de memórias do passado que se arrastam até ao presente, a partir do Sec. XV, como nos faz saber Isabel Castro Henriques, através do seu "Roteiro Histórico de uma Lisboa Africana", 2021, ou num estudo mais abrangente, "A Herança Africana em Portugal", 2007, contributos externos são trazidos pelos navegadores para este lugar que alberga no seu seio histórias de mil e uma cantigas.
Voltarei, muito em breve, 
a estas obras e a esta autora. 

Abraços
Olinda 



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Texto trazido de:
Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, aqui
Série de textos: contributo para a Língua Portuguesa de: José Saramago, Mia Couto, Germano de Almeida

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/palavras-para-uma-cidade/2452 [consultado em 17-11-2022]



terça-feira, 15 de novembro de 2022

Manual de Pintura e Caligrafia

Para assinalar o dia do Centenário de José Saramago, 16/11, trago este livro. Confesso que tive alguma reserva em lê-lo, há uns anos, mesmo sem tomar conhecimento do prefácio ou dos dizeres da contra-capa. Partira do princípio de que o mesmo tratava os temas que o próprio título induz, embora interessantes, mas no momento não me senti atraída.

Esta edição traz um extenso prefácio de Luís de Sousa Rebelo que começa por falar dos romances Levantado do Chão e do Memorial do Convento, para a seguir tecer as suas considerações sobre o referido livro, cujo resumo pode ser lido na respectiva sinopse, nos seguintes termos:

«O Manual de Pintura e Caligrafia é uma obra ímpar no género da literatura autobiográfica entre nós e oferece-nos, no seu conjunto, um semental de ideias e uma carta de rumos da ficção de José Saramago até à data.
Nele se fundem as escritas de uma complexa e rica tradição literária e a experiência de um tempo vivido nos logros do quotidiano e das vicissitudes da história, que será a substância da própria arte.»


Caligrafia de Júlio Pomar

É o segundo livro escrito por José Saramago, 1977, com um estilo ainda a meio caminho daquele que viria a adoptar, sem espaço para a respiração do leitor, como se vê em Levantado do Chão, o primeiro que li e adorei. A partir deste li quase todos de uma assentada. O Manual de Pintura e Caligrafia é tido como autobiográfico. O que sei dizer é que o autor vai discorrendo sobre o presente, o do protagonista, aborda aspectos da pintura do antanho e a sua evolução, e a correlação ou a diferença entre a escrita e a pintura.

Sobre ser autobiográfico ele próprio começa a página 139 deste modo: "A isto que escrevi, chamei (primeiro) exercício de autobiografia, e creio não me ter enganado nem enganar (ter-me enganado e enganar, não será, em rigor, o mesmo?" ou então é a fala do personagem que dá pelo nome de H. e que é o narrador. 

Depois de várias elucubrações acaba por chegar à época imediatamente anterior à Revolução dos Cravos, e é na pg. 311 que diz isto: "O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, os abraços, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo..."

Mas a parte que mais me surpreendeu é o capítulo onde fala de amor e das suas demonstrações, produzindo um dos mais lindos e apaixonantes textos:

"Meu amor", disseste, e eu o disse, abrindo-te a minha porta toda, e entraste. Abrias muito os olhos ao caminhares para mim, para me veres melhor ou mais de mim, e pousaste o teu saco no chão. E antes que eu te beijasse, disseste, para que o pudesses dizer serena: "Venho ficar contigo esta noite". Não vieste nem cedo nem tarde. Vieste na hora certa, no minuto exacto, no preciso e precioso patamar do tempo em que eu podia esperar-te. Entre os meus pobres quadros, cercados por coisas pintadas e atentas, nos despimos. Tão fresco o teu corpo. Ansiosos, e no entanto sem pressa. E depois, nus, olhámo-nos sem vergonha, porque o paraíso é estar nu e saber. Devagar (só devagar poderia ser, só devagar) aproximámo-nos, e, já perto, colados de repente e trémulos. Apertados um contra o outro...

Continuem a ler - o tema vai da página 303 à 305. 

