Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro de Campos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Álvaro de Campos. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

LISBON REVISITED (1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflecte!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


Álvaro de Campos





Lisbon Revisited (1923)
Por Antônio Abujamra
Álvaro de Campos (1890-1935) igual a si próprio. 

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Contudo, dá-me parecenças com José Régio (1901-1969), com o seu "Cântico Negro":
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

Ambos rebeldes na sua forma de escrever e de ver o mundo. 
Fernando Pessoa tinha uma vida interior rica e complexa, como o demonstram os seus vários heterónimos.


Abraços e boa semana, amigos.
Olinda


====
1923

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 247.

1ª publ. in Contemporânea, nº 8. Lisboa: 1923.


Arquivo Pessoa: Obra Édita - LISBON REVISITED (1923) -

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Os emigrados ... e os imigrantes

 


119 (c.1932)


Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram -
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?

E o propósito que uma vez formei num hotel, planeado e ligado?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.

ÁLVARO DE CAMPOS

***


Portugal país de emigrantes, ouve-se dizer. Com efeito, desde há séculos as descobertas pelo mundo mais não eram do que vontade de mudar de vida e de encontrar condições de sobrevivência. Primeiro os nobres que só alcançavam benesses e títulos através de batalhas e de conquistas. Depois os capitães dos barcos, os marinheiros, os ajudantes de marinheiros, aqueles que eram procurados pela justiça, os jovens carregados nessas viagens para fazer toda a espécie de serviços e outros que fugiam para longe à procura de liberdade.

Temos notícias de emigrantes para o Brasil e outras terras como a França, neste caso, emigração clandestina denominada "a salto", pessoas que preferiam ir para o desconhecido, sair das suas aldeias, viver em bairros de lata, passar mal lá longe, para depois regressarem tomando o nome das terras onde deixavam o suor e as lágrimas. Quando começou a colonização das terras de África, muitos eram enviados para lá com algumas promessas, outros degredados para cumprirem pena.

É preciso dizer mais?

Sim, temos a outra face da moeda que é a imigração. Pessoas que têm demandado a Europa procurando meios de subsistência ou para fugir de guerras e perseguições. O corredor utilizado, normalmente, tem sido o Mediterrâneo, o Mare Nostrum, e sabemos bem das tragédias que têm acompanhado esses migrantes. Portugal parece ser uma das portas de entrada dessa migração. Ainda agora desembarcaram alguns no Algarve, que foram apanhados e levados para um centro até o dia do seu repatriamento. Fico a pensar como seria se, nas mesmas circunstâncias, algum de nós fosse repatriado tendo que arrostar com tudo o que iria encontrar quando chegasse à terra de onde fugira. 

A Lei de Imigração nº. 9/2025, de 13/02, vem alterar a Lei 23/2007, de 04/07, com sanções para os cidadãos estrangeiros que entrem ilegalmente no país. Ainda que reconheça que deve haver regras, há que fazer uma análise humanista da situação. Tem-se ouvido bastante a questão do reagrupamento familiar que, parece, não está bem acautelada. 

Que os legisladores vistam a pele dos desapossados da sorte.



===

Poema In: Fernando Pessoa
Obra completa de Álvaro de Campos
Pg. 298

Imagem: pixabay

Ver - 
Os livros que fazem a História da Emigração.
Uma análise muito interessante.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Álvaro de Campos e a "necessidade de sentir tudo exageradamente"


Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstracto auge no fim de mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!
Ponham-me grilhetas só para eu as partir!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, v. 30-37)






Noutros poemas, também notamos esta necessidade extrema de sentir tudo exageradamente e, assim, alcançar uma comunhão com o universo, textos claramente sensacionistas, portanto:

No poema Passagem das Horas:

Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.

