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sexta-feira, 28 de março de 2025

A louca




Ela andava com o filho por todo o lado, fazendo ele parte do seu corpo mesmo depois de nascido. Punha-o às costas, amarrava-o à cintura, desafiava precipícios agarrando-o pelos bracitos. 

Fruto de (quem sabe?), sedução ou violação por parte do senhor da terra, que, talvez, tivesse mais filhos que terras. Homem tido como portador de valores, fino, de bom trato, discípulo de padres, autoridade máxima da terra, casado. Os filhos, não reconhecidos, povoavam a sua casa, tratavam-no por tio. 

A mulher legítima, teve dois filhos e soçobrava sob o peso dessa população. O quarto, a solidão seria a sua melhor companheira. Talvez sofresse de depressão crónica, doença não diagnosticada na época.

Ela, a louca, viu-se sem o filho antes de lhe acontecer alguma desgraça. Foi-lhe retirado pela família do pai da criança. Conheci este filho de ninguém. Chamava-se Júlio. Meu tio.

Vítimas do tempo, da época, das contingências morais e sociais, que obrigavam a mulher a atitudes que se assemelhavam, muitas vezes, a patologia incurável ou à loucura. 



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Pintura: Almada Negreiros


quinta-feira, 7 de março de 2024

Dia da Mulher



Todos os dias é a luta pela sobrevivência, a fuga aos maus tratos, à violência, às violações e, muitas vezes, à morte. Fuga nem sempre conseguida. Umas sem recursos, sem-abrigo, outras empregadas domésticas, empregadas fabris, empregadas de escritório, seja qual for a ocupação, o mesmo descaso, quase desprezo, o assédio, parece que ainda não encontrámos o nosso lugar no mundo. Em todo lado é a mesma coisa, com mais ou menos sofisticação, pois existe o tormento moral de mulheres que, mesmo com posses, continuam a ser vítimas.

Não desdenho deste dia 8 de Março, que nos é dedicado. Digamos que é um dia em que talvez tenhamos a oportunidade de todos falarmos do mesmo, embora saibamos que essa comemoração poderá ser vazia de conteúdo. Sabemos que a História da Mulher é prenhe em martírios e desconsiderações, mas também sabemos que muita coisa mudou com o passar dos tempos. 





Mulher

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher-cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama

E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração

Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha

Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são

A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade

Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher»






Na realidade, há uma maior visibilidade em relação à situação das mulheres. Aquando da Implantação da República as mulheres poucos ou nenhuns direitos detinham. De referir, por exemplo, o sufrágio feminino alvo de muitos debates e restrições, sendo o analfabetismo um óbice. As mulheres com curso superior e chefes de família foram consideradas aptas. Carolina Beatriz Ângelo estava nessas condições e foi a primeira mulher a votar em Portugal, mas teve de reclamar para o conseguir. 

A Revolução de Abril de 1974 veio abrir as portas à Mulher como Cidadã de pleno direito, abolindo através de legislação um sem-número de proibições descabidas, nomeadamente, a dependência total da autoridade do marido em todas as circunstâncias, até de não ter o direito de os seus bens estarem em seu nome (o caso da minha mãe, por exemplo). Veja aqui, aqui, aqui algumas dessas bizarrias.

Mas não há legislação que suporte a mudança de mentalidade. Esta não muda por decreto. Por isso, continuamos a assistir a esse sofrimento de que falo no primeiro parágrafo. O feminicídio, em contexto de violência doméstica, é um facto em Portugal.

Há ainda muito caminho para palmilhar.




***

Feliz Dia da Mulher.


Abraços

Olinda




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Veja mais sobre a Mulher

aqui, aqui, aqui, no Xaile de Seda.

Talvez apareçam repetidos alguns

posts ou faltem alguns nesta

pesquisa.

Poema: daqui

terça-feira, 8 de março de 2022

As Mulheres

...Pela cidade, as mulheres suportam malas e cuidam das crianças. São milhares, sem o companheiro. Só elas e os filhos. Os homens estão a combater. Outros, estão de prontidão. ...

O visor da minha máquina fotográfica já me limpou os olhos várias vezes. É difícil não chorar. Caros leitores, aqui o sofrimento é atroz. Podemos ser comentadores, analistas, de esquerda ou de direita. É sempre fácil no conforto do sofá. Aqui deixou de haver sofás. E berços só nos braços fortes das mães e das avós. Gosto de olhar olhos nos olhos. 

As mulheres são lindas. Transportam uma beleza que nem o desespero consegue vencer. São serenas. São solidárias. Carregam com elas o futuro de dois países. Meninos e meninas. Em Kiev ou em Moscovo, todos gostam de brincar. Bonecas e carrinhos. Existem linguagens universais.

