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quinta-feira, 30 de março de 2023

Querer estar preso por vontade...





AMOR É FOGO...

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor







Neste mês de todas as manifestações poéticas, a que vem associado ainda o mês de Fevereiro, não podia faltar o nosso grande Camões.

Este maravilhoso Soneto foi trazido por Maria Rodrigues, 
no âmbito da sua participação aqui.

Abraços
Olinda



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Imagens: Net

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Camões e Álvaro de Campos - sob o olhar de um Poeta dos nossos dias


Ta muda tenpus, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa
Ta toma senpri nobus kolidadi.

Sen nunka para nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa
I di ben, si izisti algun, ta fica sodadi.

Tenpu ta poi berdi na txon dja stara,
Ael ki nevi friu kubriba pa tudu kantu.
I, na mi, ta bira txoru kel ki n kantaba

Ku dosura. I, trandu es muda sen para,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba...



José Luiz Tavares, admiro este seu trabalho, hercúleo, diria. Confesso que ao ler os dois sonetos de Camões e, em especial, a sua Odi Marítmu*, quase que me apetecia bater com a cabeça na parede, pelas dificuldades que senti.

Mas, vi, claramente visto, a imagem sugerida nas suas palavras, expressas em crioulo, e emocionei-me.

E, nesse tudu kais é un sodadi di pedra, Álvaro de Campos, voluntarioso como só ele, que em toda a Ode grita e berra, não poupando em palavras, poderia ser um ilhéu no sentimento que empresta ao que se segue; e com ele, José Luiz Tavares:

Ah, tudu kais é un sodadi di pedra!
I ora ki naviu ta sai di kais
I di rapenti ta odjadu ma abri un spasu
Entri kais ku naviu
Un angústia risenti, n ka sabe pamodi, ta toma na mi,
Un nébua di sentimentus di tristeza
Ki na sol di nhas angústia relvadu ta brilia
Sima purmeru janela undi madrugada ta konko,
I ta envolve-m sima rakordason dotu algen
Ki, misteriozamenti, é propi mi.

Será este o Crioulo, escrito, que desejamos? Não há dúvida que é uma escrita que fia mais fino. Marcadamente de base lexical de Santiago, penso, longe das falas doces de Eugénio Tavares nas suas mornas, Brava, e do pioneirismo de Baltasar Lopes da Silva, que no seu trabalho de grande fôlego, nos explica todos os sons, todas as letras e, praticamente, quase todas as palavras de cada uma das ilhas.

Penso ter adivinhado, na tradução, uma preocupação científica e alguns dos pressupostos do ALUPEC, com dígrafos que sempre me deixaram um pouco perplexa na formação de algumas palavras, como, por exemplo, txon em vez de tchon. Enfim, por algum lado se tem de começar.

Gostaria de ver Manuel Veiga, Alice Matos, Dulce Almada Duarte e muitos outros linguistas, que constituíram o Grupo de Padronização da Língua Cabo-Verdiana, outra vez em campo, se é que não estão já. A legislação produzida em 1998 e 2005 sobre o assunto terá tido seguimento? Ao fim e ao cabo, a decisão terá de ser política, se levarmos em linha de conta a alegada glotofagia de uns crioulos em relação a outros. 

Ou, no final, a palavra será dada, exclusivamente, aos linguistas?



NHA TESTAMENTO
ILDO LOBO: numa das suas mornas mais belas. Que saudades!

Em tempo:

Com a indicação, abaixo, do D.L. 7/2009, de 17 de Março, parece fechado o assunto. Transcrevo a seguinte passagem:

1. O Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana (ALUPEC), aprovado, em regime experimental, pelo Decreto-Lei nº 67/98, de 31 de Dezembro, é instituído como Alfabeto Cabo-verdiano.

Assim sendo, por que razão cada um continua a escrever o crioulo à sua moda, muitas vezes  de forma ininteligível?

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Fontes referenciadas:

-*Odi Marítmu - pa Santa Rita Pintor-Tradução de José Luiz Tavares para crioulo de excertos da "Ode Marítima, de Álvaro de Campos, e de dois sonetos de Camões. Ler - inverno 2017/2018

-O Dialecto Crioulo de Cabo Verde (1958) - Baltasar Lopes da Silva

-ALUPEC - Alfabeto Unificado para a
Escrita do Cabo-Verdiano

-Decreto-Lei 67/98, de 31 de Dezembro - aqui
Resolução nº 48/2005, de 14 de Novembro - aqui

-Decreto-Lei nº 7/2009, de 16 de Março - aqui
Traça o historial do crioulo cabo-verdiano, enaltece o uso do Alupec em escolas e por várias entidades e, entre outros considerandos:
1. Que o ALUPEC é um instrumento útil e funcional para a escrita na língua cabo-verdiana;
2. Que se deve criar incentivos para a escrita do ALUPEC;
3. Que se deve criar um Instituto Autónomo ou uma Academia para se ocupar da problemática da língua cabo-verdiana. (...)

domingo, 21 de maio de 2017

A Lusitânia e os lusitanos

Diz-nos Estrabão que a Lusitânia era a maior das nações ibéricas e que os seus rios continham poalha de ouro. Sabemos que desta, outrora, próspera terra faz parte o nosso território e a estremadura espanhola. Dos lusitanos ou hispânicos ele e Trogo Pompeu contam que eram povo aguerrido com o corpo preparado para a abstinência e fadiga e ânimo para a morte... e que faziam sacrifícios aos deuses assim a modos que arrepiantes, bem ao modo da época. Destes heróis sobressai o mítico Viriato que é abatido por três dos seus oficiais comprados por Roma.



