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quarta-feira, 10 de agosto de 2022

'In Nomine Dei'

 


WALDECK

Teu marido abjurou.


GERTRUD VON UTRECHT 

O Senhor lhe pedirá contas, como mas vai pedir a mim, a ti, bispo, quando chegar a tua vez. 
Mas eu perguntarei ao juízo de Deus por que permite Ele esta mortandade dos homens que vem desde o princípio do mundo,
Estes ódios de crenças, estas vinganças de povos, esta interminável dor do mundo,
A quem não basta a morte natural.


WALDECK

Abjura.


GERTRUD VON UTRECHT

Abjuro da intolerância, abjuro dos males que pratiquei e permiti, abjuro de mim, quando culpada, e dos meus erros.
Mas não abjurarei da minha crença, porque só a tenho a ela.
Sem uma crença o ser humano é nada.


WALDECK

Matem-na.


(Os soldados matam GERTRUD VON UTRECHT. O bispo WALDECK  e a sua comitiva retiram-se. Escurece. Uma luz vermelha incide sobre as gaiolas, que começam a ser subidas lentamente. Os soldados vão e vêm, matando os feridos. A luz diminui cada vez mais. Um a um, terminada a tarefa, os soldados retiram-se. A escuridão torna-se total quando o último vai desaparecer.)


VOZ RECITANTE

Eis a palavra de Daniel:
  "E ouvi jurar o homem vestido de linho, que estava sobre as águas do rio, levantando ao céu a mão esquerda assim como a mão direita: "Por Aquele que vive eternamente, isto será num tempo, tempos e metade de um tempo. Primeiro, a força do povo há-de quebrar-se inteiramente. Então todas as coisas se cumprirão."

José Saramago - In: In Nomine Dei, pgs 146/147

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IN NOMINE DEI, peça de Teatro baseada na: 

Revolta de Münster, tentativa dos anabaptistas de estabelecer uma teocracia na cidade alemã de Münster, na Vestfália. 

A rebelião durou de Fevereiro de 1534 a Junho de 1535. Sob a liderança de John de Leyden, que afirmava ter sido inspirado diretamente por visões divinas, a cidade foi administrada pelo terror e a poligamia legalizada. Ocupada por seu ex-arcebispo em Junho de 1535 os líderes foram condenados à morte.

A revolta de Münster deixou uma imagem deplorável do anabaptismo, embora essa comunidade religiosa se engajasse na não-violência absoluta. 

A revolta serviu de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. aqui



Cerco de Münster: Ataque de Pentecostes 
de 1534 (gravura de 1535).


A dramaturgia: Uma das vertentes da obra de Saramago.

De Duarte Ivo Cruz, excerto de uma análise: admite-se que incompleta mas sempre válida (na minha opinião), acerca da dramaturgia de Saramago, tal como deve ser citada.

Como referi, efetivamente Saramago, depois da adaptação, com Costa Ferreira, de um conto seu (“Fim de Paciência”) escreveu, a partir de 1970, peças que trazem para cena temários dominantes do autor:

“A Noite” (1979), visão realista da noite de 25 de abril de 1974 numa redação de jornal, “Que Farei com Este Livro” (1980) onde o protagonista, mais do que Camões é “Os Lusíadas” e alegorias heterodoxa e azedas, “A Segunda Vida de Francisco de Assis” e “In Nomine Dei”, ambas reflexo das angústias do autor.

E acrescento agora “Don Giovanni ou O Dissoluto Absurdo” datada esta publicação de 2005. aqui



J.S.Bach (1685-1750)
Sonatas para Flauta


Nota:

Ano da Celebração do Centenário de José Saramago.
Pequena incursão pela sua Obra, tal como
em posts anteriores.

Olinda


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1ª Imagem:
Gaiolas nas quais os corpos dos líderes da revolta de Münster foram expostos, no campanário da Igreja de Saint-Lambert.




domingo, 21 de outubro de 2018

"Os milagres somos nós que os fazemos"


1– Quem não sonha, ou sonha pouco, não possui paixões fortes, nem conhece a utopia. Devemos confiar nos sonhos, porque neles se oculta a porta para a eternidade. E os filhos são sempre parte dos sonhos, porque chegam do futuro e foi para o nosso futuro que eles nasceram e cresceram.

2 – Há que amar, amar a verdade, as pessoas, os animais, a Natureza... e fazê-lo de uma forma profunda e sincera
3 – A liberdade de expressão, meus amigos, só pode ser entendida quando tem em conta o respeito pela vida do próximo, tenha ele a cor que tiver, o credo que escolher e a vida que viver. Seja ele rei, ou futebolista.., ou as duas coisas!
4 – Não faço distinção de raça ou religião, nenhuma. O que interessa é a pessoa, o ser humano. Se é boa, muito bem; se não é boa, vou ajudá-la a melhorar, nunca a piorar.
5 – É sempre a mulher que escolhe o homem que a vai conquistar. É sempre ela que o eleva.




