quarta-feira, 5 de outubro de 2022
O simbolismo das espadas
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Heróis trágicos da República
Machado Santos seria feito senador e ocuparia cargos ministeriais no governo de Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, o mesmo Sidónio Pais que com um golpe de Estado ascende a Presidente da República em 1917 e, de forma ditatorial, suspende e altera por decreto algumas normas da Constituição de 1911, inaugurando assim a República Nova. Com a auréola de herói, nasce o Presidente-Rei, epíteto grafado por Fernando Pessoa no seu extenso poema, "À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais".
domingo, 5 de outubro de 2014
Desaires da 1ª República
E que dizer de Miguel Bombarda, médico, chefe civil da causa revolucionária, que é morto por um doido, seu antigo doente, como ele próprio ainda consegue dizer, no dia 3 de Outubro? Pela cidade corre a notícia de "Lá o mataram!". E várias especulações ainda vigoram. Machado Santos consegue segurar a coisa e ele e o seu grupo transformam-se nos "doidos" da Rotunda, pela eficiente resistência no Alto da Avenida da Liberdade, com pouquíssimos recursos.
Um dos exemplos desses desvarios é Sidónio Pais que em 1917 detinha o cargo de presidente do ministério (actual primeiro-ministro), acumulando-o com as pastas da Guerra e dos N. Estrangeiros, e que também toma para si o lugar de presidente da república, destituindo sumariamente Bernardino Ribeiro. Através de decretos altera a Constituição de 1911, governa de forma ditatorial, e a República passa a ser conhecida como a República Nova. Sidónio Pais é assassinado em Dezembro de 1918.
A situação criada por Sidónio é, no entender de alguns, precursora do Estado Novo. Com o golpe de 28 de Maio de 1926 pretender-se-ia sanar os problemas criados durante estes atribulados anos como, por exemplo, equilibrar as contas públicas. Para isso, são solicitados os serviços de António de Oliveira Salazar.
Mas antes de Salazar e do Estado Novo temos a noite de 19 de Outubro de 1921, conhecida por noite sangrenta*, trágica, em que uma camioneta fantasma com pessoas dentro anda pela noite ceifando vidas, as vidas de António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois históricos da proclamação da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos, entre outros.
É este o nosso país, o tal de brandos costumes.
Meus amigos desejo-vos um excelente dia.
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*Tomei contacto, pela primeira vez, com a realidade dessa noite trágica através de um jornal da época, quando, em tempos, pesquisava para um trabalho. Depois disso li A Noite Sangrenta, de José Brandão, de 1991, e outros escritos sobre a matéria.
-Imagem retirada da Net.
Consta também da capa do Vol. XI da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, sobre a 1ª República (1910-1926), mas um pouco mais recortada. Não é das minhas imagens preferidas.
domingo, 26 de outubro de 2025
João Chagas - o jornalista panfletário*
Anteontem, no banquete oferecido em Santarém aos republicanos de Lisboa, deu-se um episódio ao qual tive a boa fortuna de assistir.
Ao terminar um brinde, um republicano da região ergueu um viva à República a que todos os assistentes se associaram. Mas, neste momento, o Sr José Relvas, que assistia ao banquete, levantou-se do seu lugar e considerou um momento com serenidade a sala agitada da festa, como parecendo pedir silêncio, que de resto, logo se fez. No meio do silêncio, então, o Sr Relvas, com a serenidade que é própria do seu porte e das suas palavras, disse:
_Mais alto! Mais alto para que se ouça em Lisboa!
E, levantando a voz, bradou por sua vez:
_Viva a República!
(...)
João Chagas, 1908, in diário da Liberdade, de Aniceto Afonso, pgs 356/357
João Chagas
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Estamos em 1908, ano em que se deu o regicídio. O rei D.Carlos I e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados, marcando um ponto de viragem na história política portuguesa.
Desde 1876 que o Partido Republicano vinha fazendo história ganhando ainda mais proeminência com o Ultimato Inglês, que exigia que Portugal retirasse as suas tropas dos territórios entre angola e Moçambique, hoje Zimbabwe e Malawi.
O partido propunha a substituição da monarquia constitucional por uma república liberal parlamentar e vai beber os seus fundamentos na Revolução Francesa, 1789, defendendo os valores da liberdade, igualdade, fraternidade. Não esquecer que a Revolução Francesa foi inspirada pela Revolução Americana, 1776, que defendia a participação dos cidadão nas decisões governamentais.
Entre os vários seguidores de ideais republicanos temos João Pinheiro Chagas, (1863-1925), homem multifacetado, jornalista, escritor, crítico literário, político, diplomata e conspirador, republicano liberal que, por via disso, foi por variadas vezes preso e degredado para a colónia penal de Angola, por um período de 6 anos, donde fugiu.