(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas b”, v. 3-5)




O Álvaro de Campos é o Pessoa que Pessoa gostaria de ter sido. Uma espécie de Alice do outro lado do espelho que ele inventou para reciclar tudo o que era mau, regurgitado como qualquer coisa de belo. aqui


====
imagem: daqui
Poemas in:
Fernando Pessoa
Obra completa de Álvaro de Campos
edição de Jerónimo Pizarro e Antonio Cardiello





segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Às vezes medito

 


49 29-4-1928


Às vezes medito,

Às vezes medito, e medito mais fundo, e ainda mais fundo

E todo o mistério das coisas aparece-me com um óleo à

     superfície,

E todo o universo é um mar de caras de olhos abertos para

     mim.

Cada coisa - um candeeiro da esquina, uma pedra, uma árvore,

É um olho que me fita de um abismo incompreensível,

E desfilam no meu coração os deuses todos, e as ideias dos

     deuses.

(excerto)


ÁLVARO DE CAMPOS



===

In: Fernando Pessoa

Obra completa de Álvaro de Campos

Pg. 225

terça-feira, 24 de outubro de 2023

"NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA"

Tantos bons poetas!

Tantos bons poemas!

São realmente bons e bons,

Com tanta concorrência não fica ninguém,

Ou ficam ao acaso, uma loteria da posteridade,

Obtendo lugares por capricho do Empresário...

Tantos bons poetas!

Para que escrevo eu versos?

Quando os escrevo parece-me

O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -

A única coisa grande no mundo...

Enche o universo de frio e pavor de mim.

Depois, escritos, visíveis, legíveis...

Ora...E nesta antologia de poetas menores?

Tantos bons poetas!

O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue

O génio da habilidade, e os bons poetas dos maus poetas?

Sei lá se realmente se distinguem...

O melhor é dormir...

Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -

Sou vulgar?

Há tantos bons poetas!

Santo Deus!...


ÁLVARO DE CAMPOS

           50  1-5-1928 *

                 pags 226/227




Pintura de Almada Negreiros (1946)


...A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

in: Carta a Adolfo Casais Monteiro-13 Jan 1935

aqui



====

*Fernando Pessoa

Obra completa de Álvaro Campos

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Não há abismos...





18 (c.1917)


Não há abismos!

Nada é sinistro!

Não há mistério verdadeiro!

Não há mistério ou verdade!

Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!

Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!

Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!

Alegre cantaste a alegria de tudo,

Mas sem pensá-lo tu sentias

Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.

Como cantaras alegre a morte futura

 

Se a puderas pensar como morte,

Se deveras sentiras a noite e o acabamento?

Não, não: tu sabias

Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,

Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo

Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,

Que cada momento não passa nunca,

Que a flor colhida fica sempre na haste,

Que o beijo dado é eterno,

Que na essência e universo das coisas

Tudo é alegria e sol

E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.

Embandeira em canto e rosas!

 

E da estação de província, do apeadeiro campestre,

— Lá vem o comboio!

Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos

Saudemos em ouro e flores a morte que chega!

 

Não, não enganas!

Avó carinhosa de terra já grávida!

Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!

 

E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...

E com grande explosão de todas as minhas esperanças

Meu coração universo

Inclui a ouro todos os sóis,

Borda-se a prata todas as estrelas,

Entumece-se em flores e verduras,

E a morte que chega conclui que a já conhecem

E no seu rosto grave desabrocha

O sorriso humano de Deus! 


Álvaro de Campos





Onde Vais?


Bárbara Bandeira

feat.

Carminho



Boa semana, amigos.

Abraços

Olinda




=====

Fernando Pessoa -  Obra completa de Álvaro de Campos

pgs. 180/181



quarta-feira, 10 de junho de 2020

Depus a máscara e vi-me ao espelho

Interessantes os tempos que correm e a forma como aceitamos coisas que dantes nos incomodavam. Quem usasse uma máscara antes da pandemia era objecto de discriminação, de olhares desconfiados, de medo de aproximação. Interpunha-se entre nós e o portador da máscara uma distância nunca considerada suficiente. 

