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quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O simbolismo das espadas

Um dia destes passava eu pela Praça Duque de Saldanha, em Lisboa, olhei para a estátua entretanto vista em outras ocasiões, mas desta vez deu-me para me perguntar o porquê do braço estendido a apontar em frente, todo decidido. Claro que sabemos que Saldanha era tido como homem de grandes decisões. E fiz um sorriso seguindo a direcção do braço que ia precisamente para a avenida dedicada a Fontes Pereira de Melo, Praça Marquês de Pombal, indo talvez até ao Tejo, se baníssemos todas aquelas construções que tapam a sua visão.

Avancemos mais uns anos, em relação a Saldanha:




E volto* a António Machado Santos, o Herói da Rotunda, como é conhecido, mercê da sua acção na Implantação da República, 5 de Outubro de 1910, e que continuou na vida política na defesa do regime republicano. Como sabemos, morreu ingloriamente abatido pelos ocupantes da camioneta fantasma na noite de 19 de Outubro de 1921, entre outros, como o primeiro-ministro, António Granjo e Carlos da Maia. 

Machado Santos toma parte na insurreição militar de 25 de Janeiro de 1915,- o Movimento das Espadas - que leva à demissão do governo provisório em vigência e que daria posteriormente lugar à instauração da primeira ditadura do republicanismo português. Em causa estavam transferências de militares por motivos políticos e a política do governo favorável à adesão à Primeira Grande Guerra.

A ideia dos insurrectos era entregar as espadas ao Presidente da República, Manuel de Arriaga, e Machado Santos dirige-se ao Palácio de Belém para entregar a espada utilizada na Revolução de 5 de Outubro de 1910. Como se vê, com muito simbolismo à mistura.

É do conhecimento geral a turbulência havida desde a Implantação da República, assunções e quedas contínuas de governos, intrigas várias, obstrução física do Parlamento aos parlamentares, como neste caso que teve de se transferir para o Tojal. De referir que durante esse período tivemos: 7 Parlamentos, 39 Governos, 8 Presidências da República.

A Primeira República encontrará o seu trágico fim com a Revolução de 28 de Maio de 1926, tendo como consequência o regime ditatorial chamado Estado Novo. Mas não nos devemos esquecer das benesses e direitos que a sua implantação trouxe aos portugueses que - ultrapassada a ditadura de 41 anos, interregno em que os ideais da República foram obliterados - terão a oportunidade de verificar a sua consecução real na Revolução de Abril de 1974.




De novo com o Duque de Saldanha (1790-1876),- portador de um pomposo nome, tal como a figura, João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun,- que se destacara como chefe militar na sua participação nas guerras napoleónicas e nas Lutas Liberais. 

Por outro lado, a sua vida política fora bem recheada de cargos ministeriais em vários governos. Com a Revolta dos Marechais, em 1837, tivera de se exilar, sendo reintegrado em 1838 e contando então com o cargo de Embaixador em vários países.

Porquê referir o Duque de Saldanha, hoje, em que se comemora o 5 de Outubro de 1910? Poderia aduzir vários motivos como, por exemplo, que as sementes que levariam ao Partido Republicano já fermentavam no espírito revolucionário de várias individualidades. 

Mas há um outro... 

É que:

À designação dada ao movimento ecoa outro Movimento das Espadas, ocorrido a 5 de Dezembro de 1869, quando um grupo de oficiais generais se manifestaram a favor do Marechal Saldanha após o seu regresso do exílio.


Como diz Antoine-Laurent Lavoisier, cientista de primeira água, infelizmente guilhotinado durante os desvarios da Revolução Francesa: 

Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma...
isto, num sistema fechado, físico ou químico. 

Logo, tudo que existe provém de matéria preexistente, só que em outra forma, assim como tudo o que se consome apenas perde a forma original, 
passando a adoptar uma outra.

Donde se poderá concluir que
a tábua rasa é um sofisma.
Será?


