sábado, 13 de agosto de 2016

Soneto da chuva




Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de agua onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?

Virá abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
numa última órbita em que fores
carregada de cinza como a lua.

Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.

Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu. poesia, meu amargo rio.

Carlos de Oliveira
in: Terra de Harmonia, 1950

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Imagem: aqui
Poema: Trazido do Banco de Poesia - 
Casa Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Um momento tão perto




Traz um poema no coração: o labor agreste
de silvos amadurece nele as acres maçãs da água.
Esconde nas unhas um brilho solar.
O pó estival cruza-lhe os olhos brancos, molhados
por uma lágrima esquecida.
Os cabelos, ardidos pelo incêndio
dos pássaros, escondem o rumor dos pinheiros bravos.
Sobe ausente os degraus do verão, os ombros
tocados pelo azul grande do céu mediterrânico.
Nos seus gestos dançam margaridas, as mais antigas
palavras, a leveza distraída
de quem olha as pedras para reconhecer o rosto.
Tenho tanta sede,
diz, sentindo a doce melancolia
de quem se deita para amar a eternidade.
Agressor de ímpetos, deixa nela a perdida raiz
da terra, toda a solidão,
inacabada permanência.
A saudade é um amor impossível,
abstracta diz-lhe.

Eduardo Bettencourt Pinto
In: Um dia qualquer em Junho
pg.45

Poeta do seu ofício, Eduardo Bettencourt Pinto, sabe muito bem - como Mallarmé e muitos outros antes dele, como todos os verdadeiros poetas - que a poesia se faz com palavras, as palavras, diz ele, que "são a chuva nos olhos/do poeta,/a primeira sombra/da haste fascinada." Só com elas, por elas, deslocando-as, provocando-as, tentando-as, conseguirá convir-se todo o "fulgor solitário das chuvas".(...) Ser poeta é reinventar a frescura duas vezes: no modo como se vê o mundo e no modo como se entrega àquilo que se vê como se fosse a primeira vez. Eugénio Lisboa, in Prefácio do livro acima referido. 

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Imagem: daqui

domingo, 24 de julho de 2016

...à Chacun son Everest!

Não poucas vezes lamentamos a nossa sorte seja no que diz respeito à saúde como aos aspectos financeiros. Contudo, se compararmos a nossa situação com outras mesmo ao nosso lado ou por esse mundo fora, em relação aos que sofrem de doenças incuráveis, às agruras de pessoas que têm de deixar as suas casas e fugir à guerra, à fome, às intempéries, então verificamos que não somos tão infelizes como pensávamos. A sorte nos sorri ainda, apesar das dificuldades que vamos enfrentando.

É reconfortante verificar que há pessoas que se preocupam com quem atravessa momentos dolorosos, muitas vezes insolúveis, dedicando boa parte da sua vida a essa missão. Christine Janin é uma dessas pessoas: Docteur en médecine, première Française à avoir atteint le toit du monde (l'Everest), première femme à avoir rejoint le pôle Nord sans chiens de traîneau ni moyen mécanique...




Esta mulher formidável, laureada em diversas ocasiões, (commandeur de l'ordre national du Mérite, officier de la Légion d'honneur, chevalier de l'ordre des Arts et des Lettres...) cria, em 1994, uma associação denominada "À Chacun son Everest", tendente a apoiar crianças com cancro, na fase difícil de "l'Après-Cancer", com o objectivo de as ajudar a "guérir mieux".

Eis, em poucas palavras,  o espírito que a anima: 

"À chacun son Everest" s'appuie sur la force du parallèle symbolique entre la difficulté de l'ascension d'un sommet et celle du chemin vers la guérison. L'enfant est amené à viser une double reconquête : physique et psychologique. Chaque enfant est sollicité pour partager son expérience avec les autres jeunes qui ont vécu la même épreuve. aqui.


Mas também mulheres atingidas pelo cancro da mama, em fase de remissão, recebem desde 2011 os benefícios desta grande associação. Christine Janin acolhe-as na sua casa de Chamonix, onde beneficiam de tratamento para o corpo e para a alma.


Le sport, la marche en montagne et l'escalade jouent leur rôle à plein pour permettre aux femmes de reprendre confiance dans leur corps, mais les longues soirées de discussion sont tout aussi salvatrices. « Il ne s’agit pas d’un camp de vacances pour cancéreuses, mais bien de laisser chacune répondre à ses propres problématiques, les activités servent de support à ce recentrage sur la vie et sur soi ». Se retrouver, cela passe aussi par des retrouvailles avec sa féminité : la maison offre des soins d’esthétique, du yoga, des massages, mais aussi un suivi psychologique à ses résidentes.

Diariamente, chegam até nós notícias terríveis que nos fazem perder a esperança na bondade do ser humano. Mas, há um mundo imenso de solidariedade e abnegação que precisamos descobrir e apoiar.

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Post feito a partir da notícia que encontrei 
na revista "Maxi, du 4 au 10 juillet 2016" .
2ª imagem - daqui
Último excerto: daqui