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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ó da barca!!!

Gil Vicente é daqueles autores cujos escritos atravessam os tempos. Aproveita-os para criticar a sociedade da época o que, mutantis mutandis, se poderia aplicar à sociedade de hoje. O Auto da Barca da Glória  talvez seja das mais representativas da sua concepção, aparentemente maniqueísta, do mundo. Composto de duas barcas que representam alegoricamente o Paraíso e o Inferno, o diabo vai fazendo acusações reclamando que a morte só lhe traz gente pobre e humilde enquanto os ricos e honrados não aparecem. Estes por ordem hierárquica ascendente, vão se apresentando, (o conde, o duque, o rei, o imperador, o cardeal, o arcebispo, o papa) e porque têm responsabilidades na gestão civil e espiritual das gentes, conforme as suas acções, assim estariam destinados a uma das barcas.
Nenhum deles passa no crivo apertado da balança que julga o bem e o mal.Todos eles vêem as suas acções dissecadas, as suas omissões postas a nu, os seus pecados publicitados, todos são acusados de não cumprirem o dever, a missão, para que foram destinados. Mas contra tudo o que seria de esperar, a barca do Paraíso acaba por ficar sobrelotada com estas personagens ou personalidades, apesar da má gestão, no mínimo, das responsabilidades que lhes foram cometidas. E a barca do inferno, com o diabo como timoneiro, mesmo ali, à espera de fazer a travessia com esta carga preciosa. Mas, à ultima hora são todos perdoados, e mais, essa culpa é lavada pela intervenção directa de Cristo através do Anjo que desfralda uma vela onde se encontra pintado um crucifixo, como chancela desse desidério. 
Então, é aqui precisamente que cai por terra o que se entrevê mais acima: crítico de todos os tipos sociais e de comportamentos, Gil Vicente parece fugir à postura moralista assumida nos autos das barcas do inferno e do purgatório, onde premeia o bem e castiga o mal, à revelia do moralismo apregoado. 
Talvez seja um acto premonitório, fatalidade que atravessaria os tempos e com a qual teremos de viver, numa óptica determinística. Ontem como hoje, parece existir uma inimputabilidade quase inata, aceite de forma tácita por quem teria a responsabilidade no apuramento dos factos e falhas na gestão da coisa pública, situação que nos leva paulatinamente para o abismo de forma irremediável. E, segundo tudo indica, quanto a isto não há remédio... 




Imagem: Internet