quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Sul. O Sombreiro

O rei começou a criar cobiça suplementar. Tinha ouro, prata, cobre, vindos das Índias e das Américas. Muitas outras riquezas. Mas queria mais. Insaciável. Como se pudesse engolir os metais e os diamantes e os rubis e as esmeraldas. Uma fome desesperada se apossara da Europa e a Espanha, ingerido Portugal, era a encruzilhada de todos os caminhos brilhantes da riqueza. No meio da encruzilhada estava ele, o trono de Filipe, de ouro e marfim sobre pernas de ébano, refulgindo com diamantes e esmeraldas. Junto ao chão, nas pernas, estava o ébano. Esse até chicote merecia, por ter cor de carvão, e grilhetas nos pés.

Todos os reis se pareciam, este não seria pois indiferente às miragens agitadas à frente dos cornos, como aos toiros o pano vermelho. Cerveira Pereira soube brandir muito bem o cobre, o marfim e os escravos de Benguela para o tourear. E o rei ficou fascinado por esse homem de aspecto ascético, magro e sempre de negro, uma barba afilada já com cãs e voz de flauta sonhando e fazendo sonhar com paraísos desconhecidos, cursos de água torrenciais, levando não só lama mas também brilhantes, florestas maiores e muito mais altas que as da Península Ibérica de árvores de madeira preciosa cheirando a sândalo alfazema manjerico canela e todos os perfumes inventados pelo homem madeiras dignas dos móveis mais magnificentes e das esculturas de fino talhe e climas benignos todo o ano em que não eram necessárias roupas e só por pudor cristão as usavam e a terra tão nutrida que semente aí caída germinava mais depressa e alcançava produções nunca vistas e o mar oh o que dizer do mar onde abundavam peixes do tamanho de baleias mas saborosíssimos mansos de apanhar quase pedindo licença para serem pescados e logo assados que morriam de prazer de ser devorados pelos novos deuses vindos da desgastada Europa sem falar nas pessoas estúpidas ignorantes ingénuas se deixando kanzar com a maior facilidade e incapazes de combater dóceis crianças competentes no entanto de trabalhar em todas as tarefas pesadas sem se queixarem sem se rebelarem aceitando de boa mente o destino que os padres lhes indicavam como sendo o da salvação.

O espanto é o rei, farto de discursos semelhantes, ter acreditado nele e na flauta da sua música.

Sempre há reis incautos.

Em 1612 estava tomada a decisão de enviar Manuel Cerveira Pereira conquistar o território ao sul do Kuanza, explorar o cobre, sem esquecer o melhor produto, o escravo.

Pepetela, in: A Sul. O Sombreiro - pgs 164/165

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Pepetela surpreendeu-me com este livro. Muito diferente de "Yaka" de que apresentei aqui excertos, parafraseando-os. E de outros que já li. É que neste romance histórico ele vai buscar assunto a fontes escritas, adoptando o raciocínio dos personagens, a forma como se movimentam, como lêem o ambiente do seu tempo. 

E para mais aparecem individualidades reais, como Manuel Cerveira Pereira, que fazem por sobreviver, manejando o poder, manipulando para alcançar os seus objectivos. Ouvimos falar de Luanda, do reino de Benguela que urge conquistar, dos jagas, dos reis, dos sobas, dos enviados do Reino, dos conquistadores, dos jesuitas, dos franciscanos, com papéis muito importantes nesse palco onde se desenrola a implantação de Portugal bem como interesses de outros países da Europa. E onde tudo é permitido.

Com poucos recursos e poucos homens. Estamos no século XVII, no tempo dos Filipes. O fito é trazer o que houver, para aumentar o pecúlio dos que governam, desfiando cordelinhos e intrigas.


Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Frequentou o Ensino Superior em Lisboa mas acabou por licenciar-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Iniciou a sua atividade literária e política na Casa dos Estudantes do Império. Como membro do MPLA, participou ativamente na governação de Angola, após o 25 de Abril.
A partir de 1984, foi professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda, e tem sido dirigente de associações culturais, com destaque para a União de Escritores Angolanos e a Associação Cultural Recreativa Chá de Caxinde.
A atribuição do Prémio Camões (1997) confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona. aqui



Tenham um dia bom, meus amigos.

Abraços

Olinda

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Kanzar - a partir do kimbundu ku-kanza= saquear

sábado, 9 de julho de 2022

Conta comigo. Sempre




Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue. Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.

O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.

Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.

Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

         I n: Ano Comum







Bom fim de semana, amigos.

Abraços 
Olinda


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Texto: Citador
Imagem: Pixabay


domingo, 3 de julho de 2022

Beju Furtado

 


ASSOL GARCIA

Beju Furtado

Kusé ki tem furtabu um beju
Ma kusé ki tem txomau di meu
Kusé ki tem pou na nha petu
Ma kusé ki tem sim krebu txeu

Beju mas sabi é kel furtadu
Kombersu dosi murmuradu
Ka tem koragi txobeu di ladu
Mata saudade é só imbrasadu
Amor di longi é ka di konta
Amor di pertu amor di fronta
Mas si contisi ka ta negadu
Kelo ki kredu ka ta importadu

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Sim, que mal tem roubar-te um beijo? Que mal tem dizer que és meu e encostar-te ao meu peito se te quero tanto?! Beijo roubado é mais gostoso, conversa doce e murmurada...

Assol Garcia num ritmo que convida a um pé de dança, vida ao ar livre, numa piscina, ou à beira-mar. 

Parece que o Sol, um pouco esquivo por estes dias, resolveu reaparecer. Aproveitemos.


Bom fim de semana, amigos.

Abraços

Olinda


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Music and Lirics-Teté Alhinho