Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convendonal,*
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.
in 'Cancioneiro'
Desde que Cabral Nascimento escreveu o poema, Natal Africano, muita coisa terá mudado no Continente Africano. O chamado progresso terá deitado as suas garras a muitas áreas e não propriamente para beneficiar os seus povos.
África, terra de grandes riquezas, berço da humanidade segundo pesquisas levadas a cabo até agora, todos nós ligados por aquilo a que se convencionou chamar de Eva Mitocondrial;
Terra massacrada ao longo dos tempos pela cobiça de potências estrangeiras e, nessa senda, por governantes gananciosos, alguns. E embora se diga que cada um de nós tem de construir o seu próprio caminho, tenho para mim que a solução para África seria que a mitologia messiânica se tornasse realidade.
Há algo sumamente verdadeiro que o poeta refere no seu poema: as crianças e a similitude do seu riso em qualquer parte do mundo, e eu acrescentaria a sua predisposição para perdoar e darem-nos a oportunidade de sermos melhores pessoas:
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Riso tantas vezes molhado de lágrimas, de fome, na mais completa miséria, sem agasalho suficiente, como se tem visto, por exemplo, nas levas de migrantes, às portas da velha Europa, por mar e por terra ...**
Mas não só migrantes: Crianças, aqui e ali, que, se não forem ajudadas, terão talvez neste Natal, na noite de Natal que tanto apreciamos, uma das suas piores noites sem o mínimo para a sua sobrevivência.
"Os Meninos do Huambo"
Poema de Manuel Ruy Monteiro (1976)
Musicado e interpretado por Paulo de Carvalho (1985)
Posteriormente cantado por Ruy Mingas ***
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João Cabral Nascimento,(1897-1978) poeta português, natural da Madeira. Foi professor, conservador das bibliotecas e arquivos nacionais e diretor do arquivo distrital e do Arquivo Histórico da Madeira. Colaborou na revista coimbrã Ícaro e foi o organizador da segunda série da antologia das Líricas Portuguesas, sendo ainda responsável pelos Poemas Narrativos Portugueses e pela Coletânea de Versos Portugueses. A sua poesia foi revelada por Fernando Pessoa e situa-se entre o Saudosismo e o Modernismo, constituindo um rigoroso registo poético, ...
Mais aqui.
Ver mais no Instituto Camões - aqui
*Aparecem "convendonal" e "convencional" em muitas publicações deste poema.
**São sete as rotas migratorias para acesso à UE - aqui
*** A Música "Os Menino do Huambo" - Estudo de Angelina Ngungui
Imagens: pixabay