A 1 de Novembro de 1891, foi enviado de novo para Angola, fugindo de novo, desta feita para o Brasil, sua terra natal, donde depois regressou tendo fundado a Marselhesa e continuando a sua acção em prol de regime republicano.
Do seu curriculum consta que deixou uma das obras mais importantes, e por isso mesmo mais injustamente esquecida, do jornalismo político, de ideias e de doutrinação democrática publicadas em Portugal, sendo autor de alguns dos textos basilares para a compreensão do processo formativo, evolução e parâmetros ideológicos do republicanismo português e continuou a lutar pela causa republicana.
Da sua experiência do degredo escreveu Trabalhos Forçados (1900) e Diário de um Condenado Político (1913).
Na altura da sua morte, Carlos Olavo expressou no Diário de Notícias (1 de Junho de 1925) a devoção inteira a essa causa: "A figura de João Chagas implica uma página das mais sugestivas da história da República. Direi melhor da pré-história porque a sua acção começa vinte anos antes da implantação do regime. (...) Traçar o perfil político de João Chagas é escrever a história desse período imediatamente anterior à implantação da República no que ela tem de mais emocionante de mais agitado e de mais febril. Em todos os acontecimentos que nele se desenrolaram João Chagas teve sempre um papel dominante." aqui
No passado dia 5 de Outubro homenageou-se a data da Implantação da República. Todos os anos faço menção a essa data, não me esquecendo, normalmente, dos três conspiradores Miguel Augusto Bombarda, Cândido dos Reis e António Machado Santos.
Se lhe interessar, veja aqui um dos meus textos, escrito em 18 de Janeiro de 2019, com o título, Heróis Trágicos da República.
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João Chagas: Itinerários de um intelectual republicano - Noêmia Novais, link indicado por José Carlos Sant Anna.
Muito obrigada, amigo.
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Bom fim de semana, amigos.
Abraços.
Olinda
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*daqui - biografia no Público
quarta-feira, 14 de novembro de 2018
Afroinsularidade
de híbridas palavras e tétricas plantações
engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras
Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
*e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas
Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas
E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes — cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.
E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans
E aos relógios insulares se fundiram
os espectros — ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas
Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.
in: O útero da casa
Conceição Lima
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- De: A poesia africana de Conceição Lima - Carlos Machado
com glossário.
- Sobre estes versos:
(...)
*e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas
(...)
veja aqui, no Xaile de Seda.
Imagem: daqui
domingo, 31 de dezembro de 2017
O Pinheirinho, o Pinheiro, o Pinhal
Ao fim e ao cabo tudo tem um princípio, embora as situações e a maneira de pensar evoluam. É o que acontece com isso da árvore de Natal. Diz-se que civilizações antiquíssimas, 3º milénio a.C, consideravam as árvores como um símbolo divino, ligando-as a entidades mitológicas. A sua verticalidade, das raízes à copa, marcava uma aliança entre o céu e a terra. Povos pagãos da região dos bálticos cortavam pinheiros que enfeitavam quase como se faz na actualidade.
No início do século VIII, o monge beneditino São Bonifácio tentou acabar com essa crença pagã que havia na Turíngia, para onde fora como missionário. Com um machado cortou um pinheiro sagrado, que os locais adoravam no alto de um monte, e como teve insucesso na erradicação da crença, decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. Nascia aí a Árvore de Natal. * Até Martinho Lutero, o homem da Reforma, gostava de enfeitar pinheiros na floresta, segundo consta.
Por isso, nós, pobres mortais desta era não fazemos nada por aí além na nossa adoração aos pinheiros, especialmente na quadra do Natal. Até porque temos ou tínhamos um motivo bastante válido nesse sentido que nos vem do tempo de D. Dinis que mandou plantar o Pinhal de Leiria, como é voz corrente. Contudo, li há pouco tempo que foi D. Afonso III quem tomou essa iniciativa. Será?
Tenho de reler o livro de Cristina Torrão, "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador", para ver se diz alguma coisa sobre isso. Cristina Torrão é uma escritora que faz de temas da História de Portugal, Idade Média, excelentes romances sem esquecer o rigor histórico.
Infelizmente, o Pinhal de Leiria que veio do Sec. XIII ou XIV foi praticamente devorado pelas chamas nos incêndios de 17 de Outubro de 2017. Faço votos para que mulheres e homens de boa vontade, todos nós, trabalhemos no sentido de recuperar esse património.
Um pinheirinho, um pinheiro, um Pinhal e um texto extemporâneo. Mas como diz o poeta, mais precisamente José Carlos Ary dos Santos, Natal... é quando um homem quiser, no caso, é quando uma mulher quiser.
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