As mulheres são o melhor que a humanidade tem.

Excerto de Crónica de 5/3, de Adriano Miranda, 
enviado do Público à Ucrânia.



Em Nome do Amor,

Ela espera fiel, confia, é puro clamor
Aos céus, confia no Alto com penhor.
Em nome do Amor,
Ela aguarda o tempo da dura espera,
Aguarda, no 💙, o cumprir da quimera.
Em nome do Amor,
Ela tem paciência, calma com sua dor,
Sabe o Amor paciente ser como a flor.
Em nome do Amor,
Ela é serena, com todo seu sofrimento,
Não cansa nem se cansa em tormento.
Em nome do Amor,
Ela sabe, um dia renascerá das cinzas,
Como fênix revigorada, sem tristezas.



Posto que o Amor também é feito de espera, o mesmo é dizer de esperança, hoje, Dia Internacional da Mulher, trago-vos este poema da amiga Rosélia. O direito de amar, de aspirar à Felicidade e de estar na vida de conformidade com as próprias escolhas. 

Esperança de que a Paz invada os corações de quem decide da vida das pessoas, de crianças, velhos e de quem é considerado mais fraco pelo poder das armas.

A canção que acompanha este poema foi-me indicada 
pela autora, a meu pedido, e verão como tudo está em consonância: 
palavras, música e esse sentimento que é 
o sal da vida, o Amor, 
 em todas as suas manifestações. 



A Miragem/Somente por amor


...somente por amor a gente põe a mão 
no fogo da paixão, deixa-se queimar 
somente por amor movemos terra e céus
rasgando sete véus, saltamos do abismo
sem olhar para trás...


Rosélia Bezerra, professora aposentada, é uma escritora com vários livros publicados. Confira aqui, em ClubedeAutores.

Este poema foi publicado em 2021 com o título "Como uma Fênix", no seu blogue  AMORAZUL. 


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Imagem: net


domingo, 6 de março de 2022

Memórias de Adriano

Livro de Marguerite Yourcenar que retrata a vida do Imperador romano Adriano, (76-138 d.C), o governante ideal, autobiografia romanceada e baseada em minuciosa pesquisa que durou cerca de trinta anos, uma das obras de referência da literatura contemporânea. Foi lançada em 1951 e tornou internacionalmente conhecida a sua autora.




Tem a forma de uma longa carta dirigida por Adriano, Pontifex maximus dos territórios romanos entre 117 a 138 d.C., já minado pela doença, ao jovem Marco Aurélio, que deve suceder-lhe no trono de Roma (século II d. C.). Nessa carta promete contar-lhe toda a verdade, sem as reservas próprias da história oficial. Pouco a pouco, através desta serena confissão, suscitada pelo pressentimento de que a morte se aproxima, ficamos a conhecer os episódios decisivos da vida deste homem notável, que soube pacificar o império, tornar a sociedade romana um pouco mais justa, melhorar a sorte das mulheres e dos escravos.

Consta que Adriano teria deixado realmente uma autobiografia que, entretanto, não chegou aos nossos dias. 

Memórias de Adriano é prefaciado por Isabel Alçada, e poderemos ouvi-la, neste video, numa interessante reflexão sobre a obra.



A autora, Marguerite Yourcenar, de seu nome Marguerite Cleenewerck de Crayencour (Yourcenar - anagrama de Crayencour), -1903-1987- belga, foi uma escritora francesa e a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras, ocupando a cadeira nº 3, 1980.

Marguerite Yourcenar refere no posfácio, "Carnet de note", à edição inicial, que havia escolhido Adriano como tema para o seu romance em parte porque este tinha vivido numa época intercalar, em que já não se acreditava nos deuses romanos mas em que o Cristianismo ainda não se tinha firmado, o que lhe despertou curiosidade porque ela própria viveu uma época semelhante na Europa do pós-guerra. aqui


Por cá, Memórias de Adriano é recomendado pelo Plano Nacional de Leitura, programa que abrange os anos de 2017 a 2027.

Bom domingo, meus amigos.

Abraços

Olinda

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Imagens: Net

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Procuro o lugar onde começa o silêncio...




Procuro o lugar onde começa o silêncio.


Convoco-me para os lugares da infância, meu paraíso
tão desmoronado, tão precocemente desaparecido.
Um anjo austero apoderou-se de mim enquanto eu
escondia nos bolsos os berlindes coloridos.
Quis nascer de novo. Da mesma mãe. Com o mesmo
pai. Mas num tempo sem infâncias desamparadas,
sem deuses distraídos na cadência das horas lentas...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio da cintilação das sombras pelo chão.
O silêncio onde me esvaeço, na negritude da noite.