Agora o que nos diferencia é a consistência da máscara, a qualidade da máscara, o pendant que faz com a roupa que trazemos, a cor lisa ou estampada, o corte e o porte. E o olhar reprovador que lançamos a quem não se apresente com qualquer tira de pano, de preferência vistoso, que tape a boca e o nariz. 

A moda já aí está. O espelho devolve-nos um ar composto e confiante. Álvaro de Campos antecipou-se:

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.


Também o mito aí está.
Sem máscara ficamos nus. Mostramos fraquezas e fragilidades.
Resultado: transformamo-nos na máscara, somos a máscara, como diz o poeta.

Já não será preciso esconder o sorriso amarelo perante situações embaraçosas, nem mandar pôr o dente da frente que nos falta. Até numa entrevista de emprego poderemos negar-nos a tirar a máscara a bem da saúde própria e pública, escondendo assim as nossas misérias. E será considerada postura digna de grandes encómios.

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Sempre considerei este dia sobrecarregado em termos de comemorações e de mitos. 

Na verdade, vivemos de mitos que nos sustêm, algo construído em dado momento, tendo em vista necessidades políticas concretas e que se estende no tempo como 
esteio que nos dá segurança e sentido patriótico.
Criam o elo necessário entre 
os cidadãos e a História pátria... 
Assim,
 A cada tempo a sua máscara.



=====
18-8-1934
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 61.
aqui

segunda-feira, 27 de abril de 2020

AH, UM SONETO...





Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear a passear...

No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava... e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?...


Álvaro de Campos






Interessante este olhar de Álvaro de Campos sobre os heterónimos de Fernando Pessoa, também ele heterónimo, como sabemos. Aliás, na obra que cito abaixo faz-lhes muitas referências, páginas, em especial ao Mestre Caeiro:


Eu (Álvaro de Campos) sou exasperadamente sensível e exasperadamente inteligente. Nisto pareço-me (salvo um bocado mais de sensibilidade, e um bocado menos de inteligência) com o Fernando Pessoa; mas ao passo que no Fernando a sensibilidade e a inteligência interpenetram-se, confundem-se, interseccionam-se, em mim existem paralelamente, ou, melhor, sobrepostamente. Não são cônjuges, são gémeos desavindos. Assim espontaneamente formei a minha filosofia daquela parte da insinuação de Caeiro de que Ricardo Reis não tirou nada (...) contida naquele verso, "E os meus pensamentos são todos sensações"; o Ricardo Reis deriva a sua alma daquele outro verso que Caeiro se esqueceu de escrever "As minhas sensações são todas pensamentos" (...)

In: Obra completa de Álvaro de Campos pg 18


======
Arquivo Pessoa - Obra Édita - aqui

Peinture: Virginia Bénédicto
Ses thématiques de prédilection sont la pomme et l’amour à travers lesquels elle veut tout simplement offrir une vision optimiste de la vie. Un regard frais et pétillant qui vous invite à venir croquer avec gourmandise toutes ses créations originales. aqui

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

"Tout est bien" ?

Está demonstrado, dizia ele, que as coisas não podem ser de outra maneira: pois, como tudo foi feito para um fim, tudo está necessariamente destinado ao melhor fim. Queiram notar que os narizes foram feitos para usar óculos, e por isso nós temos óculos. As pernas foram visivelmente instituídas para as calças, e por isso temos calças. As pedras foram feitas para serem talhadas e edificar castelos, e por isso Monsenhor tem um lindo castelo; o mais considerável barão da província deve ser o mais bem alojado; e, como os porcos foram feitos para serem comidos, nós comemos porco o ano inteiro: por conseguinte, aqueles que asseveravam que tudo está bem disseram uma tolice; deviam era dizer que tudo está o melhor possível.

Assim falava Mestre Pangloss, o maior filósofo da província, e por conseguinte de toda a terra, na sua demonstração de que não há causa sem efeito e que tudo está encadeado e que há uma razão suficiente para todos os acontecimentos.

Mas polémicas filosóficas à parte, hoje o Xaile de Seda quer rosas, meus amigos. Rosas e lírios, mais exactamente, ou mesmo quaisquer flores. E verão o porquê deste desejo, mais abaixo.