6 – Tenho uma estranha e subtil esperança de que, um dia, não tenhamos de sofrer o que fazemos àqueles animais que abandonamos sem uma festa, sem um adeus, ou simplesmente sem um sincero pedido de desculpas.
7 – Que importância terá aquilo que eu comprei, se o compararmos com tudo o que eu construí, ou ajudei a crescer? A riqueza e a felicidade não estão naquilo que eu tenho, mas naquilo que eu dei.
8 – Eu não sei muita coisa, é verdade, mas não tenho pena disso. Seria de ter mais pena se pensasse que sabia tudo... ou que tinha sempre razão!
9 – Na morte entregarei o corpo, cuja matéria me foi emprestada, sem juros, para que eu a utilizasse a favor do espírito, a fim de que a parcela que me cabe da genética cósmica tenha um pouco mais de luz e de amor.
10 – A receita para o sucesso, meus amigos, para envelhecer de forma activa e com sucesso... é PERDER O MEDO.



Excerto de: Aqui

(Acrescentado hoje, 25/10/2018, ao post)

O mais recente livro de Ruy de Carvalho O Amor é Isto é como "uma cadeira vazia" ao lado do ator para lhe ouvir a sabedoria, em 100 pensamentos marcantes. Desses selecionámos 10, (VISÃO)


Rui Alberto Rebelo Pires de Carvalho, mais conhecido por Ruy de Carvalho, nascido a 01/03/1927, é um actor português.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Teatro Nacional D. Maria II - Entrada Livre

Acontece nos dias 11, 12 e 13 do corrente mês, isto é, sexta, sábado e domingo. E dizem-nos que a iniciativa "Entrada livre" não é apenas porque os bilhetes são gratuitos mas porque o gesto de entrar num teatro nacional e fruir da criação artística é, mais do que um direito ou um dever, um gesto de liberdade. Lindo, não é? Ainda por cima com estreias. 






E são:

Espectáculos: Ifigénia, Agamémnon e Electra, de Tiago Rodrigues.
Colecção de Amantes, de Raquel André.

Mas não ficam por aqui as actividades: Na varanda do teatro haverá concertos, peças infantis, exposições e livros.

No dia 13, a encerrar teremos "74 Eunices" em homenagem a Eunice Muñoz, e, como o título deixa adivinhar, estarão 74 actrizes em cena. Elas dizem falas de textos que outrora foram ditas por Eunice Muñoz na Sala Garrett, onde, em 1941, fez a sua estreia no teatro. Várias surpresas, entre as quais o lançamento de um livro de Vítor Pavão dos Santos, que reúne diversas conversas com a atriz, farão parte deste momento que se espera memorável.

Veja como adquirir os bilhetes aqui.





E como hoje ainda é terça-feira temos tempo mais do que suficiente para programar tudo e arranjar um tempinho para um dia diferente, com as crianças ou com alguém de quem gostamos. 

As pancadas de Molière esperam por nós, mote para início do espectáculo.

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Imagens:Eunice Muñoz e Teatro Nacional D.Maria II-Internet

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ó da barca!!!

Gil Vicente é daqueles autores cujos escritos atravessam os tempos. Aproveita-os para criticar a sociedade da época o que, mutantis mutandis, se poderia aplicar à sociedade de hoje. O Auto da Barca da Glória  talvez seja das mais representativas da sua concepção, aparentemente maniqueísta, do mundo. Composto de duas barcas que representam alegoricamente o Paraíso e o Inferno, o diabo vai fazendo acusações reclamando que a morte só lhe traz gente pobre e humilde enquanto os ricos e honrados não aparecem. Estes por ordem hierárquica ascendente, vão se apresentando, (o conde, o duque, o rei, o imperador, o cardeal, o arcebispo, o papa) e porque têm responsabilidades na gestão civil e espiritual das gentes, conforme as suas acções, assim estariam destinados a uma das barcas.
Nenhum deles passa no crivo apertado da balança que julga o bem e o mal.Todos eles vêem as suas acções dissecadas, as suas omissões postas a nu, os seus pecados publicitados, todos são acusados de não cumprirem o dever, a missão, para que foram destinados. Mas contra tudo o que seria de esperar, a barca do Paraíso acaba por ficar sobrelotada com estas personagens ou personalidades, apesar da má gestão, no mínimo, das responsabilidades que lhes foram cometidas. E a barca do inferno, com o diabo como timoneiro, mesmo ali, à espera de fazer a travessia com esta carga preciosa. Mas, à ultima hora são todos perdoados, e mais, essa culpa é lavada pela intervenção directa de Cristo através do Anjo que desfralda uma vela onde se encontra pintado um crucifixo, como chancela desse desidério. 
Então, é aqui precisamente que cai por terra o que se entrevê mais acima: crítico de todos os tipos sociais e de comportamentos, Gil Vicente parece fugir à postura moralista assumida nos autos das barcas do inferno e do purgatório, onde premeia o bem e castiga o mal, à revelia do moralismo apregoado. 
Talvez seja um acto premonitório, fatalidade que atravessaria os tempos e com a qual teremos de viver, numa óptica determinística. Ontem como hoje, parece existir uma inimputabilidade quase inata, aceite de forma tácita por quem teria a responsabilidade no apuramento dos factos e falhas na gestão da coisa pública, situação que nos leva paulatinamente para o abismo de forma irremediável. E, segundo tudo indica, quanto a isto não há remédio... 




Imagem: Internet