 

Desejo-vos uma óptima quarta-feira, meus amigos.

Abraços
Olinda


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*Veja no Xaile, aqui e aqui:

Leia, aqui
O movimento das Espadas

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Heróis trágicos da República

Os valores da República ou os que deveriam nortear a República são relembrados todos os anos. De um ano ao outro parecem, contudo, ser esquecidos. Com isto não quero dizer que não haja gente de muito boa vontade que trabalhe para o bem comum. Sempre que as instituições claudicam temos todos a esperança de que apareça alguém que lhes deite a mão. Temos impregnada em nós a síndrome do encoberto, de que alguém aparecerá do nada para resolver os nossos problemas. Acabamos por não avaliar verdadeiramente o que está mesmo à frente do nosso nariz. Especialistas em aplicar paninhos quentes, enrodilhamo-nos em casos que seriam anedóticos se não tivessem um cariz de muita gravidade.

Voltando ao passado, relembro aqui três homens de quem já falei em outras publicações deste blog. A diferença é que os apresento, desta feita e por minha conta e risco, com a auréola de heróis trágicos, no contexto da 1ª República. Não direi que trazem todas as características do herói trágico de Aristóteles. Só que noto neles uma heroicidade e uma tragédia que me fazem pensar e que me incomodam pelo insólito das suas mortes.

Conspiradores, revolucionários, republicanos. São eles, Miguel Augusto Bombarda, Carlos Cândido dos Reis e António Machado Santos. Os dias 2, 3 e 4 de Outubro de 1910, seriam cruciais nas suas vidas, acreditando eles que iriam todos poder festejar a implantação da República. Reza a História que Miguel Bombarda é atingido mortalmente por um doente mental, no dia 3; Cândido dos Reis, à ultima hora, é invadido por dúvidas e suicida-se no dia 4; quem se aguenta até ao fim é Machado Santos que ficou conhecido como o "herói da rotunda", mantendo depois uma vida política activa, para vir a ser assassinado na noite sangrenta, de 19 de Outubro de 1921, quando a camioneta fantasma andou a ceifar vidas, caçando-as nas suas casas e, em muitos casos, no seio das suas famílias.

Machado Santos seria feito senador e ocuparia cargos ministeriais no governo de Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, o mesmo Sidónio Pais que com um golpe de Estado ascende a Presidente da República em 1917 e, de forma ditatorial, suspende e altera por decreto algumas normas da Constituição de 1911, inaugurando assim a República Nova. Com a auréola de herói, nasce o Presidente-Rei, epíteto grafado por Fernando Pessoa no seu extenso poema, "À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais".


"(...)
Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o ermo céu.
Mas a alma acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.
Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!
Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei
A Vida fê-lo herói, e a Morte

O sagrou Rei!
(...)"

Sidónio morre assassinado, a 14 de Dezembro de 1918, à entrada da estação de comboios do Rossio, criando-se-lhe assim a imagem de mártir. A sua acção no âmbito de uma República recém-nascida, com instituições criadas diferentemente do regime destituído a 5 de Outubro de 1910, deveria ser interpretada como? Poder-se-ia falar já em populismo esse bicho-de-sete-cabeças de que se fala tanto e quase ninguém sabe bem o que é?

Grandes transformações no panorama mental em relação a ideologias estão a verificar-se. Se há uns anos os espaços ocupados por partidos de esquerda e de direita eram compreendidos por toda a gente, hoje andamos à deriva. Suponho que os conceitos que lhes serviram de base estão um tanto esvaziados de conteúdo. E quanto a debate de ideias, ideários políticos? Tudo aponta no sentido de que estamos a viver já uma nova Era. Até onde nos levará é que é a grande incógnita.