Mas da 39, que começa assim: Continuarei a pintar o segundo quadro, mas sei que nunca o acabarei, até à 302 é uma viagem e tanto.


Júlio Pomar
Camões - 1990


A encerrar a publicação, trago a notícia de 14/11, já sabida de todos, provavelmente, de que o Prémio José Saramago 2022 foi atribuído a Rafael Gallo, escritor brasileiro, pelo livro "Dor Fantasma". Veja mais aqui.


Continuação de boa semana, amigos.

Abraços.

Olinda


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NOTA:

A BRAÇOS COM O COMPUTADOR AVARIADO. EM PRINCÍPIO, DEMORAREI ALGUM TEMPO A PUBLICAR OS VOSSOS COMENTÁRIOS.

POR OUTRO LADO, OS COMENTÁRIOS DA MINHA AUTORIA, NOS VOSSOS BLOGUES, NÃO VOS CONDUZIRÃO AO "XAILE DE SEDA", PORQUE SÃO FEITOS A PARTIR DO TELEMÓVEL.

PEÇO DESCULPAS.
OLINDA


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"Manual de Pintura e Caligrafia" - o exemplar referenciado no post é uma Edição da 
Porto Editora, com 311 páginas. 
A imagem é da Editora Caminho para evidenciar a Caligrafia de Júlio Pomar.



domingo, 18 de setembro de 2022

A Revolução da Bondade

Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.
José Saramago, in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995"





Interessante o facto de José Saramago citar este seu livro, "Ensaio sobre a Cegueira", onde o caos se instala através da chamada cegueira branca que afecta todos ou quase, lugar de horror em que os instintos mais baixos do ser humano se manifestam numa dança macabra. 

Talvez, depois do caos a bondade se instale para mostrar que ainda existe algo de bom no íntimo da humanidade. De tal cegueira escapa uma mulher, testemunha dos horrores perpetrados naquela sociedade sem rumo. 

Em continuação desse livro surge "Ensaio sobre a lucidez", em que o terreno explorado são os votos em branco que invadem o acto de eleger representantes do povo. Nesse contexto são postos em prática perseguições e torturas que denotam total ausência dos princípios éticos que norteiam a vida em democracia.

Personagens do livro "Ensaio sobre a cegueira" são encontrados neste livro, o que me causou um certo espanto e, ao mesmo tempo, um estranho sentimento de solidariedade, acompanhando-os eu pelas provações por que voltam a passar.  

Continua em foco, no "Xaile de Seda", o Centenário de José Saramago. 

Bom domingo, meus amigos.

Abraços
Olinda


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Texto em itálico: Citador
Imagem: Pixabay

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

'In Nomine Dei'

 


WALDECK

Teu marido abjurou.


GERTRUD VON UTRECHT 

O Senhor lhe pedirá contas, como mas vai pedir a mim, a ti, bispo, quando chegar a tua vez. 
Mas eu perguntarei ao juízo de Deus por que permite Ele esta mortandade dos homens que vem desde o princípio do mundo,
Estes ódios de crenças, estas vinganças de povos, esta interminável dor do mundo,
A quem não basta a morte natural.


WALDECK

Abjura.


GERTRUD VON UTRECHT

Abjuro da intolerância, abjuro dos males que pratiquei e permiti, abjuro de mim, quando culpada, e dos meus erros.
Mas não abjurarei da minha crença, porque só a tenho a ela.
Sem uma crença o ser humano é nada.


WALDECK

Matem-na.


(Os soldados matam GERTRUD VON UTRECHT. O bispo WALDECK  e a sua comitiva retiram-se. Escurece. Uma luz vermelha incide sobre as gaiolas, que começam a ser subidas lentamente. Os soldados vão e vêm, matando os feridos. A luz diminui cada vez mais. Um a um, terminada a tarefa, os soldados retiram-se. A escuridão torna-se total quando o último vai desaparecer.)