Para já, apresento-vos o outro Poema, versando o tema Rosas e Lírios, também atribuído a Álvaro de Campos, de que vos falei num post de há dias:
Dai-
Dai-me Rosas e Lírios

Dai-me flores, muitas flores
Quaisquer flores, logo que sejam muitas...
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas

Em me dardes muitas flores,
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço
Que me deis flores...
Sejam essas as flores que me deis...

Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
Sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança

Com a cabeça encostada aos braços cruzados em cima da mesa,
E a vida sentida como uma brisa que me roçasse o pescoço,
Estando eu a chorar naquela posição.

O homem que apara o lápis à janela do escritório
Chama pela minha atenção com as mãos do seu gesto banal.
Haver lápis e aparar lápis e gente que os apara à janela, é tão estranho!
É tão fantástico que estas coisas sejam reais!
Olho para ele até esquecer o sol e o céu.
E a realidade do mundo faz-me dor de cabeça.

A flor caída no chão.
A flor murcha (rosa branca amarelecendo)
Caída no chão...
Qual é o sentido da vida?





E tudo isto porque o dito Xaile completa nove aninhos. Não é razão para festejos mas, pronto, gosto de assinalar a data. Quanto mais não seja para eu própria proceder a uma reflexão sobre a utilidade ou não da sua existência.




Grande abraço a todos os que me visitam.

Boa quarta-feira.


=====

-O título do post retirado de: aqui
  Texto de Rousseau
-Excerto - Candide ou l'optimisme
                   Voltaire
====

Poema - daqui
s. d.
Novas Poesias Inéditas. Fernando Pessoa. (Direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Marques Sabino e Adelaide Maria Monteiro Sereno.) Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).
  - 150.Álvaro de Campos?

Imagem: pixabay

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

23. ESPERANÇA

            I
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


II
Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
17-6-1929

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Esta
mpa, 1993. - 106

===

Este poema, lindíssimo, "Dá-me lírios, lírios/E rosas também", foi-me indicado por pessoa amiga. E fui à procura dele. Mas, surpresa das surpresas para mim, tem uma segunda parte, que também transcrevo, numa toada completamente diferente mas não menos belo. (Um dia hei-de folhear o livro onde se encontra inserido).

E assim, sem mais, termina com "Boa noite na Austrália!". Ou teria alguma razão de ser no momento em que o poeta escrevera o poema?

Na actualidade, na Austrália pessoas e animais atravessam momentos aflitivos, martirizados por incêndios sem fim à vista. E a terra privada do seu húmus, secada até às entranhas. 

Se a esperança é a ultima a morrer...parece que já não restará muito mais. 


Boa segunda-feira, meus amigos


Abraços.





Versão da bela canção de Roberto de Carlos, por
Raquel Tavares, fadista, que decidiu interromper ou pôr fim à sua carreira musical.
Desejo que ela encontre o caminho que deseja percorrer e por que tanto anseia


=====

O título do post - 23.Esperança - Tal como aparece na fonte
Subtítulo - POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA - daqui

O interessante é que há outro poema, provavelmente também de
Álvaro de Campos, com este título: DAI-ME ROSAS e LÍRIOS,
Noutra ocasião, trá-lo-ei aqui para o Xaile..
Imagem - pixabay

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Camões e Álvaro de Campos - sob o olhar de um Poeta dos nossos dias


Ta muda tenpus, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa
Ta toma senpri nobus kolidadi.

Sen nunka para nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa
I di ben, si izisti algun, ta fica sodadi.

Tenpu ta poi berdi na txon dja stara,
Ael ki nevi friu kubriba pa tudu kantu.
I, na mi, ta bira txoru kel ki n kantaba

Ku dosura. I, trandu es muda sen para,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba...



José Luiz Tavares, admiro este seu trabalho, hercúleo, diria. Confesso que ao ler os dois sonetos de Camões e, em especial, a sua Odi Marítmu*, quase que me apetecia bater com a cabeça na parede, pelas dificuldades que senti.