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Ler no "Xaile de Seda": Os desaires da 1ª República


domingo, 5 de outubro de 2014

Desaires da 1ª República

Sempre me impressionou o facto de o Almirante Cândido dos Reis, o militar principal e um dos cérebros da chamada insurreição, se ter suicidado a 4 de Outubro, na véspera da proclamação da República. Diz-se que à notícia de que a Infantaria 16 teria saído para a rua e começado a fuzilar o povo e que ao rebate "Está tudo perdido...Está tudo perdido!", o nosso homem não resiste à pressão. Ele é depois encontrado morto na Azinhaga das Freiras. Mas, não teria ele a obrigação de fazer uma avaliação criteriosa e corajosa da situação? Que pânico aquele que o leva a pôr fim à vida? Ou não se trata de nada disso? 

E que dizer de Miguel Bombarda, médico, chefe civil da causa revolucionária, que é morto por um doido, seu antigo doente, como ele próprio ainda consegue dizer, no dia 3 de Outubro? Pela cidade corre a notícia de "Lá o mataram!". E várias especulações ainda vigoram. Machado Santos consegue segurar a coisa e ele e o seu grupo transformam-se nos "doidos" da Rotunda, pela eficiente resistência no Alto da Avenida da Liberdade, com pouquíssimos recursos.




Desde esse dia 5 de Outubro até ao golpe de 28 de Maio de 1926 decorre um período conturbado de dezasseis anos, pleno de convulsões sociais e desmandos políticos. Sucedem-se de forma alucinante, parlamentos (7), governos (39), presidências da república (8), e outras instituições.

Um dos exemplos desses desvarios é Sidónio Pais que em 1917 detinha o cargo de presidente do ministério (actual primeiro-ministro), acumulando-o com as pastas da Guerra e dos N. Estrangeiros, e que também toma para si o lugar de presidente da república, destituindo sumariamente Bernardino Ribeiro. Através de decretos altera a Constituição de 1911, governa de forma ditatorial, e a República passa a ser conhecida como a República Nova. Sidónio Pais é assassinado em Dezembro de 1918.

A situação criada por Sidónio é, no entender de alguns, precursora do Estado Novo. Com o golpe de 28 de Maio de 1926 pretender-se-ia sanar os problemas criados durante estes atribulados anos como, por exemplo, equilibrar as contas públicas. Para isso, são solicitados os serviços de António de Oliveira Salazar. 

Mas antes de Salazar e do Estado Novo temos a noite de 19 de Outubro de 1921, conhecida por noite sangrenta*, trágicaem que uma camioneta fantasma com pessoas dentro anda pela noite ceifando vidas, as vidas de António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois históricos da proclamação da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos, entre outros. 

É este o nosso país, o tal de brandos costumes
         
          Meus amigos desejo-vos um excelente dia.


====

*Tomei contacto, pela primeira vez, com a realidade dessa noite trágica através de um jornal da época, quando, em tempos, pesquisava para um trabalho. Depois disso li A Noite Sangrenta, de José Brandão, de 1991, e outros escritos sobre a matéria.

-Imagem retirada da Net. 
Consta também da capa do Vol. XI da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, sobre a 1ª República (1910-1926), mas um pouco mais recortada. Não é das minhas imagens preferidas. 

domingo, 26 de outubro de 2025

João Chagas - o jornalista panfletário*

  Anteontem, no banquete oferecido em Santarém aos republicanos de Lisboa, deu-se um episódio ao qual tive a boa fortuna de assistir.

 Ao terminar um brinde, um republicano da região ergueu um viva à República a que todos os assistentes se associaram. Mas, neste momento, o Sr José Relvas, que assistia ao banquete, levantou-se do seu lugar e considerou um momento com serenidade a sala agitada da festa, como parecendo pedir silêncio, que de resto,  logo se fez. No meio do silêncio, então, o Sr Relvas, com a serenidade que é própria do seu porte e das suas palavras, disse:

_Mais alto! Mais alto para que se ouça em Lisboa!

E, levantando a voz, bradou por sua vez:

_Viva a República!

(...)