VOZ RECITANTE

Eis a palavra de Daniel:
  "E ouvi jurar o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, levantando ao céu a mão esquerda assim como a mão direita: "Por Aquele que vive eternamente, isto será num tempo, tempos e metade de um tempo. Primeiro, a força do povo há-de quebrar-se inteiramente. Então todas as coisas se cumprirão."

José Saramago - In: In Nomine Dei, pgs 146/147

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IN NOMINE DEI, peça de Teatro baseada na: 

Revolta de Münster, tentativa dos anabaptistas de estabelecer uma teocracia na cidade alemã de Münster, na Vestfália. 

A rebelião durou de Fevereiro de 1534 a Junho de 1535. Sob a liderança de John de Leyden, que afirmava ter sido inspirado diretamente por visões divinas, a cidade foi administrada pelo terror e a poligamia legalizada. Ocupada por seu ex-arcebispo em Junho de 1535 os líderes foram condenados à morte.

A revolta de Münster deixou uma imagem deplorável do anabaptismo, embora essa comunidade religiosa se engajasse na não-violência absoluta. 

A revolta serviu de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. aqui



Cerco de Münster: Ataque de Pentecostes 
de 1534 (gravura de 1535).


A dramaturgia: Uma das vertentes da obra de Saramago.

De Duarte Ivo Cruzexcerto de uma análise: admite-se que incompleta mas sempre válida (na minha opinião), acerca da dramaturgia de Saramago, tal como deve ser citada.

Como referi, efetivamente Saramago, depois da adaptação, com Costa Ferreira, de um conto seu (“Fim de Paciência”) escreveu, a partir de 1970, peças que trazem para cena temários dominantes do autor:

“A Noite” (1979), visão realista da noite de 25 de abril de 1974 numa redação de jornal, “Que Farei com Este Livro” (1980) onde o protagonista, mais do que Camões é “Os Lusíadas” e alegorias heterodoxa e azedas, “A Segunda Vida de Francisco de Assis” e “In Nomine Dei”, ambas reflexo das angústias do autor.

E acrescento agora “Don Giovanni ou O Dissoluto Absurdo” datada esta publicação de 2005. aqui



J.S.Bach (1685-1750)
Sonatas para Flauta


Nota:

Ano da Celebração do Centenário de José Saramago.
Pequena incursão pela sua Obra, tal como
em posts anteriores.

Olinda


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1ª Imagem:
Gaiolas nas quais os corpos dos líderes da revolta de Münster foram expostos, no campanário da Igreja de Saint-Lambert.




sexta-feira, 24 de junho de 2022

O Ano da Morte de Ricardo Reis



Fernando Pessoa levantou-se do sofá, passeou um pouco pela saleta, no quarto parou diante do espelho, depois voltou, É uma impressão estranha, esta de me olhar num espelho e não me ver nele, Não se vê, Não, não me vejo, sei que estou  a olhar-me, mas não me vejo, No entanto, tem sombra, É só o que tenho. Tornou a sentar-se, cruzou a perna, E agora, vai ficar para sempre em Portugal, ou regressa a casa, Ainda não sei, apenas trouxe o indispensável, pode ser que me resolva a ficar, abrir consultório, fazer clientela, também pode acontecer que regresse ao Rio, não sei, por enquanto estou aqui, e, feitas as contas, creio que vim por você ter morrido, é como se, morto você, só eu pudesse preencher o espaço que ocupava, Nenhum vivo pode substituir um morto, Nenhum de nós é verdadeiramente vivo nem verdadeiramente morto, Bem dito, com essa faria você uma daquelas odes. Ambos sorriram. Ricardo Reis perguntou, Diga-me, como soube que eu estava hospedado neste hotel, Quando se está morto, sabe-se tudo, é uma das vantagens, respondeu Fernando Pessoa, E entrar, como foi que entrou no meu quarto, Como qualquer outra pessoa entraria, Não veio pelos ares, não atravessou as paredes, Que absurda ideia, meu caro, isso só acontece nos livros de fantasmas, os mortos servem-se dos caminhos dos vivos, aliás nem há outros, vim por aí fora desde os Prazeres, como qualquer mortal, subi a escada, abri aquela porta, sentei-me neste sofá à sua espera, E ninguém deu pela entrada de um desconhecido, sim, que você aqui é um desconhecido, Essa é outra vantagem de estar morto, ninguém nos vê, querendo nós, Mas eu vejo-o a si, Porque eu quero que me veja e, além disso, se reflectirmos bem, quem é você, a pergunta era obviamente retórica, não esperava resposta, e Ricardo Reis, que não a deu, também não a ouviu. Houve um silêncio arrastado, espesso, ouviu-se como em outro mundo o relógio do patamar, duas horas. Fernando Pessoa levantou-se, Vou-me chegando, (...) 

