quarta-feira, 11 de junho de 2014

Respiro e Vejo

Alberto da Costa e Silva, brasileiro, um escritor que estuda a História, resgatador da memória de África - distinguido com o prémio mais importante da criação literária em língua portuguesa, o Prémio Camões - 2014:

Hoje, aqui, connosco. Apreciemos este belíssimo poema:






Respiro e Vejo


Respiro e vejo. A noite e cada sol 
vão rompendo de mim a todo o instante, 
tarde e manhã que são tecido tempo, 
chuva e colheita. O céu, repouso e vento. 

Vergel de aves. Vou entre viveiros, 
a caçar com o olhar, passarinhagem 
dos pequeninos sóis e das estrelas 
que emigram neste céu de goiabeiras. 

mas sigo a jardinagem, podo o tempo, 
o desgosto do espaço, a sombra e o fogo, 
as florações da luz e da cegueira. 

E, no dia, suspensa cachoeira, 
neste jogo sagrado, vivo e vejo 
o que veio em meus olhos desenhado. 

Alberto da Costa e Silva,
 in 'A Linha da Mão'

Poema:Citador

domingo, 8 de junho de 2014

"Fruta Feia" - a nossa fruta

A nossa maçã, a nossa laranja, a nossa pêra: É assim que a dona de uma loja de bairro, aqui perto de casa, se refere à fruta produzida e colhida por pequenos produtores, nos terrenos circundantes. Dispõe os caixotes à porta e cola neles papéis escritos à mão onde indica os preços que não chegam a um euro. 

Ainda não há muito tempo li que havia pessoas a aproveitar e a canalizar para o consumo fruta produzida fora das regras draconianas da União Europeia, dando-lhe a designação de "Fruta Feia".

Neste site, da cooperativa que entretanto foi criada, a 18 de Novembro de 2013, pode ler-se: Todas as semanas trabalhamos directamente com os produtores, recolhendo nas suas hortas e pomares os produtos pequenos, grandes ou disformes que estes não conseguem escoar e com os quais preparamos cestas de tamanhos diferentes com frutas e hortaliças da época para entregar aos associados da Fruta Feia CRL.




Pois bem, a "Fruta Feia" já é notícia fora de portas. Nos Estados Unidos o The New York Times refere este projecto, um desafia à ditadura de Bruxelas que vai ao ponto de regulamentar o tamanho, a cor e a forma dos alimentos que os cidadãos comem, como bem sabemos. Resultado:desperdício de 89 milhões de toneladas de alimentos. É obra! Será que vi bem?

Refere-se também aqui que Portugal é pioneiro nesta actividade, sendo motivo de inspiração nas Nações Unidas (FAO). Um seu representante declarou à Renascença: São experiências positivas que devem ser partilhadas a nível mundial para a criação de uma plataforma sólida de combate ao desperdício.

Felizmente, cada dia que passa verifica-se que mais e mais pessoas têm consciência de que é necessário tomar nas mãos as rédeas do próprio destino. O povo é que tem razão: no poupar é que está o ganho. Há mais movimentos neste sentido como, por exemplo, Zero Desperdício e Re-Food que recolhem alimentos em restaurantes, alimentos esses que de outro modo iriam para lixo.

Nós, os leigos, estamos fartos de dizer que é tempo de a União Europeia proceder a uma revisão das suas estratégias. E se tem que começar por algum lado que o faça já em relação à agricultura e às pescas, áreas em que a aplicação de quotas e excessos nas normalizações não parece ter servido os cidadãos europeus. Entretanto, a sociedade civil procura soluções e penso que, com imaginação, lá vai chegando. 

Deixo aqui este slogan e a composição da última cesta: 


Gente bonita come fruta feia
Composição da cesta de 02.06.2014 (Casa Independente) e de 03.06.2014 (Ateneu Comercial de Lisboa):
  • Mirtilo 
  • Pêra-rocha
  • Maçã fuji
  • Alho francês
  • Couve lombardo
  • Cenoura
  • Tomate
  • Agrião (só para cestas grandes)

Desejo-vos um bom domingo.:)


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Só o poder limita o poder - disse ele

Poderes com a mesma força institucional independentes uns dos outros. O homem que veicula esta ideia nem pensava em termos de democracia tal como a entendemos hoje. O que sabia era que o poder absoluto, vigente no Sec.XVIII, teria de ser controlado. 

Nas suas 'Cartas Persas' critica a sociedade, as instituições políticas, os abusos do Estado e da Igreja, ridicularizando os valores de uma civilização que se considerava superior a outras. E em 'O Espírito das Leis', ele, Montesquieu, vai cimentando as suas convicções na busca do fio condutor do seu raciocínio: Muitas vezes comecei, e muitas vezes abandonei esta obra; mil vezes lancei aos ventos as folhas que havia escrito; sentia todos os dias as mãos paternas caírem; seguia o meu objecto sem formar objectivo; não conhecia nem as regras, nem as excepções; só encontrava a verdade para perdê-la. Mas quando descobri os meus princípios tudo o que procurava veio a mim; e, durante vinte anos, vi a minha obra começar, crescer, avançar e terminar. Se esta obra tiver sucesso, devê-lo-ei e muito à majestade do meu assunto (sujet); no entanto, não creio ter carecido totalmente de génio. Quando vi o que tantos grandes homens, em França, Inglaterra e Alemanha, escreveram antes de mim, fiquei admirado; mas não perdi a coragem.




E encontra-o, encontra o fio condutor que procurava. Para limitar o poder nada melhor do que o poder. E isto seria o início da  arquitectura ideal que passaria a reger as leis fundamentais das democracias ocidentais. O poder legislativo, o poder executivo, o poder judicial. O conceito ou teoria dos três poderes. Todos independentes uns dos outros. Cada um com as suas próprias regras, tendo como pano de fundo a Constituição. Será isto tão linear? Seria se o ser humano não procurasse envolver tudo em teias complicadas. 

A Constituição Portuguesa faz jus à teoria dos três poderes: o legislativo, o executivo, o judicial, ou seja, a Assembleia da República, o Governo, os Tribunais. São os órgãos da República. Mas há um quarto órgão que, em momentos de crise, se agiganta: o Presidente da República. Todos eles têm as suas competências discriminadas na Lei Fundamental. Pelas competências atribuídas à Assembleia da República notamos a força deste órgão e por aí se vê claramente porque é que o nosso regime é parlamentar e a sua responsabilidade, especialmente, na feitura e aprovação das leis. Leis que não dêem azo a interpretações dúbias, convenhamos.

Muito confusa é a situação política que hoje se vive. Encontrei neste poema de António Gedeão o eco disso mesmo:


Desencontro

Que língua estrangeira é esta
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussuro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentindo, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes aperto de mão,
passeios de braço dado,
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.


Entreguemo-nos à reflexão, nem que seja por momentos. Que as palavras tenham sentido e os actos sejam o reflexo delas. Não queiramos morrer atolados na mais negra solidão. Empreguemos o nosso raciocínio na boa gestão das nossas diferenças.

E hoje, meus amigos, o dia nasceu claro e luminoso. Claro e luminoso? Bem, foi o que escrevi sem pensar... Gosto de adjectivos e, por vezes, abuso um bocado sobrepondo-os. Ou será que não estão sobrepostos? Talvez haja do claro ao luminoso uma escala em crescendo e é nisso que o meu espírito aposta. Aproveitemos e façamos milagres, pois a vida já de si é um milagre. :) 

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Montesquieu 
(Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu)
L'esprit des lois
Nota: Na referência a "Alemanha" há que ter em conta que a unificação alemã só se verificará, oficialmente, em 1871.