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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

E dói-me




E dói-me esse rio de já me não amares

de já me não quereres assim como eu te quero

de não sobressaltares porque sou eu que te espero

em esquinas de lágrima ou sorriso

foi-se o amor chegou o siso

e eu

que não nasci para ter juízo


E dói-me o teu ventre que não afago

como quem depois de amanhã se afoga

e hoje apenas está, dê para o que der

e doa a quem doer


Passam sanguessugas pelos trilhos da memória

umas são mortas, outras são vivas,

outras são glória

de já não existir e teimar em persistir

e eu vou ao vento, sou palmeira seca,

sou teimoso sou frágil sou de teca de cetim

sou uns dias teu, outros assim assim


E dói-me o teu ventre que não afago

como quem depois de amanhã se afoga

e hoje apenas sente, e já pouco quer

para além de seres mulher


E sei que já não sinto o que senti nem sei quem sou

mas seja eu quem for fazes-me falta, ainda és música

perdi a pauta, nada sei cantar, acho que esta conversa

é coça umbigo, vai ter que parar


Mas dói-me o teu ventre que não afago

como quem não sabe nadar

e hoje é de festa, amanhã é de mar

é de mar


Manuel Cintra
 (1956-2020)

Com este belo e sentido Poema, termino aqui, por ora, a homenagem a Manuel Cintra, autor de mais de vinte livros de poemas, tradutor, jornalista, actor e encenador, falecido no passado mês de Junho.

A editora Guilhotina publicou “Manobra Incompleta” em 2017, reunindo toda a poesia de Manuel Cintra.
"Geralmente escrevo o poema já pronto, quase sem correções. Faço os possíveis por não enlouquecer. Como sabemos, a poesia é uma arma, neste caso visceral. Sempre no limite. Sempre numa nova manobra. A evitar o acidente. Ou a vivê-lo a fundo”, costumava dizer o escritor, citado por Maria Quintans." 



Joe Dassin, 40 ans déjà: “Un homme gentil, généreux, qui en imposait” - diz Charles Van Dievort - aqui

Dele, trago hoje L'ÉTÉ INDIEN, uma das suas mais belas canções. 



Boa semana vos desejo, meus amigos!


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Dois Poemas deste Autor, publicados - aqui no Xaile

Poema agora publicado : in Não sei nunca por onde,
Quasi Edições
Publicado por: https://casadospoetas.blogs.sapo.pt/60627.html

Nota: O título do post "E dói-me" foi retirado de um dos versos do poema.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Eu sou nada


Nada me pertence, nada

se afoga nesta terra deserta de cansaço

Nada é culpa, nada é nascido, tudo cria

embriões para que embriões possam nascer

Eu sou nada e se acaso me afogo

é porque não existo, como os meus amigos

como a arte de imaginar


E a natureza prende-me, se amo é por vir

de um céu imenso onde forças estranhas

me inventaram, e aos meus amigos, e a todo o tanto

que não existe sobre a terra coberta de tudos.


Mesmo deus que não existe me forjou

para a natureza que não existe, a minha

de ser minúsculo e gigante

e não existir

(1956-2020)



Nem a máxima "Penso, logo existo" parece encontrar espaço nas linhas destes versos. Apenas uma certa crise existencialista, em que o autor tanto nega como afirma a sua existência de "ser minúsculo e gigante". E qual o espanto? Nenhum, na verdade. Quantas vezes não somos confrontados com essa dualidade que existe e permanece em nós mais tempo do que o desejável? 
Daí, à sensação incómoda de que afinal somos nada vai um passo. 


E o nihilismo passaria a ser 
 palavra de ordem ou 
tendência viável.






De Manuel Cintra diz Raquel Nobre Guerra, uma sua amiga:

“Não era leve não era cool, não se observava na simpatia de todos, vendia poemas na rua (…) pedia dinheiros, tinha uma página de poesia, tinha o número de telefone na página de poesia, tinha gatos e cães falava deles como de amigos, lia poemas em toda a parte, incomodava, fazia tropelias, agia sobre os outros como quem via qualquer coisa. (…) Tinha sempre uma ponta de febre (…) Era quase tudo o que pomos de parte na vida real para depois nos refastelarmos com a ideia romântica disso.” aqui



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Poema: em Escombros, Lisboa: Caminho Editora, 1993, p. 23.
Publicado por : e-cultura e Meia-noite todo o dia (blog)
Título do post retirado do Poema

domingo, 7 de junho de 2020

talvez te encontre um dia



talvez te encontre um dia
tarde, de noite, demais,
rodeado de livros e de rugas
escritas uma a uma sangue a sangue.

talvez eu chore, talvez tu.
seja qual for, terá valido a pena
de pato, ainda plantada
na asa ou já gasta de escrever.

virei nu.
hei-de atirar-te
à cara essa nudez
que trago sempre no fundo
e me tem saído
caro.

caro com um beijo.
à cara como um beijo
depois.


Manuel Cintra
  1956-2020





Manuel Cintra, foi tradutor, jornalista, ator e encenador, sendo, no entanto, a poesia "a sua incontornável e apaixonada estrada"...
Começou a publicar poesia em 1981, com o livro "Do Lado de Dentro", na Editorial Presença, a que se seguiram mais de duas dezenas de obras.
"Tangerina" (1990), "Borboleta" (2006), "Alçapão" (2009), "Marie" (2009), "Receber a Poeira" (2014), "Parto" (2014), "Peixa" (2016) são algumas das que publicou. A editora Guilhotina publicou "Manobra Incompleta" em 2017, reunindo toda a poesia de Manuel Cintra. aqui
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Poema - aqui
imagem : daqui