...Vem de tão longe, meus filhos. Vem do começo
sagrado dos tempos e do silêncio dos dias ao acaso, 
a grandeza de cada gesto. É preciso ter asas e deixar 
que o fascínio vos conduza até ao infinito, onde a avidez 
da vida inaugure no olhar o prodígio do espanto e a pura 
nascente de todas as sedes. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio transparente do mar, dos barcos ao longe,
da sombra dos mastros, do brilho dos búzios.


Esbarro na sombra, na minha sombra, e alargo os
passos para encurtar a distância entre os barcos e a
ilha mais próxima, onde uso o declive certo do olhar
para deslindar a ausência da água em meus olhos 
secos pela maresia.
Procuro o silêncio desconcertante das madrugadas, 
com a luz ainda baça do orvalho a dissipar-se. 
...

Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das sementes, da melancolia das árvores,
do restolho do trigo, do afago da terra.


No impulso da manhã, o nevoeiro esfarrapa-se sobre
os arbustos, incerto e sem peso. É o momento em que 
o olhar não tolera a luz que incide sobre branquíssimas
açucenas. Digo pétala, e o perfume de cada flor
estremece no olfacto como um sismo brando, com
réplicas no chão flexível que me prende e torna
urgentes os caminhos repetidamente pisados. ...





Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O imenso silêncio dentro de mim, na ansiedade das
palavras distantes, quando, sem aviso, ele se afunda
no meu peito insensatamente,  ...


Nas pontas dos dedos, uma insubmissa escrita teima 
na promessa de um poema com sílabas luminosas.
Escrevo silenciosos vocábulos, agora que a poesia se
detém no fingimento de entrelinhas, soletrando 
a febre nos lábios. Podem dizer de mim que nunca me
cansei das palavras porque foi com elas que me
aprendi inteira.
Regressa a mim, poesia!...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio das montanhas azuis, da neve, das 
planícies eternas, das glicínias, do vinho maduro, da 
música de schubert, do coração dos pássaros
da fulguração da alba, ...


...O coração não cabe nas palavras quando a dádiva e o 
fascínio se confundem.
Distancio-me de mim. Um breve lume acende na lembrança
o prodígio da luz de maio.
E deixo que a emoção encontre a ânfora onde guardei o 
mel com que aclarei os gritos abafados no recato da noite.
Sinto ainda o cheiro do leite quente guardado em 
meus seios para delírio precoce da boca que sugou
a minha sede. ...




Procuro o lugar onde começa o silêncio
O profundo silêncio de deus. O celestial silêncio dos
anjos.

...
Em minha garganta dilato os gritos sangrantes que 
antígona não gritou para que ressoem em todos os 
templos, em todos os palácios, em todos os mares,
em todas as praias, em todas as planícies, em todas
as montanhas, em todos os desertos, em todas as
casas. Na cegueira de uma febre maldita e benigna.
No amor sem perdão dos homens e dos deuses. ...


Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O silêncio definitivo da morte.
...

Procuro definir o eixo doloroso do espaço seguido
por antígona, feminina e livre, até à transgressão mais
tangível de um mundo nocturno.
Ela não chorou. Não dramatizou o lamento. Não
implorou aos deuses qualquer auxílio. Ela ficou
isolada, agarrada à compaixão sentida, em total
solidão. Lançada na treva, levou nos cabelos a
grinalda de uma morte ausente da morte: antinomia
alucinante, a antecipar a perda do paraíso. ...
 


Procuro o lugar onde começa o silêncio.





ANTÍGONA PASSOU POR AQUI numa pequena mostra das profundas palavras de GRAÇA PIRES. 

Assistimos a uma sentida homenagem, em prosa poética, a mais uma figura feminina, desta feita mitológica, Antígona, que atravessa os tempos e, nas devidas proporções, traz o seu rasto trágico até aos dias de hoje. 

Em Isadora, a autora entra-lhe na pele e transmite-nos as suas dúvidas, as  tristezas, a incompreensão dos contemporâneos perante a interpretação da arte que lhe preenchia a vida. Com Antígona embrenha-se no mundo antigo lê-lhe os pensamentos e os mitos, a sua forma de estar e de actuar, trazendo-o assim para o presente.

Sentimo-nos envolvidos, como que fazendo parte dessa travessia que nos atinge o âmago, num caminho de pedras percorrido com a garganta apertada de emoção. 

