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domingo, 20 de outubro de 2019

Um Acaso de Sonho, Um Som Inesperado





São, por vezes, compassivos os deuses
E, em seu arbítrio, permitem a glória de seu rosto.
E sonhos de Eternidade...

Incautos então os homens se incendeiam
Fogos-fátuos de intenso brilho a atravessar
O Universo. E a arder em Desejo fugidio.
E se esgotam em inútil bater de asas.

E nesse percurso de solidão e morte talvez
Um acaso de cor, ou um som inesperado,
Ou um clarão intenso, sejam lenitivo.
Ou sejam queda. Ou novo ritmo.
E regresso ao barro.

E talvez os deuses ignorem...

E o delírio passageiro se erga e ganhe forma
Inesperada. E Eros reine (breve que seja).
E amor seja florescência consumada.

E o sonho expluda. E as estrelas se percam
Em fantasmagórico bailado.

MANUEL VEIGA

in: Caligrafia Íntima
pg.58


Como preferir, Caro Poeta, determinado Poema seu em relação a outro ou outros também seus? Impossível! Assim, há que lê-los, apreciá-los e, num dia em que sentimos que nos falta algo, abrir um dos seus livros e apenas interiorizar aquele que aparecer. Acaso? Obra desses deuses compassivos, por vezes, e noutras jogando aos dados? Que importa? Deixemos então que o sonho expluda e as estrelas se percam em fantasmagórico bailado.


Meus amigos:

Deixo-vos este belo Poema de Manuel Veiga ao mesmo tempo que vos desejo a continuação de um bom fim-de-semana.

Abraço.

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Imagem: daqui

domingo, 17 de dezembro de 2017

Caligrafia Íntima

Eis então o outro livro referido aqui, obra poética intitulada Caligrafia Íntima, de Manuel Veiga, homem de rasgos poéticos cimentados tanto na cultura clássica como na cultura moderna e ainda na contemporânea. Com ele viajamos, nomeadamente, pelas obras de Homero, Camões, Fernando Pessoa. E, ao referir-se a "mulheres de Atenas", não podemos deixar de recordar Chico Buarque de Holanda.

Ora, leiam este poema:  


Urgência de teus olhos


                              Para Cândida, Minha Mulher

Urgência de teus olhos assim tão fogo
Que tão líquidos se derramam e mil silêncios
Os consomem. E mil fios. E mil teares e enredos.
E mil anos os dizem. E mil helenas e mil tróias.
E mil penélopes os resguardam.

E mil "mulheres de Atenas" - verbenas!
E mil cantos. E mil rezas. E mil lágrimas colhidas.

Sou o pórtico desse fogo. Sou o sonho
Sou o rumo e ancoragem. Sou abrigo.
Sou o brado. Sou o grito. Sou incêndio
Das pontes. E as águas que correm no rio.

Sou a carne insubmissa. Sou a miragem!
Sou a memória perdida. Sou a fonte.
Sou origem. Sou quase tudo
No olhar em que sou cativo.

Meu amor, meu amor, sou o poema
Em que te digo. 

In: Caligrafia Íntima
Pg. 31



cento e dois sinais

cento e dois sinais neste livro de poesia a comunicar a grande possibilidade do verbo sensível culto
e às vezes irónico mas sempre livre mas sempre persistente no caminho da perfeição e se ela existir desarrumada e cúmplice o Manuel Veiga ensina-nos o caminho através de uma sobriedade enorme.(...)

é a memória antiga a ser futuro neste presente que nos grita ao perto o grito do poeta. "verso e reverso" da sua fala que nos revisita como se uma pluma fosse e nós leitores acompanhamos o gráfico grito sossegado e intimista de quem não ousa desistir de si.


Algumas das palavras de Isabel Mendes Ferreira no início do livro - pg 6


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Obra referenciada:
Caligrafia Íntima, de Manuel Veiga -
Poesia - Ed. Poética Edições - Maio 2017

1ª imagem: daqui