Mas, vi, claramente visto, a imagem sugerida nas suas palavras, expressas em crioulo, e emocionei-me.

E, nesse tudu kais é un sodadi di pedra, Álvaro de Campos, voluntarioso como só ele, que em toda a Ode grita e berra, não poupando em palavras, poderia ser um ilhéu no sentimento que empresta ao que se segue; e com ele, José Luiz Tavares:

Ah, tudu kais é un sodadi di pedra!
I ora ki naviu ta sai di kais
I di rapenti ta odjadu ma abri un spasu
Entri kais ku naviu
Un angústia risenti, n ka sabe pamodi, ta toma na mi,
Un nébua di sentimentus di tristeza
Ki na sol di nhas angústia relvadu ta brilia
Sima purmeru janela undi madrugada ta konko,
I ta envolve-m sima rakordason dotu algen
Ki, misteriozamenti, é propi mi.

Será este o Crioulo, escrito, que desejamos? Não há dúvida que é uma escrita que fia mais fino. Marcadamente de base lexical de Santiago, penso, longe das falas doces de Eugénio Tavares nas suas mornas, Brava, e do pioneirismo de Baltasar Lopes da Silva, que no seu trabalho de grande fôlego, nos explica todos os sons, todas as letras e, praticamente, quase todas as palavras de cada uma das ilhas.

Penso ter adivinhado, na tradução, uma preocupação científica e alguns dos pressupostos do ALUPEC, com dígrafos que sempre me deixaram um pouco perplexa na formação de algumas palavras, como, por exemplo, txon em vez de tchon. Enfim, por algum lado se tem de começar.

Gostaria de ver Manuel Veiga, Alice Matos, Dulce Almada Duarte e muitos outros linguistas, que constituíram o Grupo de Padronização da Língua Cabo-Verdiana, outra vez em campo, se é que não estão já. A legislação produzida em 1998 e 2005 sobre o assunto terá tido seguimento? Ao fim e ao cabo, a decisão terá de ser política, se levarmos em linha de conta a alegada glotofagia de uns crioulos em relação a outros. 

Ou, no final, a palavra será dada, exclusivamente, aos linguistas?



NHA TESTAMENTO
ILDO LOBO: numa das suas mornas mais belas. Que saudades!

Em tempo:

Com a indicação, abaixo, do D.L. 7/2009, de 17 de Março, parece fechado o assunto. Transcrevo a seguinte passagem:

1. O Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana (ALUPEC), aprovado, em regime experimental, pelo Decreto-Lei nº 67/98, de 31 de Dezembro, é instituído como Alfabeto Cabo-verdiano.

Assim sendo, por que razão cada um continua a escrever o crioulo à sua moda, muitas vezes  de forma ininteligível?

====

Fontes referenciadas:

-*Odi Marítmu - pa Santa Rita Pintor-Tradução de José Luiz Tavares para crioulo de excertos da "Ode Marítima, de Álvaro de Campos, e de dois sonetos de Camões. Ler - inverno 2017/2018

-O Dialecto Crioulo de Cabo Verde (1958) - Baltasar Lopes da Silva

-ALUPEC - Alfabeto Unificado para a
Escrita do Cabo-Verdiano

-Decreto-Lei 67/98, de 31 de Dezembro - aqui
Resolução nº 48/2005, de 14 de Novembro - aqui

-Decreto-Lei nº 7/2009, de 16 de Março - aqui
Traça o historial do crioulo cabo-verdiano, enaltece o uso do Alupec em escolas e por várias entidades e, entre outros considerandos:
1. Que o ALUPEC é um instrumento útil e funcional para a escrita na língua cabo-verdiana;
2. Que se deve criar incentivos para a escrita do ALUPEC;
3. Que se deve criar um Instituto Autónomo ou uma Academia para se ocupar da problemática da língua cabo-verdiana. (...)