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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

"Os Maias", dançado

  Pela primeira vez na forma de bailado, o romance de Eça de Queirós estreia-se no Teatro Camões a 16 de Outubro, estando previstas dez apresentações, até dia 26 do mesmo mês. É uma criação de Fernando Duarte, coreógrafo e director artístico da CNB, um bailado em três actos que conta a trágica história do amor incestuoso de Carlos da Maia e Maria Eduarda. 




Foi o que eu li e ouvi ontem. 

Também vi alguns passos na Tv2 o que aguçou a minha curiosidade. O romance de costumes de Eça de Queirós, em passos de dança, estreia absoluta. O que diria Eça perante tal representação artística, ele que tinha sempre uma palavra a dizer acerca do que se passava na sociedade lisboeta?

Senhor de uma Obra gigantesca, sendo "Os Maias" uma das mais conhecidas, publicada em 1888. Esta trata da história de três gerações da Família Maia, na qual vemos desenrolar a tragédia de Carlos e Maria Eduarda, irmãos, mas também temos contacto com personagens que agilizam a trama como o retórico João da Ega e o Eusebiozinho, representante da educação tradicional e retrógrada portuguesa.

O autor inicia o livro com a descrição da Casa do Ramalhete que nada tem de campestre e fresco, antes pelo contrário de ambiente bastante escuro e pouco apelativo. Apesar do tema delicado, vemos que ao longo da obra não perde a oportunidade de aplicar a sua fina ironia e crítica na leitura das situações que se apresentam nas reuniões burguesas da Lisboa do século XIX.

Vou aproveitar para reler "Os Maias".


Abraços, amigos.

Boa semana.

Olinda


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Imagem: daqui 

"Os Maias" - em PDF

domingo, 5 de janeiro de 2025

Eça de Queirós vai mesmo para o Panteão

 Depois da polémica sobre onde depositar os restos mortais do grande Eça de Queirós, o destino dos mesmos será o Panteão Nacional. Fica por saber se realmente ele o teria desejado ou não.

Neste fim-de-semana decorre uma homenagem na Casa de Tormes, lugar onde escreveu "A Cidade e as Serras", que consta das minhas leituras entre outros livros da sua obra.

Sobre a "A Cidade e as Serras" lê-se (excerto):






(...)
É uma obra das mais significativas de Eça de Queiroz. Nela o escritor relata a travessia de Jacinto de Tormes, um ferrenho adepto do progresso e da civilização - da cidade para as serras. Ele troca o mundo civilizado, repleto de comodidades provenientes do progresso tecnológico, pelo mundo natural, selvagem, primitivo e pouco confortável, no sentido dos bens que caracterizam a vida urbana moderna, mas onde encontra a felicidade, mudando radicalmente de opinião.

Por meio do personagem central, Jacinto de Tormes, que representa a elite portuguesa, a obra critica-lhe o estilo de vida afrancesado e desprovido de autenticidade, que enaltece o progresso urbano e industrial e se desenraíza do solo e da cultura do país.
(...)

No próximo dia 8 será a cerimónia da trasladação para o referido Panteão Nacional, cerimónia essa a cargo da Assembleia da República, como é referido neste artigo.



***


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imagem: net

Veja aqui, no Xaile de Seda, os vários funerais de Eça de Queirós, informação trazida de Tempo Contado

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Governos Apostados em Errar

Entre nós tem-se visto governos que parecem absurdamente apostados em errar, errar de propósito, errar sempre, errar em tudo, errar por frio sistema. Há períodos em que um erro mais ou um erro menos realmente pouco conta. No momento histórico a que chegámos, porém, cada erro, por mais pequeno, é um novo golpe de camartelo friamente atirado ao edifício das instituições; mas ao mesmo tempo tal é a inquietação que todos temos do futuro e do desconhecido que cada acerto, cada bom acerto é uma estaca mais, sólida e duradoura, para esteiar as instituições. Toda a dúvida está em saber se ainda há ou se já não há, em Portugal, um governo capaz de sinceramente se compenetrar desta grande, desta irrecusável verdade.

Eça de Queirós, in 'Últimas Páginas'





Estarei ausente por alguns dias, poucos.

