Meus versos, desejo-vos na rua,
nas padiolas, pelo chão, encardidos
como quem ganha com eles a vida,
e o papel vá escurecendo ao sol,
a chuva o manche, a capa
ganhe dedadas, a companhia
aderente de um insecto,
as palavras se humildem mais
e chegue a sua vez de comoverem alguém
que compre, um faminto ajudando.
Meus versos, desejo-vos nas bibliotecas
itinerantes, gostaríeis de viajar
por aldeias, praias, escolas primárias,
despertar o rápido olhar das crianças,
estar nas suas mãos
completamente indefeso
e, sobretudo, que não vos compreendam.
Oxalá escrevam, risquem, atirem no recreio
umas às outras como pélas os livros
e sonhem, se possível, com algum verso
que súbito se esgueire pela sua alma.
António Osório
(1933 - 2021)
Qual o maior desejo de um poeta senão ver os seus versos lidos, relidos, apreciados, interpretados nas escolas, andando pelas ruas de braço dado com o vulgo, numa familiaridade apenas concebida por quem ama?
António Osório faz-nos saber dessa necessidade sem rebuço, com toda a simplicidade, ele, o autor ...
Várias vezes premiado, com obra traduzida e publicada em Espanha, França e Itália, mas também no Brasil, elogiada por críticos tão diferentes como João Gaspar Simões, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa, Joaquim Manuel Magalhães, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Fernando J.B. Martinho, João Bigotte Chorão, Eduardo Prado Coelho, Carlos Reis, Fernando Pinto do Amaral, Diogo Pires Aurélio, Pedro Mexia, António Carlos Cortez...
Queira ler o artigo sobre o poeta em Da Literatura, blog de Eduardo Pitta.
Bom fim de semana, meus amigos.
Abraços.
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Poema - O Citador
Referências trazidas do blog "Da Literatura"
Imagem pixabay