Excerto pgs 79/80

E ei-los. Criatura e Criador. Agora ambos irreais, cada um na sua própria condição. Trata-se de ficção em cima de ficção sob a lupa de José Saramago, que aproveita para fazer o retrato do país, nesses anos trinta do nosso descontentamento. Decorria o Estado Novo que desde 1926 vinha fazendo história, no pior sentido, e na Europa a Guerra Civil em Espanha; a ascensão ao poder de Mussolini, em Itália; e a expansão da ideologia nazi, na Alemanha.

 

Ricardo Reis (pormenor). 1958 - 
Almada Negreiros*

Quanto a Ricardo Reis, como se sabe, é o heterónimo clássico, helénico e imbuído de um paganismo revisitado, edificado literariamente quando Pessoa quis “escrever uns poemas de índole pagã”, concebido como tendo uma educação em colégio de jesuítas, formado em medicina, expatriado por ser monárquico para o Brasil e regressado a Lisboa depois da morte de Pessoa, nascido antes dele em 1877 e que supostamente lhe terá sobrevivido, morrendo, segundo a ficção de Saramago em 1936, um ano após a morte do seu autor. aqui


Fernando Pessoa 
Almada Negreiros - 1964

Aproveito para aqui inserir um dos belos poemas (ode) de Ricardo Reis:


Segue o Teu Destino

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis
in "Odes"


Na penúltima página, 406, pode ler-se:

Ricardo Reis subiu o nó da gravata, levantou-se, vestiu o casaco. Foi à mesa de cabeceira buscar The god of labyrinth, meteu-o debaixo do braço, Então vamos, disse, Para onde é que você vai, Vou consigo, (...)

A criatura reúne-se ao criador.
Assim o quis Saramago.
E o destino cumpre-se.

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Bom fim de semana, meus amigos.

Abraços

Olinda


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José Saramago:
O Ano da Morte de Ricardo Reis, Excerto pgs 79/80
*Pormenor Ricardo Reis:
MultiPessoa-Mural da Fac. de Letras de Lisboa

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Sete anos de pastor Jacob servia

Poema para Luis de Camões
Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
... *





Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

in Líricas-53/54



O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de Camões, sendo também este o dia dedicado ao Anjo Custódio de Portugal. Este é também o dia da Língua Portuguesa, dos cidadãos e das Forças Armadas. aqui


Muito temos a celebrar neste dia. Tenho escrito em outros anos várias considerações sobre o assunto, inclusivamente, sobre o Anjo Custódio de Portugal. Hoje trago um soneto que conta uma história de amor, e aproveito para deixar a indicação de um poema de José Saramago, homenageando Luís de Camões.


*Ei-lo aqui, na íntegra
Com análise de Saulo Gomes Thimóteo.




AMÁLIA


Meus amigos, tenham muito bom dia.

Abraços

Olinda



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Imagem auspiciosa, com o título "O encontro de Jacob e Raquel"- daqui

Ler, se interessar:
"O Anjo Custódio do Reino" - no Xaile


segunda-feira, 30 de maio de 2022

Protopoema

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me parece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os 
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente de lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de 
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa
dos olhos.
Nadam-se peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu 
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar 
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosos as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas 
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.