Camões ao cantar o peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram, convocando os deuses do Olimpo e tendo como pano de fundo a nossa epopeia marítima leva-nos a acreditar que os lusos, se é que existem ou existiram, são capazes de grandes feitos acima da sua condição humana. Por isso mesmo, temos na nossa História ecos de heroísmos que nos consolam e nos levam a acreditar que, por mais desolador que seja o nosso presente, há-de aparecer quem nos livrará desta apagada e vil tristeza.



D. Sebastião, o Desejado, foi para Alcácer-Quibir numa de teimosia ou por mau aconselhamento e lá ficou, enterrando consigo a nata da sociedade portuguesa. Mas sempre subsistiu em nós a crença de que ele viria um dia, numa manhã de nevoeiro, para resolver os nossos problemas. 

E não é que o nosso salvador, na sua auréola trágico-romântica, surge agora trazendo-nos esperanças nunca dantes apercebidas? Salvador de nome, de jure e de facto. Bem podem falar mal dele dizendo que foi golpe de marketing e coisas do género que não nos aquece nem arrefece. Cá por mim, podemos amar por todos e a todos. Eles que aprendam também a amar assim.

E mais. Doravante:

Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta.


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Imagens - Viriato e D.Sebastião, Rei de Portugal: Net
Em itálico: frases e expressões conhecidas da nossa literatura,
nomeadamente, d' "Os Lusíadas".
Ver aqui a Lusitânia de Estrabão. 

domingo, 12 de junho de 2016

O "Anjo Custódio do Reino"



Afonso Henriques terá tido a visão do Anjo, São Miguel Arcanjo, na Batalha de Ourique, dando-lhe forças para vencer cinco reis mouros. E, como sabemos, depois disso optara pela autoproclamação como Rei de Portugal. D. Manuel I, que tinha razões mais do que suficientes para dar graças ao Altíssimo pelo sucesso das descobertas, fizera as suas diligências para a instituição da festa do "Anjo Custódio do Reino", tendo Leão X autorizado a sua realização no terceiro domingo de Julho.

Consta que esta devoção terá, quase, desaparecido depois do Sec. XVII, surgindo em 1952 no calendário litúrgico português para a comemoração do Dia de Portugal, no dia 10 de Junho, data da morte de Luís Vaz de Camões.

Mas, também, ele aparece aos pastorinhos de Fátima, segundo as Memórias de Lúcia, convidando-os à oração e afirmando ser o Anjo de Portugal.


Interessante a força das lendas e dos mitos na crença popular, criando heróis e protectores que dão voz aos nossos anseios e aparecem nos momentos críticos. Qual será a representação actual desse Anjo? A par dessa força espiritual existe outra, a da unidade nacional que os republicanos, nomeadamente, através de Teófilo Braga, souberam ver em Camões quando em 1880 é proposta a comemoração do tricentenário da sua morte. 

De lá para cá, outras ideologias foram se apropriando dessa ideia, sendo de referir a do Estado Novo que lhe deu este nome: Dia da Raça. Nestes tempos da democracia conquistada em Abril de 1974, a festa do dia 10 de Junho intitula-se, desde 1978, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Tanto, num só dia! Mas, tudo bem, tudo isso, e muito mais, é Portugal. Logo, poderíamos concluir que 10 de Junho é, tão-só, Dia de Portugal. 


Os portugueses que vivem no estrangeiro são tão portugueses como os que vivem em Portugal, e se for eleito Presidente quero comemorar um 10 de Junho junto deles, no estrangeiro, para lhes prestar uma merecida homenagem”, disse Marcelo Rebelo de Sousa ao Expresso a 28 de novembro de 2015

Então, sendo 10 de Junho também dia do Anjo, onde ficaram os festejos destinados à sua figura de "Anjo Custódio do Reino"? Tudo bem, não estamos na Idade Média em que o sagrado e o profano andavam de mãos dadas: à présent, somos um Estado laico, com a devida separação dos poderes temporal e espiritual, ou seja, cada festividade no seu lugar. 

Mas, o povo é que sabe destas coisas. Não tarda nada e começaremos a ver uma versão actualizada desse Anjo no nosso horizonte, imaginário ou não, qui nous prend sous ses ailes.

E bem precisados que estamos.

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Algumas Referências: aqui, aqui,aqui
Última imagem e citação:aqui
Vide: III Centenário da morte
de Camões (1880)