João Chagas, 1908, in diário da Liberdade, de Aniceto Afonso, pgs 356/357


João Chagas


***


Estamos em 1908, ano em que se deu o regicídio. O rei D.Carlos I e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados, marcando um ponto de viragem na história política portuguesa. 

Desde 1876 que o Partido Republicano vinha fazendo história ganhando ainda mais proeminência com o Ultimato Inglês, que exigia que Portugal retirasse as suas tropas dos territórios entre angola e Moçambique, hoje Zimbabwe e Malawi.

O partido propunha a substituição da monarquia constitucional por uma república liberal parlamentar e vai beber os seus fundamentos na Revolução Francesa, 1789, defendendo os valores da liberdade, igualdade, fraternidade. Não esquecer que a Revolução Francesa foi inspirada pela Revolução Americana, 1776, que defendia a participação dos cidadão nas decisões governamentais.

Entre os vários seguidores de ideais republicanos temos João Pinheiro Chagas, (1863-1925), homem multifacetado, jornalista, escritor, crítico literário, político, diplomata e conspirador, republicano liberal que, por via disso, foi por variadas vezes preso e degredado para a colónia penal de Angola, por um período de 6 anos, donde fugiu. 

A 1 de Novembro de 1891, foi enviado de novo para Angola, fugindo de novo, desta feita para o Brasil, sua terra natal, donde depois regressou tendo fundado a Marselhesa e continuando a sua acção em prol de regime republicano.

Do seu curriculum consta que deixou uma das obras mais importantes, e por isso mesmo mais injustamente esquecida, do jornalismo político, de ideias e de doutrinação democrática publicadas em Portugal, sendo autor de alguns dos textos basilares para a compreensão do processo formativo, evolução e parâmetros ideológicos do republicanismo português e continuou a lutar pela causa republicana.

Da sua experiência do degredo escreveu Trabalhos Forçados (1900) e Diário de um Condenado Político (1913).

Na altura da sua morte, Carlos Olavo expressou no Diário de Notícias (1 de Junho de 1925) a devoção inteira a essa causa: "A figura de João Chagas implica uma página das mais sugestivas da história da República. Direi melhor da pré-história porque a sua acção começa vinte anos antes da implantação do regime. (...) Traçar o perfil político de João Chagas é escrever a história desse período imediatamente anterior à implantação da República no que ela tem de mais emocionante de mais agitado e de mais febril. Em todos os acontecimentos que nele se desenrolaram João Chagas teve sempre um papel dominante." aqui

No passado dia 5 de Outubro homenageou-se a data da Implantação da República. Todos os anos faço menção a essa data, não me esquecendo, normalmente, dos três conspiradores Miguel Augusto Bombarda, Cândido dos Reis e António Machado Santos. 

Se lhe interessar, veja aqui um dos meus textos, escrito em 18 de Janeiro de 2019, com o título, Heróis Trágicos da República.

***

João Chagas: Itinerários de um intelectual republicano - Noêmia Novais, link indicado por José Carlos Sant Anna.

Muito obrigada, amigo.


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Bom fim de semana, amigos.

Abraços.

Olinda


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*daqui - biografia no Público


quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Afroinsularidade

Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento

nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte

por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
*e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas



Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas

como cicatrizes — cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram

incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram

os espectros — ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas

seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.

in: O útero da casa


Conceição Lima


=====

- De: A poesia africana de Conceição Lima - Carlos Machado
  com glossário.

- Sobre estes versos:
(...)
*e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas
(...)
veja aqui, no Xaile de Seda.

Imagem: daqui

domingo, 31 de dezembro de 2017

O Pinheirinho, o Pinheiro, o Pinhal



A minha filha quando era miúda vinha do colégio com uma cantiguinha que começava assim: "Pinheirinho, pinheirinho / de ramos verdinhos/ P'ra enfeitar, p'ra enfeitar/Bolas bonequinhos..." e insistindo para que se armasse a árvore ainda em pleno Novembro. Com o correr do tempo já é normalíssimo vermos montras e lojas em Outubro com sugestões natalícias. Ainda hoje sinto que começarmos a realizar esses enfeites muito cedo tira um pouco da magia daquilo que se quer transmitir.