Votos de óptima terça-feira.

Abraços

Olinda


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Citador
Imagem: pixabay

sábado, 24 de fevereiro de 2024

A Vitalidade de uma Nação


Uma nação vive, próspera, é respeitada, não pelo seu corpo diplomático, não pelo seu aparato de secretarias, não pelas recepções oficiais, não pelos banquetes cerimoniosos de camarilhas: isto nada vale, nada constrói, nada sustenta; isto faz reduzir as comendas e assoalhar o pano das fardas - mais nada. Uma nação vale pelos seus sábios, pelas suas escolas, pelos seus génios, pela sua literatura, pelos seus exploradores científicos, pelos seus artistas. Hoje, a superioridade é de quem mais pensa; antigamente era de quem mais podia: ensaiavam-se então os músculos como já se ensaiam as ideias.

Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'




Bom fim de semana, amigos.
Abraços 
Olinda


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Citador
Imagem:pixabay




sábado, 25 de novembro de 2023

'sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia'

Na data do seu nascimento, lembramo-lo, não que não tenha sido suficientemente lembrado nos últimos tempos, embora não pelo seu talento que é inegável, mas em função da trasladação das suas ossadas para o Panteão Nacional. E pensar que este autor deixou expresso o desejo de ser enterrado em Verdemilho.

Li um texto muito interessante sobre os vários funerais de Eça, aqui, no Tempo Contado.




José Maria de Eça de Queiroz (25/11/ 1845 – 16/08/1900), também escrito Eça de Queirós, foi um escritor e diplomata português. É considerado um dos mais importantes escritores portugueses de sempre. Foi autor de romances de reconhecida importância, de Os Maias e O Crime do Padre Amaro. Os Maias é considerado por muitos o melhor romance realista português do século XIX.
Veja aqui

Não só estes livros. Há outros igualmente famosos, colecção em que foca os costumes da sociedade da época, de forma crítica. 

Por exemplo, A Relíquia. Quando o li fui até ao fim pensando que, realmente, o protagonista tinha conseguido, depois de muitas peripécias, trazer a relíquia, da Terra Santa, que a tia tanto ambicionava. Mas superou-se...até eu fiquei de boca aberta. 


 


Eça de Queirós deu a este romance o seguinte subtítulo: 'sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia”, máxima inscrita na estátua que se encontra na Praça Barão de Quintela, em Lisboa. Imagem acima.

Transcrevo a seguir um excerto, precisamente do momento em que se descobre de que teor era a Relíquia que Teodorico trouxera. Até ele ficou trespassado de horror:



"Tossi, cerrei os olhos: 

— É a coroa de espinhos! 

Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu sobre o caixote, enlaçando-o nos braços trémulos... Mas o Margaride coçava pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profundidade dos seus colarinhos; e o ladino Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, de onde saía assombro e indignação! Justos céus! Magistrados e sacerdotes evidenciavam uma incredulidade — terrível para a minha fortuna! 

Eu tremia, com suores — quando o Padre Pinheiro, muito sério, convicto, se debruçou, apertou a mão da Titi a felicitá-la pela posição religiosa a que a elevava a posse daquela relíquia. 

Então, cedendo à forte autoridade litúrgica de Padre Pinheiro, todos, em fila, numa congratulação, estreitaram os dedos da babosa senhora. Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo... 

— Teodorico! Filho! — berrou a Titi, arrepiada, como se eu fosse martelar a carne viva do Senhor. 

— Não há receio, Titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas cousinhas de Deus!... 

Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão. Ergui-a com terna reverência; e perante os olhos extáticos, surgiu o sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho. 

— Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! — suspirou a Titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por sobre o negro dos óculos. 

Ergui-me, rubro de orgulho: 

— É à minha querida Titi, só a ela, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho!...

 Acordando do seu langor, trémula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a Titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo... 

Uma brancura de linho apareceu... A Titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente — e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camélias, aos pés da cruz —espalhou-se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary! A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada prega fedendo a pecado! A camisa de dormir da Mary! 

E pregado nela por um alfinete, bem evidente ao clarão das velas, o cartão com a oferta em letra encorpada: — "Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que gozamos!" Assinado, M. M.... 

