Ela andava com o filho por todo o lado, fazendo ele parte do seu corpo mesmo depois de nascido. Punha-o às costas, amarrava-o à cintura, desafiava precipícios agarrando-o pelos bracitos.
Fruto de (quem sabe?), sedução ou violação por parte do senhor da terra, que, talvez, tivesse mais filhos que terras. Homem tido como portador de valores, fino, de bom trato, discípulo de padres, autoridade máxima da terra, casado. Os filhos, não reconhecidos, povoavam a sua casa, tratavam-no por tio.
A mulher legítima, teve dois filhos e soçobrava sob o peso dessa população. O quarto, a solidão seria a sua melhor companheira. Talvez sofresse de depressão crónica, doença não diagnosticada na época.
Ela, a louca, viu-se sem o filho antes de lhe acontecer alguma desgraça. Foi-lhe retirado pela família do pai da criança. Conheci este filho de ninguém. Chamava-se Júlio. Meu tio.
Vítimas do tempo, da época, das contingências morais e sociais, que obrigavam a mulher a atitudes que se assemelhavam, muitas vezes, a patologia incurável ou à loucura.
===
Pintura: Almada Negreiros