sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Damos o Salto?




Devagar, devagarinho ou de supetão? Talvez descontraidamente como quem não quer a coisa mas... querendo, compondo um ar alegre e cúmplice com o Novo Ano; 

Trazê-lo nas palminhas para que nos traga, por sua vez, belos momentos e doces encontros com as coisas boas da vida; 

Tentar dar-lhe a volta, guardando para nós aqueles balanços e planos que gostamos de fazer e, assim, viver um dia de cada vez, saboreando um pôr-do-sol, bebendo um chá quente ou frio, tendo sobre os joelhos uma mantinha ou enfrentando o ar gelado das nossas serranias. 

Tudo é permitido, tudo é válido.

A ajudar-nos neste nosso propósito, dois intérpretes maravilhosos:

Freddie Mercury e Montserrat Caballé. 

É certo que, desse modo, não passaremos despercebidos, mas estamos por tudo. Espantemos as tristezas, olhemos à nossa volta que ainda sobra para nós a música, a poesia, as estrelas. E o amor...

O Amor
Infunde vigor,
Ilumina a mente,
Fortalece a vontade,
Acende um ardor renovado,
Renova a vida.


Palavras da amiga Rosélia Bezerra, que muito aprecio. 



Por favor, faça zoom


E porquê Barcelona para o festejo deste final de ano? Porque é uma música apoteótica bem à medida dos nossos votos de Felicidades para todos. 

Por outro lado, não desfazendo das nossas cidades, Barcelona é uma terra mágica, onde a cultura anda de braço dado com o conceito de cidade inteligente, e além do mais estamos ligados a ela pela História. 

Nesta música, Freddie Mercury excede-se e encontra o ponto ideal que culmina na sua imortalidade, se outros não tivera. 

Assim, Montserrat Caballé. 
Voz de oiro.



Bem acompanhados, desejo-vos:


FELIZ ANO NOVO



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Letra de "Barcelona" aqui

Rosélia Bezerra: in O Sonho de uma Menina Moça

Imagens: Net

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

"Aldeia de um homem só..."

"Desapareceu tudo...
saíram todos,
faleceram os meus pais...
fiquei eu"

O último habitante de Casas da Serra, aldeia na serra do Barroso, em Boticas.



A casa do último habitante fica mesmo em frente, o estábulo faz parte da construção de granito. Está frio e vento; a chuva em breve será neve; por entre carreiros finos do chão que parece forrado de pedra que o tempo gastou, escorre acelerada a água da chuva que desliza da encosta. O cenário, ainda que de abandono, porque sabemos que mais ninguém ali mora, é o que Torga descreve, em parte, em Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes): "Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite."

Leia aqui a história deste homem que será, mutatis mutandis, a história de muitas mulheres e homens por este Portugal fora, cujas aldeias vão ficando cada dia mais desertas.

Oiçamos, entretanto, o saudoso Roberto Leal que canta a sua Aldeia:




E leiamos este belo poema de António Gedeão: 


Minha Aldeia

Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.

Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.

Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.

Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.



Minha Aldeia é todo o mundo
Todo o mundo me pertence.

Boa semana, meus amigos.

Abraços.



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Leia aqui o artigo, no DN
Poema de António Gedeão - aqui

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Natal Africano


Não há pinheiros nem há neve,

Nada do que é convendonal,*

Nada daquilo que se escreve

Ou que se diz... Mas é Natal.


Que ar abafado! A chuva banha

A terra, morna e vertical.

Plantas da flora mais estranha,

Aves da fauna tropical.


Nem luz, nem cores, nem lembranças

Da hora única e imortal.

Somente o riso das crianças

Que em toda a parte é sempre igual.


Não há pastores nem ovelhas,

Nada do que é tradicional.

As orações, porém, são velhas

E a noite é Noite de Natal.

in 'Cancioneiro'





Desde que Cabral Nascimento escreveu o poema, Natal Africano, muita coisa terá mudado no Continente Africano. O chamado progresso terá deitado as suas garras a muitas áreas e não propriamente para beneficiar os seus povos. 

África, terra de grandes riquezas, berço da humanidade segundo pesquisas levadas a cabo até agora, todos nós ligados por aquilo a que se convencionou chamar de Eva Mitocondrial;

Terra massacrada ao longo dos tempos pela cobiça de potências estrangeiras e, nessa senda, por governantes gananciosos, alguns. E embora se diga que cada um de nós tem de construir o seu próprio caminho, tenho para mim que a solução para África seria que a mitologia messiânica se tornasse realidade.

Há algo sumamente verdadeiro que o poeta refere no seu poema: as crianças e a similitude do seu riso em qualquer parte do mundo, e eu acrescentaria a sua predisposição para perdoar e darem-nos a oportunidade de sermos melhores pessoas:


Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.


Riso tantas vezes molhado de lágrimas, de fome, na mais completa miséria, sem agasalho suficiente, como se tem visto, por exemplo, nas levas de migrantes, às portas da velha Europa, por mar e por terra ...**  

Mas não só migrantes: Crianças, aqui e ali, que, se não forem ajudadas, terão talvez neste Natal, na noite de Natal que tanto apreciamos, uma das suas piores noites sem o mínimo para a sua sobrevivência. 
 


"Os Meninos do Huambo"
Poema de Manuel Ruy Monteiro (1976)
Musicado e interpretado por Paulo de Carvalho (1985)
Posteriormente cantado por Ruy Mingas ***



VOTOS DE FELIZ NATAL, 
MEUS AMIGOS



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João Cabral Nascimento,(1897-1978) poeta português, natural da Madeira. Foi professor, conservador das bibliotecas e arquivos nacionais e diretor do arquivo distrital e do Arquivo Histórico da Madeira. Colaborou na revista coimbrã Ícaro e foi o organizador da segunda série da antologia das Líricas Portuguesas, sendo ainda responsável pelos Poemas Narrativos Portugueses e pela Coletânea de Versos Portugueses. A sua poesia foi revelada por Fernando Pessoa e situa-se entre o Saudosismo e o Modernismo, constituindo um rigoroso registo poético, ...
Mais aqui.
Ver mais no Instituto Camões - aqui

*Aparecem "convendonal"  e "convencional"  em muitas publicações deste poema.

**São sete as rotas migratorias para acesso à UE - aqui

*** A Música "Os Menino do Huambo" - Estudo de Angelina Ngungui

Imagens: pixabay