A camisa de dormir da Mary! Mal sei o que ocorreu no florido oratório! Achei-me à porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, num desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia as acusações do Negrão bradadas contra mim junto à touca da Titi: 

— "Deboche! Escárnio! Camisa de prostituta! Achincalho à senhora Dona Patrocínio! Profanação do oratório!" Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam, aflitas. E, ensopada em suor, entre as pregas da cortina, percebi a Titi caminhando para mim, lenta, lívida, hirta, medonha... Estacou. Os seus frios e ferozes óculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta palavra: 

— Porcalhão."

A Relíquia - Eça de Queirós - pg 230 (livro online)

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E que dizer de As Farpas? Bem, deixo para falar disso numa próxima oportunidade. Como temos eleições à porta, abordá-las-ei nessa altura se vir que esses textos trazem alguma passagem que interesse...para o assunto em questão.


***

Amigos, vou ausentar-me por uns dias.

Publicarei os vossos comentários (se os houver) no meu regresso.

Abraços 

Olinda


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Imagens: net

domingo, 23 de agosto de 2020

Eça de Queirós - um olhar sobre Júlio Dinis


Setembro 1871.

Um só livro seu, um romance, fez palpitar fortemente as curiosidades simpáticas -

As Pupilas do Sr. Reitor. Esse livro fresco, quase idílico, aberto sobre largos fundos de verdura, habitado por criações delicadas e vivas - surpreendeu. Era um livro real, aparecendo no meio de uma literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, como uma paisagem de Cláudio Loreno entre grossas telas mitológicas. Era um livro onde se ia respirar.

Júlio Dinis amava a realidade: é a feição viril e valiosa do seu espírito.

Nunca porém se desprendeu do seu idealismo e sentimentalismo nativo. A realidade tinha para ele uma crueza exterior que o assustava: de modo que a copiava de longe, com receio, adoçando os contornos exactos que a ele lhe pareciam rudes, espalhando uma aguada de sensibilidade sobre as cores verdadeiras que a ele lhe pareciam berrantes. As suas aldeias são verdadeiras, mas são poetizadas: parece que só as vê e as desenha quando a névoa outonal esfuma, azula, idealiza as perspectivas.

Nunca um sol sincero e largo bate a sua obra. Tudo nela é velado de névoa poética. Não é que não ame, não persiga a verdade: somente quando a fixa na página traz já a pena toda molhada no ideal que o afoga.

Dizem que os seus livros são memórias, e que ele faz a aguarela suave das paisagens em que viveu, e que personaliza, em criações finamente tocadas, os sentimentos com que palpitou; daí decerto a realidade que os seus livros deixam entrever, fugitivamente. Mas parece que não fora feliz, e que só ao compassar dos soluços o coração lhe aprendera a bater: daí pois aquelas meias-tintas azuladas e melancólicas em que se move, num rumor brando, o povo romântico dos seus livros, e com que ele procura esbater e adoçar a crueza das realidades humanas que o fizeram sofrer.

Era sobretudo um paisagista. As suas figuras só servem para dar expressão e vida à paisagem.

Os campos, as searas, os montes, as claras águas, os céus profundos, não são nos seus livros a decoração que cerca uma humanidade fortemente sentida: as suas camponesas romanescas, os seus galãs violentos e ternos, as meigas figuras de velhos, até as suas caricaturas - é que foram por ele colocadas assim para poder, em torno delas, erguer com cuidado, árvore por árvore e casal por casal, as aldeias que tanto amava. Há nos seus romances tal descampado, tal eira branca batida do sol, tal parreira onde os gatos se espreguiçam, que tem mais ideia, mais acção, mais vida, que as figuras vivas que em torno se movem.

Depois das Pupilas do Sr. Reitor as obras de Júlio Dinis passaram de leve, entre as atenções transviadas. Terá o seu dia de justiça e de amor. À maneira daqueles povoados que ele mesmo desenha, escondidos no fundo dos vales sob o ramalhar dos castanheiros, os seus livros serão procurados como lugares repousados, de largos ares, onde os nervos se vão equilibrar e se vai pacificar a paixão e o seu tormento.

Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte, tranquila e meiga, pomos a lembrança de Júlio Dinis. Que as pessoas delicadas se recolham um momento, pensem nele, na sua obra gentil e fácil, que deu tanto encanto, e que merece algum amor. Tal é o nosso mal, que este espírito excelente não ficou popular: a nossa memória, fugitiva como a água, só retém aqueles que vivem ruidosamente, com um relevo forte: Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve.

Foi simples, foi inteligente, foi puro. Trabalhou, criou, morreu. Mais feliz que nós, tem o seu destino afirmado, e para ele resolveu-se a questão.

Passemos pois... Já do outro lado, para além desta página serena, ouvimos, inumeráveis como abelhas vingadoras, as ironias aladas que, com um rumor impaciente, zumbem no ar!

Eça de Queirós - In: Uma Campanha Alegre/I/XXXII - aqui

Júlio Dinis viveu de leve,
 escreveu de leve, 
morreu de leve.
Diz Eça de Queirós. ´
Tenho lido esta asserção nos mais variados sítios mas sempre quis identificar onde o tinha lido pela primeira vez. Foi em "Uma Campanha alegre", mas já não me lembrava. 
No texto acima, Eça justifica o seu juízo. 
Demasiado simplista?






Júlio Dinis,(1839-1871) pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, também Diana de Aveleda em pequenas narrativas. Faleceu com apenas 31 anos, vítima de tuberculose pulmonar. mais



José Maria de Eça de Queiroz, ( 1845-1900) contemporaneamente escrito Eça de Queirós, foi um escritor e diplomata português. Completaram-se, a 16 de Agosto, 120 anos sobre a sua morte. mais

Dois grandes vultos da Literatura Portuguesa e 
tão diferentes na sua interpretação da sociedade e da realidade..



Bom domingo, meus amigos.
E muita Saúde!

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Posts sobre Júlio Dinis, aqui, no Xaile de Seda.
E sobre Eça de Queirós, aqui, e onde aparecem referências a ele ou à sua obra, também no Xaile de Seda.

Ver, se interessar:

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Cada dia que passa me aproxima mais de si

Bom! Recebo neste instante a sua carta escrita à luz de uma só vela - e tenho de retirar tudo, tudo, tudo o que escrevi! Pois acabou-se! Não retiro. A minha querida dizia no outro dia que devíamos mostrar um ao outro todos os estados de espírito em que tivéssemos estado. Mostro-lhe, assim, que estive hoje, ontem, antes de ontem num estado de impaciência por uma palavra sua, gemendo e queixando-me de «ne voir rien venir». E mostro-lhe assim o desejo de ter todos os dias, ou quase todos, um doce, adorado, apetecido e consolador «petit mot». (...) As pessoas que se estimam nunca deviam se apartar; a culpa tem-na a nossa complicada civilização; o encanto seria que os que se amam se juntassem em tribos, acampando aqui e além, com as suas afeições e a sua bilha de água, and «settling down to be happy, anywhere, under a tree».

Cada dia que passa, agora, me aproxima de si. (...) Eu também não realizo bem a situação. Ela não deixa de ser ligeiramente romântica. Separamo-nos amigos, reencontramo-nos noivos. Que profunda, grave, séria diferença! Enquanto a gente se escreve, num tom de alegre felicidade, gracejando por vezes, falando de sentimentos e dando «notícias do coração» - «a coisa» parece apenas uma «flirtation» (...) Mas quando se pensa bem! Há então nessa coisa como uma severidade quase religiosa, uma sacro-santidade que assusta e perturba. Duas almas que se unem para sempre e que, tendo individualidades diferentes, não podem jamais tornar a ter interesses diferentes! 

in 'Carta a Emília de Rezende (1885)'




Eça, poliglota, bon vivant, ainda um pouco incrédulo da sorte de ter encontrado  a mulher ideal. Ora, vejamos mais abaixo:


Emília de Castro Pamplona - a Esposa

O escritor chega a confidenciar ao amigo, e também escritor, Ramalho Ortigão:

«Eu precisava de uma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita), de carácter firme sob um carácter meigo, – que me adoptasse como se adopta uma criança; que me pagasse o grosso das minhas dívidas, me obrigasse a levantar a certas horas cristãs – e não quando os outros almoçam – que me alimentasse com simplicidade e higiene, que me impusesse um trabalho diurno e salutar, e que, quando eu começasse a chorar pela lua, ma prometesse – até eu a esquecer… Esta doce criatura salvaria um artista – e faria uma daquelas obras de caridade que outrora levava gente ao Calendário. Mas ai! Onde está esta criatura ideal?»
Numa viagem de férias encetada ao Norte de Portugal, o escritor terá a possibilidade de conviver mais estreitamente com a família dos Condes de Resende, cujas relações iniciais datavam dos tempos do Colégio da Lapa no Porto, e a partir daqui começará a surgir um interesse cada vez maior por D. Emília de Castro Pamplona. Ler mais aqui

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Video: Youtube
1º excerto classificado como "Carta de amor" - Citador

domingo, 3 de janeiro de 2016

Procrastinare lusitanum est

Um ano depois da Formatura, Gonçalo foi a Lisboa por causa da hipoteca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo foro anual de dez réis e meia galinha, devido ao abade de Praga, andava empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hipotecário; - e também para conhecer mais estreitamente o seu chefe, o Braz Victorino, mostrar lealdade e submissão partidária, colher algum fino conselho de conduta Política.
Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha Marquesa de Louredo, a "tia Louredo", que morava a Santa Clara, esbarrou no Rossio com José Lúcio Castanheiro, então empregado no Ministério da Fazenda, na repartição dos Próprios Nacionais. Mais defecado, mais macilento, com uns óculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, como em Coimbra, na chama da sua Idéia -"a ressurreição do sentimento português!"
E agora, alargando a proporções condignas da Capital o plano da Pátria, labutava devoradoramente na criação duma revista quinzenal, de setenta páginas, com capa azul, os Anais de Literatura e de História. Era uma noite de maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno das fontes secas do Rossio, Castanheiro, que sobraçava um rolo de papel e um gordo fólio encadernado em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras geniais da rua da Misericórdia, de maldizer a falta de intelectualidade de Vila Real de Santo Antônio - voltou sofregamente à sua Idéia, e suplicou a Gonçalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os Anais esse Romance que ele anunciara em Coimbra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-Mor de Sancho I.
        
Gonçalo, rindo, confessou que ainda não começara essa grande obra!
- Ah! - murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros óculos sobre ele, duros e desconsolados. - Então você não persistiu?... Não permaneceu fiel à Idéia?...

Encolheu os ombros, resignadamente, já acostumado, através da sua missão, a estes desfalecimentos do Patriotismo. Nem consentiu que Gonçalo, humilhado perante aquela Fé que se mantivera tão pura e servidora - aludisse, como desculpa, ao inventário laborioso da Casa, depois da morte do papá...


- Bem, bem! Acabou! Procrastinare lusitanum est. Trabalha agora no verão... Para Portugueses, menino, o verão é o tempo das belas fortunas e dos rijos feitos. No verão nasce Nuno Álvares no Bonjardim! No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega o Gama à índia!... E no verão vai o nosso Gonçalo escrever uma novelazinha sublime!... De resto os Anais só aparecem em dezembro, caracteristicamente no primeiro de dezembro. E você em três meses ressuscita um mundo. Sério, Gonçalo Mendes!... É um dever, um santo dever, sobretudo para os novos, colaborar nos Anais. Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional! Nós estamos imundamente morrendo do mal de não ser Portugueses!




Gonçalo acaba por escrever a tal novela.
Porém, toda a narrativa de Gonçalo não passa de uma versão em prosa, frouxa e mal elaborada de um poema escrito anos atrás por um tio e publicado num jornal de província. Seus talentos literários não passam da mal dissimulada cópia, como sua estrutura moral não passa de um jogo hábil entre interesse e conveniência social. aqui

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Imagem: aqui

sábado, 5 de dezembro de 2015

Dia Eça de Queirós

É amanhã.
À semelhança da homenagem prestada a Ramalho Ortigão, 06/02, o dia 6 de Dezembro é dedicado a Eça de Queirós(1845-1900)- escritor nosso conhecido quanto mais não seja por o termos lido na escola, mais precisamente em "Os Maias", "A Ilustre Casa de Ramires", entre outros. 