In: Provavelmente Alegria
pgs. 54/55


Em 1947 publica o primeiro livro: “Terra de Pecado”, e com o romance “Levantado do Chão”, Prémio Cidade Lisboa em 1980, afirmou-se como um autor de pensamento de esquerda, que fala de trabalhadores para trabalhadores. É “Memorial do Convento” que o confirma como um dos grandes autores de língua portuguesa. 



Bolero - Ravel
Jorge Donn



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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Arte poética

Vem de quê o poema?
De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.


José Saramago
  in "Os poemas possíveis".

        (1922-2010)


A primeira fase da sua trajectória literária foi marcada pela poesia, com Os Poemas Possíveis (1966) e Provavelmente Alegria (1970), e pela crônica Deste Mundo e do Outro (1971). aqui




-Ser Poeta-
"É condensar o mundo num só grito"



Boa quarta-feira, meus amigos.
Abraços
Olinda

NOTA
Queiram ver, na parte lateral do blog, à direita, excertos da nossa Quinzena do Amor, deste ano. :)



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Poema - daqui

domingo, 10 de abril de 2022

"De memórias nos fazemos"

Um livro que só ela podia ter escrito - um livro que apenas uma filha pode escrever sobre seu pai, diz-nos Luís Osório. Palavras relacionadas com a obra que acaba de sair das mãos e do coração de Violante Saramago Matos.

Neste ano do centenário do nascimento de José Saramago esta obra trar-nos-á, certamente, uma outra perspectiva da sua personalidade, diferente da que vem inscrita em todas as outras manifestações biográficas sobre este nosso laureado da literatura. Como sabemos, Saramago não só venceu o Prémio Camões como também o Prémio Nobel, em 1998.



Sobre Violante, o mesmo Luís Osório diz, entre outras considerações:

5. Escreve livros para pequeninos e poemas para si própria. Pinta como a mãe e guarda os quadros. Não se põe em bicos de pés nem exige atenções ou salamaleques. Num tempo como este, de tantas sombras, egoísmos e vaidades, foi um privilégio tê-la conhecido e ouvido, no seu tom de voz baixo, quase envergonhado, mas paradoxalmente afirmativo, firme, cortante.

Aproveito para publicar um dos poemas de José Saramago, posto que tenho tido alguma preferência pelos seus romances, aqui no Xaile de Seda:


Passado, Presente, Futuro

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago


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Veja aqui o artigo de Luís Osório:

"A única filha de José Saramago..."

Poema - Citador

sábado, 7 de março de 2020

As mulheres são mais fortes

Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes, mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens. Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando metade da humanidade à subordinação e à humilhação?
José Saramago, - in 'L'Orient le Jour (2007)'





É Saramago quem o diz. E gosto. 

Contudo, não gostaria de fazer aqui a apologia de que somos seres especiais. Reconheço que temos qualidades apreciáveis. Não quero estabelecer comparações, mas reafirmar que merecemos o nosso lugar na sociedade com direitos e deveres aplicáveis a todo e qualquer cidadão. E perante as mesmas oportunidades, somos capazes de fazer e de fazer acontecer. 

Conhecemos por demais a situação de que fala Saramago, de séculos de subordinação e humilhação. Muito caminho já foi percorrido e continuamos ainda nessa caminhada porque ela é necessária todos os dias. Nada está ganho em definitivo, porque é muito fácil esses valores caírem no esquecimento. 

A violência doméstica continua a fazer vítimas. É assunto a que temos de estar atentos, na aplicação da lei ou no seu melhoramento e construir uma mentalidade nova conducente à igualdade entre mulheres e homens. 

Penso que todos juntos alcançaremos um mundo melhor.


Voá Borboleta - Sara Tavares


José de Sousa Saramago ComSE • GColSE (Azinhaga, Golegã, 16 de novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de junho de 2010) foi um escritor português. Galardoado com o Nobel de Literatura de 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa. A 24 de Agosto de 1985 foi agraciado com o grau de Comendador da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico e a 3 de Dezembro de 1998 foi elevado a Grande-Colar da mesma Ordem, uma honra geralmente reservada apenas a Chefes de Estado...aqui


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Texto - Citador

Imagem: daqui