Negócio de Pomba
Sim; tudo isto entrava mesmo no sistema de raciocínios, de significações. Mas se a gula da herança de Renato entrasse também na atitude do velho Peixoto visitando-o, com as suas falinhas pela mansa, o seu veneno de apagar e acender nos olhos verdes, como o pintavam e conheciam de ginjeira na vila e arredores? Que diabo! Não. O Peixoto não tinha necessidade nenhuma de casar a filha rica - ele que era um dos maiores contribuintes do concelho e o maior proprietário de casas das portas da vila para dentro. A Ângela não faltava partidos: o Dr Delegado, o neto do morgado Camelo, o filho do Pires da Ribeira dos Pães. Tudo rapazes perfeitos e ricos ou bem colocados. Ele, Renato, não tinha posição nem fidalguia; um boato de herança no Brasil não é que ia dourá-lo.
E então pensou que, tendo sido o primeiro namoro de Ângela e não sendo peste nenhuma, podia muito bem acontecer que em casa do Peixoto estimassem vê-los unidos, não sendo então indiferente a uma família rica a possibilidade de Renato levar alguns bens ao casal, por causa do futuro dos netos.
E pronto. Aquela doce palavra familiar subtilizava tudo. Peixoto passava a andar no quarto com passos ainda mais suaves - o avô, para não acordar o netinho... Quem estava quase a dormir era Renato, mas quem fazia o Peixoto andar com cuidado nos tacões era um ser para diante, uma coisinha de nada nuns braços, numa covinha de colchão ou num cesto, capaz de ficar horas e horas debaixo do tecto da casa de Teotónio Lobão a mexer com as mãos uma na outra, e completamente urinadinho...
In:A casa fechada, pg 116 - Obras Completas Vol. VI
e a história continua...
Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva - (1901-1978)
foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador da literatura e da cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo e comunicador televisivo, para além de toda a actividade de docência. O seu nome consta da lista de colaboradores da Revista dos Centenários publicada por ocasião da Exposição do Mundo Português e nas revistas, Panorama (1941-1949) Conímbriga de 1923, Renovação (1925-1926), Atlântico e Litoral(1944-1945).
Destacou-se como autor de Mau Tempo no Canal, mas ele dizia-se antes de tudo um poeta.
Já não escreverei romances
Nem contos da fada e o rei.
Vão-se-me todas as chances
De grande escritor. Parei.
Mas na chispa do verso,
Com Marga a aquecer-me,
Já não serei disperso
Nem poderei perder-me.
Tudo nela é verbo e vida;
Xale, cílio, tosse, joelho,
Tudo respinga e acalma.
Passo, óculos, nada é velho:
Quase corpo, menos que alma.
Já não lavrarei novelas,
Ultrapassado de ficto:
A vida dá-me janelas
A toda a extensão do dicto.
Mas sem elas, mas sem elas
(As suas mãos) fico aflito.
Vitorino Nemésio,
in "Caderno de Caligraphia
e outros Poemas a Marga"
Fortemente marcado pelas raízes insulares, a vida açoriana e as recordações da sua infância percorrem a obra do escritor, numa espécie de apelo, revelado pela ternura da sua inspiração popular, pela presença das coisas simples e das gentes, e pela profunda humanidade face à existência e ao sofrimento da vida humana
Continuemos a ler aqui a sua biografia e veremos quão rica é a sua Obra.
De referir o Programa na RTP1, "Se bem me lembro", programa que marcou uma época em que ainda se discutia e se falava de assuntos que interessavam a todos.
Trago este video em que se fala do seu percurso. Ilhéu e comprometido com a vida. E apesar de viver longe, nunca esqueceu as suas raízes.
Um espécime da rica Flora Açoriana
Tenham uma boa semana, amigos.
Abraços
Olinda
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SÉRIE
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Imagem: Flor trazida da Geoparque Açores