Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Cascais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Cascais. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Óculos escuros

os aviões levantam,
quase invisíveis sob o êmbolo da chuva,
as coisas ditas, como peças
desenhadas sobre páginas de manual.
nítidas e incompreensíveis.
a luz do ocidente
dispara primeiro, através da opacidade
do que nos é permitido,
as perguntas vêm mais tarde, a sua cadência
rasgando o telão do senso comum

o peso nosso comum,
o estado em que nos empenhamos
contra a ideia de que nunca existiu
uma verdade estável, una
e se perderam os autores do guião

tendo-lhes surgido um campo aberto,
as possibilidades confundidas em
inesperadas extensões de vida pública
a perder de vista.

para nós, a definitiva lapidação da tarde
tinge de vermelho
o convexo dos óculos de sol,
as paredes da equação evadem-se
no cravo do fast forward.

Rui Cascais
in: a carne do rosto

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Costura

Este é mais um poema que aqui transcrevo, com a etiqueta Mundo, uma pequena série que iniciei com o poema do post anterior, de Sophia de Mello Breyner Andresen. O seu autor chama-se RUI CASCAIS e retirei-o de uma obra sua intitulada a carne do rosto, título já de si um pouco inquietante. Realmente, segundo me parece, este poeta não escreve com o intuito de apresentar uma visão mitigada do mundo, nem para apontar soluções. Contudo,  vislumbro uma pequena sugestão, talvez no sentido de que caberá a nós próprios virar o mundo do avesso e fazer uma revisitação aos seus fundamentos
Não lhe encontrei elementos biográficos neste mundo virtual, talvez por incapacidade minha na pesquisa. Apenas referências à sua função de tradutor, vertendo para o inglês e/ou chinês obras de alguns autores portugueses como, por exemplo, Eugénio de Andrade. 

Costuremos, pois: 


Costura

não ocupa
espaço.

não se trata apenas de um cenário.
uma seda desce o corpo.

não se trata
de um bastidor.

talvez uma luva.uma preensão que o mundo
pode finalmente inverter sobre nós,

como se finalmente descobríssemos
a sua vontade, visitando o avesso.





Incluo neste post o comentário, de Mariavaicomasoutras, que me parece muito interessante e que nos leva, quiçá, a explorar outros caminhos:

Mariavaicomasoutras

A dimensão do verso no reverso de uma coisa.
Assim são todas as coisas
Num espaço que não o é sendo-o.
Por isso a resposta
quase sempre se encontra
no virar
no revirar
de uma página!

_________________________

Mote
Poema de:
Rui Cascais

in: a carne do rostoed. Instituto Camões
Macau. 1999

Imagem retirada da internet, com a devida vénia ao blog: osilencioentreaspalavras.blogspot.com