Busca de um silêncio que abafe a dor, mas que também faz ansiar pelo doce encanto da infância, não desamparada, a magia do aleitamento materno e a grandeza de cada gesto desde o começo dos tempos:

Obrigada, querida Graça, por nos proporcionar a oportunidade de penetrar nessa sua esfera em que a cultura e o talento andam de mãos dadas. 


Abraços
Olinda


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Neste texto, por cores :

1) Em roxo: desideratum que separa cada grupo de textos, no livro.
2) Em cinzento: Excertos de alguns dos textos que compõem a obra

(Das páginas: 11, 18, 26, 36, 37, 42, 45, 48, 51, 56, 60, 62, 66, 72, 73, 77, 81)

3) Considerações minhas - Palavras em preto.


Referência a "Isadora", Livro de Poesia - "Jogo sensual no chão do peito" - Graça Pires

Imagens: pixabay

sábado, 25 de abril de 2020

Pequena história - sem Abril

Muitas foram as conquistas que a Revolução de Abril de 1974 proporcionou à Mulher. Aliás, sem direitos quase nenhuns, estava-lhe reservado o papel de dona de casa e pouco mais. Completamente submetida ao marido, carecendo da sua autorização para se movimentar, para trabalhar, para viajar, para tomar posse dos seus bens, em caso disso, para respirar quase... 





Deixo-vos aqui uma pequena história, real, que me foi contada por pessoa amiga. Sem pormenores ou atavios:

Maria era a mais velha de nove irmãos. Em casa, o braço direito da mãe. Por morte do pai ela teve direito a herança de alguma monta. Aos 18 anos casou. Nunca foi herdeira de coisa nenhuma. O marido intitulava-se e intitulou-se toda a vida como herdeiro de Timóteo Henriques,* gerindo e vendendo as terras como lhe aprazia. Toda a vida calada, aos oitenta e seis anos desatou-se-lhe o subconsciente e entre o alzheimer e momentos de consciência dizia: este homem roubou-me as minhas terras. Faleceu em 2003. 
Para ela Abril nunca se cumpriu.





Casos que se desenrolam no tempo e que cerceiam à Mulher a liberdade de decidir da própria vida. Nem haverá lugar a perplexidades porque sabemos muito bem que a mentalidade não muda por decreto. 

No entanto
Sei do esplendor das coisas possíveis
E da decantação das horas.
E que o perfume das madrugadas
Se alimenta desta espera.
E desta teimosia.

E deste húmus.





Desejo-vos um Dia vivido em pleno! 

Que o 25 de Abril se manifeste em cada um dos nossos actos.

Abraços.






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Excerto do Poema, MÍTICAS AURORAS - 25 de Abril, Sempre!, de Manuel Veiga, no seu blog - Perdoe-me o Autor a ousadia - Obrigada

Leiam, se lhes interessar, para reavivar a memória - aqui (Dossier)
Imagem: daqui

* Nome fictício

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Aparição




2019 - um ano que nos trouxe mais uma vez o espectáculo público, mesmo que ocorrido nos lares, de mulheres maltratadas e mortas, numa sanha quase incompreensível. Não refiro aqui o número das que pereceram, porquanto uma que fosse já representaria uma tragédia.

Encontrei este poema de Edmundo Bettencourt, "Aparição". 

Que nos sirva de algum refrigério essas palavras, mas com a consciência de que a mulher é um ser humano com as suas qualidades e defeitos e não há que divinizá-la mas tão-só olhar para ela e reconhecer-lhe o lugar a que tem direito. E à Mulher compete reivindicar esse lugar para si, sem perder as suas próprias características.

Aparição

A mulher que por mim passou na rua, há pouco,
foi uma coisa diáfana, gentil,
cedo, a pairar
na sombra dum jardim
com flores, em baixo, ajoelhadas,
ao senti-la na altura,
e mandando-lhe o aroma em lágrimas, desfeito,
para mantê-la em uma nuvem branca...

Mulher, coisa diáfana, vaga e bela, sem desenho,
logo fluido animando o colo duma nuvem, nuvem,
num ápice, trucidada pelo vento!

in 'Rede Invisível'

Edmundo Bettencourt (Funchal, 1899 — Lisboa, 1973) foi um cantor e poeta Português notavelmente conhecido por interpretar a Canção de Coimbra e pelo seu papel determinante na introdução de temas populares neste género musical. Notabilizou-se pela composição musical "Saudades de Coimbra" a qual é ainda hoje uma referência da música portuguesa universitária ...daqui




Desejo-vos, meus amigos, uma boa passagem de ano e que 2020 nos traga mais tolerância e compreensão em relação aos nossos semelhantes.