Assim, a árvore era montada em princípios de Dezembro, a par com o presépio, e contava-lhe o seu significado para não nos perdermos completamente da história ou da ideia de Francisco de Assis: o presépio representando o menino Jesus, Maria e São José e os pastores, mais os animais e, já agora, os Reis Magos; a árvore de Natal uma representação que foge da nossa realidade levando-nos para as terras frias e trazendo de lá a ideia de um ser mágico que pode cumprir os nossos mais caros desejos.


Aqui para nós: As árvores, as bolas, as guirlandas, as luzes, os presentes, os laços, as fitas, a afobação, a angústia que toma conta de nós (ai que é que eu vou oferecer a A, B ou C), o tempo que se escoa até à data fatal que deveria ser de alegria e felicidade se realmente quiséssemos festejar momentos com a família, já são coisas que não conseguimos controlar porque abarcam a sociedade e envolvem um grande negócio. Promovemos essa ilusão, deixamo-nos levar por ela e, conscientemente, adoramos transmiti-la às crianças até que elas próprias descobrem que foram burladas. Essa descoberta causa-lhes quase sempre uma grande decepção e a primeira certeza de que os adultos não são de fiar.

Um aparte que se impõe: estou para aqui a falar, criticando, no entanto, adoro toda essa envolvência que o Natal produz. Uma contradição...

Mas, continuando. 

Ao fim e ao cabo tudo tem um princípio, embora as situações e a maneira de pensar evoluam. É o que acontece com isso da árvore de Natal. Diz-se que civilizações antiquíssimas, 3º milénio a.C, consideravam as árvores como um símbolo divino, ligando-as a entidades mitológicas. A sua verticalidade, das raízes à copa, marcava uma aliança entre o céu e a terra. Povos pagãos da região dos bálticos cortavam pinheiros que enfeitavam quase como se faz na actualidade.




No início do século VIII, o monge beneditino São Bonifácio tentou acabar com essa crença pagã que havia na Turíngia, para onde fora como missionário. Com um machado cortou um pinheiro sagrado, que os locais adoravam no alto de um monte, e como teve insucesso na erradicação da crença, decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes e perenes à eternidade de Jesus. Nascia aí a Árvore de Natal. * Até Martinho Lutero, o homem da Reforma, gostava de enfeitar pinheiros na floresta, segundo consta.

Por isso, nós, pobres mortais desta era não fazemos nada por aí além na nossa adoração aos pinheiros, especialmente na quadra do Natal. Até porque temos ou tínhamos um motivo bastante válido nesse sentido que nos vem do tempo de D. Dinis que mandou plantar o Pinhal de Leiria, como é voz corrente. Contudo, li há pouco tempo que foi D. Afonso III quem tomou essa iniciativa. Será?


Tenho de reler o livro de Cristina Torrão, "Dom Dinis - a quem chamaram o Lavrador", para ver se diz alguma coisa sobre isso. Cristina Torrão é uma escritora que faz de temas da História de Portugal, Idade Média, excelentes romances sem esquecer o rigor histórico. 

Infelizmente, o Pinhal de Leiria que veio do Sec. XIII ou XIV foi praticamente devorado pelas chamas nos incêndios de 17 de Outubro de 2017. Faço votos para que mulheres e homens de boa vontade, todos nós, trabalhemos no sentido de recuperar esse património.

Um pinheirinho, um pinheiro, um Pinhal e um texto extemporâneo. Mas como diz o poeta, mais precisamente José Carlos Ary dos Santos, Natal... é quando um homem quiser, no caso, é quando uma mulher quiser.





DESEJO-VOS UM BOM ANO  


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1ªs 2 imagens - Pixabay
3ª imagem - daqui
4ª imagem - Pixabay
*Árvore de Natal