De lá para cá muitos de nós lemos a colecção toda. O último livro que li foi "A Capital"- encontros e desencontros numa grande cidade que, da província, é considerada um lugar de grandes oportunidades, tudo facilitado e são no círculo de pseudo-intelectuais mas, na realidade, um poço de desilusões e de oportunismos. Foi o que sentiu o ingénuo e crédulo Artur, protagonista de muitas peripécias.


E como o prometido é devido, aqui, trago-vos a notícia desta homenagem, uma parceria entre o Centro Cultural de Belém e o Centro Nacional de Cultura. Eis o programa,* onde consta que o mesmo é provisório, talvez na esperança de, à última hora, surgirem mais ideias de modo a fazer-se um retrato o mais fiel possível deste autor da literatura portuguesa. Realmente, falar de Eça de Queirós com propriedade não será tarefa fácil. Que o digam os queirosianos que porfiam no estudo e compreensão da sua personalidade e da sua escrita.

Mas, o que sabemos assim sem grandes análises é que Eça de Queirós foi um exímio farpeador da sociedade dos seus dias. A documentá-lo, lê-se neste artigo o seguinte:

É um dos maiores romancistas portugueses e talvez a voz mais crítica e impiedosa da segunda metade do século XIX. 
E maisA sua produção literária é marcada por um ritmo que impressiona: desde “O Crime do Padre Amaro” até “A Ilustre Casa de Ramires” não esquecendo a obra maior que é “Os Maias“, este escritor português conta com  mais de 30 romances publicados e traduzidos em cerca de  20 línguas.

Recapitulando: A sessão começa às 15h00 de amanhã e a entrada é livre. Então, marcamos encontro no CCB, no pequeno auditório, certo?

Se, entretanto, preferirdes ficar no recesso dos vossos lares deixo-vos aqui, caros amigos, este link que vos conduzirá a alguns livros do autor (download grátis).

Realmente, este domingo promete.

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Do blog picosderoseirabrava trouxe agora esta mensagem: 

A chama da amizade
Amizade em cadeia. Porque Dezembro é um mês muito especial.
Esta chama acesa vem do blog da Fê Blue Bird e espero que propague por outros e muitos mais.




Obrigada.

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* Voltei há pouco ao site e o programa já não está "provisório", o que lhe retira um pouco do seu mistério. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Nobre povo, Nação valente




Nação pequena que foi maior do que os deuses em geral o permitem, Portugal precisa dessa espécie de delírio manso, desse sonho acordado que, às vezes, se assemelha ao dos videntes (Voyants no sentido de Rimbaud) e, outras, à pura inconsciência, para estar à altura de si mesmo. Poucos povos serão como o nosso tão intimamente quixotescos, quer dizer, tão indistintamente Quixote e Sancho. Quando se sonharam sonhos maiores do que nós, mesmo a parte de Sancho que nos enraíza na realidade está sempre pronta a tomar os moinhos por gigantes. A nossa última aventura quixotesca tirou-nos a venda dos olhos, e a nossa imagem é hoje mais serena e mais harmoniosa que noutras épocas de desvairo o pôde ser. Mas não nos muda os sonhos.

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Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:

- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr.Padre Soeiro quem ele me lembra?
- Quem?
- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antigüidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?...
- Portugal.



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Jornal das Letras, mas tendo como fonte "Portugal - identidade e imagem" in "Nós e a Europa ou as duas razões", por Eduardo Lourenço (1988) 
Jornal de Letras, Artes e Ideias / 20030904.
In:Citador
Imagem:daqui

2º texto
Excerto de "A Ilustre Casa de Ramires". Poderá ler este livro aqui

domingo, 8 de dezembro de 2013

Comamos, bebamos e amemos...

Foi filósofo, poeta, escritor, empresário, editor, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo, publicitário, jornalista. Contou vidas que não viveu, escreveu cartas de amor 'ridículas', assinou com heterónimos como Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, mas todos o conhecem pelo nome de baptismo, Fernando Pessoa.

