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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Um rosto da República

Aos que me vêm visitar de outros quadrantes, e possam não conhecer a nossa História, devo dizer que hoje é feriado nacional, dia da Implantação da República. É um feriado que, apesar da importância do que aconteceu em 5 de Outubro de 1910, foi eliminado ou suspenso em 2012 tendo sido reposto neste ano de 2016.

No ano passado teci, aqui, algumas considerações sobre esse dia - um dia não muito longínquo, pois o que são cento e seis anos para um povo com tão longa História?- e da situação de desequilíbrio que se lhe seguiu, levando a atrocidades que se arrastaram por dezasseis anos. Isto não quer dizer que depois foi um mar de rosas, tendo em conta que a partir de 28 de Maio de 1926 veio um outro período de má memória, o Estado Novo.

Mas, atentemos na definição da República Portuguesa tal como vem na Constituição de 1976 (VII versão, 12 de Agosto de 2005): 

A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

Lendo isto estamos bem conversados, não há lugar para dúvidas, não acham? A Revolução de 25 de Abril de 1974 trouxe-nos estas certezas que, no entanto, ainda baralham muitas cabecinhas. Mas não vou fazer uma resenha, hoje, dos últimos quarenta e dois anos, vou continuar no passado, pelo menos no menos recente, um lugar muito mais seguro para um historiador, que não sou. Não há surpresas e se as houver, essas serão objecto de nova análise.



Hoje, prefiro trazer-vos a história de um Rosto, o rosto escolhido para representar a República, não aquele que consta da capa do livro de História de Portugal que utilizei no meu post do ano passado, mas de um outro de que se não fala muito: o de Hilda Puga ou Ilda Pulga*. Ora, acedam a este sítio, também a estee saibam de quem se trata, se é que não sabem já.

Desejo a todos um dia muito bem passado.


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!ª imagem e história - aqui
*De notar que o nome aparece escrito de duas maneiras, nas referências que aqui trago: Hilda Puga e Ilda Pulga.

domingo, 5 de outubro de 2014

Desaires da 1ª República

Sempre me impressionou o facto de o Almirante Cândido dos Reis, o militar principal e um dos cérebros da chamada insurreição, se ter suicidado a 4 de Outubro, na véspera da proclamação da República. Diz-se que à notícia de que a Infantaria 16 teria saído para a rua e começado a fuzilar o povo e que ao rebate "Está tudo perdido...Está tudo perdido!", o nosso homem não resiste à pressão. Ele é depois encontrado morto na Azinhaga das Freiras. Mas, não teria ele a obrigação de fazer uma avaliação criteriosa e corajosa da situação? Que pânico aquele que o leva a pôr fim à vida? Ou não se trata de nada disso? 

E que dizer de Miguel Bombarda, médico, chefe civil da causa revolucionária, que é morto por um doido, seu antigo doente, como ele próprio ainda consegue dizer, no dia 3 de Outubro? Pela cidade corre a notícia de "Lá o mataram!". E várias especulações ainda vigoram. Machado Santos consegue segurar a coisa e ele e o seu grupo transformam-se nos "doidos" da Rotunda, pela eficiente resistência no Alto da Avenida da Liberdade, com pouquíssimos recursos.




Desde esse dia 5 de Outubro até ao golpe de 28 de Maio de 1926 decorre um período conturbado de dezasseis anos, pleno de convulsões sociais e desmandos políticos. Sucedem-se de forma alucinante, parlamentos (7), governos (39), presidências da república (8), e outras instituições.

Um dos exemplos desses desvarios é Sidónio Pais que em 1917 detinha o cargo de presidente do ministério (actual primeiro-ministro), acumulando-o com as pastas da Guerra e dos N. Estrangeiros, e que também toma para si o lugar de presidente da república, destituindo sumariamente Bernardino Ribeiro. Através de decretos altera a Constituição de 1911, governa de forma ditatorial, e a República passa a ser conhecida como a República Nova. Sidónio Pais é assassinado em Dezembro de 1918.

A situação criada por Sidónio é, no entender de alguns, precursora do Estado Novo. Com o golpe de 28 de Maio de 1926 pretender-se-ia sanar os problemas criados durante estes atribulados anos como, por exemplo, equilibrar as contas públicas. Para isso, são solicitados os serviços de António de Oliveira Salazar. 

Mas antes de Salazar e do Estado Novo temos a noite de 19 de Outubro de 1921, conhecida por noite sangrenta*, trágicaem que uma camioneta fantasma com pessoas dentro anda pela noite ceifando vidas, as vidas de António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois históricos da proclamação da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos, entre outros. 

É este o nosso país, o tal de brandos costumes
         
          Meus amigos desejo-vos um excelente dia.


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*Tomei contacto, pela primeira vez, com a realidade dessa noite trágica através de um jornal da época, quando, em tempos, pesquisava para um trabalho. Depois disso li A Noite Sangrenta, de José Brandão, de 1991, e outros escritos sobre a matéria.

-Imagem retirada da Net. 
Consta também da capa do Vol. XI da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, sobre a 1ª República (1910-1926), mas um pouco mais recortada. Não é das minhas imagens preferidas.