Abraços.




BOAS FESTAS

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Poema: Citador 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Dura realidade

Depois dos dias da Quinzena do Amor, maratona em que se privilegiaram palavras de preocupação para com os outros e de lamentos quando se trata daquele estado amoroso em que o ser amado é o centro do mundo, voltemos à dura realidade.

A dura realidade por estes dias é aquilo que tem vindo a acontecer praticamente desde o princípio dos tempos: Violência sobre as mulheres. Violência que toma muitas e variadas formas, como sabemos. Desde a violência psicológica aos maus-tratos e à morte. E a coisa neste princípio de 2019 tem tomado foros de loucura, como em relação aos incêndios/pirómanos: quanto mais se fala de incêndios mais incêndios acontecem num crescendo impressionante.

Temos reflectido, amiúde, sobre este doloroso problema neste pequeno espaço e temos consciência de que este nosso brado não chegará a lado nenhum mas, também, que não podemos morar no silêncio como se um determinismo qualquer nos empurrasse para um precipício sem fim. Como se fosse um destino imparável. Como se a nossa Sociedade não pudesse produzir leis e aplicá-las com rigor, prevenindo e castigando os infractores.

De nada vale repetir o que tenho ouvido, "em pleno século vinte e um e isto ainda acontece", porque sabemos perfeitamente que acontece e que não terminará se cada um de nós não mudar a própria mentalidade. As leis não mudam as mentalidades. É dentro da nossa cabeça que essa mudança se produzirá, se assim o quisermos.

Abraço.

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Alguns dos posts sobre o tema "Mulher":

quinta-feira, 14 de junho de 2018

A Mulher mais bonita do Mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram flores novas na terra do jardim, quero dizer que estás bonita. 



entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 


entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 

estás tão bonita hoje. 

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza.

 
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 

de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 

José Luís Peixoto, 
in "A Casa, a Escuridão"

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Meus amigos:

Vou ausentar-me por uns dias. Vou à terra da minha mãe que também é a minha. Dedico-lhe estas palavras de José Luís Peixoto, com a devida adaptação a esta minha intenção.

Fiquem bem.

Abraço. 


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Poema: Citador
Imagem: Pixabay 

quinta-feira, 8 de março de 2018

Percepções





Viu o castelo desmoronar-se à sua frente. Ouviu e sentiu tremer as fundações. O estrondo foi imenso restando apenas pó e pedras sobre pedras. Estas, ganhando vida gemiam desorientadas e procuravam maneira de se porem de pé. Com dificuldade, atarantadas ainda pelo baque, foram galgando a pulso e desafiando a gravidade. Com esforço, inventaram o barro necessário para se fixarem umas em cima das outras, desalinhadas embora. Faltava o fio de prumo. Ou já não se usa?-perguntaram-se. Talvez um nível laser, mas difícil ou talvez impossível arranjar um, assim do pé para a mão. Sentiu que aquilo lhe dizia respeito. Não podia deixar as coisas ao acaso. Tinha de fazer algo, tinha de se decidir. Estava na hora de resolver e afugentar tal fardo. Aquele edifício rombo, à mercê de intempéries, ao sabor do que viesse, atingia-a sobremaneira. Reunindo as últimas forças, chamou a si a sua própria verticalidade. Do fundo do seu ser, faria surgir energia suficiente para se reconstruir a si mesma e ao seu mundo. 
Desafiou-se: 
Basta de incertezas e dependências. Agora é o momento. 
Agora é o presente e o futuro. 
E sorriu, confiante.

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O dia cobre-se de pássaros
que sobrevoam quotidianas ficções.
No meu país, as mulheres têm a cor
da sede nos seus olhos, ávidos de milagres.
É por isso que as mãos lhes estremecem de prazer.


GRAÇA PIRES


Um belo poema que a Querida Graça me trouxe hoje.

Muito obrigada

Bj
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Do blogue: Um Farol chamado Amizade



Dia da Mulher 2018


M adre, hija, hermana eres todo en la vida...
U nica como ninguna!
J oya entre las joyas más preciosa!
E norme eres por todo lo que haces por amor.
R eaccionas siempre por lo mejor contra las injusticias.



M ulher, filha, mãe, és tudo na vida...
U nica como nenhuma!
L uz entre as luzes mais brilhantes!
H armoniosa!
E norme és por tudo o que fazes por amor.

R eagindo sempre da melhor forma contra as injustiças da vida.



Obrigada, Tétis, Poseidón e Argos.

Abraços

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Imagem: daqui