Não gostava particularmente de comer, mas todos os dias sentava-se invariavelmente às 19 horas, na mesma mesa do Martinho da Arcada a comer a sopa do dia. O seu velho amigo Mourão, preocupado com a sua saúde, inventou uns ovos estrelados com queijo, que lhe punha na mesa sem que ele lhe pedisse. Sobre os comeres escreveu em tempos, "Comamos, bebamos e amemos (sem nos prender sentimentalmente à comida, à bebida e ao amor, pois isso traria mais tarde elementos de desconforto)".

Foi na África do Sul, que Pessoa apurou o paladar e descobriu temperos exóticos. Entre eles "curry", do indiano "kand'hi" (molho), talvez por isso um dos pratos que apreciava, fosse galinha com molho curry. Apesar de não saber nem estrelar um ovo, diz-se que apreciava cozido à portuguesa, leite creme e arroz doce. Mas a dobrada à moda do Porto parecia da sua predilecção, tanto que lhe dedicou um poema escrito, segundo consta no restaurante 'Ferro de engomar', em Benfica. Sabores de Pessoa, entre continentes e letras...

Este texto, que encontrei numa revista de culinária*, vem acompanhado das receitas dos pratos que, segundo aqui se diz, eram da predilecção de Pessoa. Vou transcrever a de galinha com molho curry, que o mesmo é dizer, galinha de caril de que gosto muito:



Galinha com molho curry - Ingredientes: 1 galinha grande, 1 maçã reineta, 1 cebola grande, 3 dentes de alho, 50g de coco ralado, 0,5 dl azeite, 2 colheres (sopa) de caril indiano em pó (curry), 1 folha de louro, salsa ou coentros q.b., sal e pimenta q.b.
Preparação:1) Arranje a galinha, corte-a em pedaços e tempere-os com sal e pimenta. Descasque e lave a cebola e os dentes de alho e pique-os finamente. 2) Leve um tacho ao lume com o azeite, deixe aquecer, junte os pedaços de galinha e deixe cozinhar até ficarem douradinhos de ambos os lados. Adicione depois a cebola, os dentes de alho e a folha de louro e deixe cozinhar mais um pouco até que tudo fique douradinho. Regue com 5 dl de água, junte o caril e o leite de coco, mexa e deixe ferver. 3) Descasque e rale a maçã reineta, adicione ao tacho e deixe cozinhar até que o frango fique macio e o molho apuradinho. Junte então o coco ralado, deixe ferver um pouco para engrossar, retire do lume e sirva polvilhado com salsa ou coentros picados. Acompanhe com arroz branco.

Esquisito ver o nome de Pessoa associado a receitas de culinária? Nem por isso, comer faz parte da vida. E sabemos que vários autores, de renome, da nossa cena literária diziam da sua justiça nesta matéria como, por exemplo, Eça de Queirós que interpela assim os seus contemporâneos:

"Onde estão os pratos veneráveis do Portugal Português, o pato com macarrão do século XVIII, a almôndega indigesta e divina do tempo das Descobertas ou essa maravilhosa cabidela de frango, petisco dilecto de D.João IV..." In:Gastronomias.com

E, ainda, este excerto de 'A Cidade e as Serras', aqui referido:

"Cheguei a Guiães. Ainda restavam flores nas mimosas de nosso páteo; comi com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti a ceifa dos milhos. E assim de colheitas e lavras, crestando ao sol das eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, sarandando à candea, atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presépios de Natal, por ali me passaram docemente sete anos. (...) Do Jacintho recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas à pressa por entre o tumulto da civilização. Depois, num setembro muito quente, ao lidar na vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão quietamente... A minha afilhada Joaninha casou na matança do porco. Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris."

* A revista a que me refiro é a Teleculinária (Especial), de 30/09. Traz uma nota, quanto ao texto transcrito, sobre F.Pessoa: 'Pesquisa feita através do blogue de Lectícia Cavalcanti, coordenadora do caderno Sabores da Folha de Pernambuco'. A imagem da 'galinha de caril' não é a mesma da revista, mas tirada da Internet. Os meus agradecimentos a todos os que disponibilizaram estes dados.