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domingo, 21 de janeiro de 2024

João Carlos Silva, o cozinhador de utopias




É assim que me lembro dele, em 2011, altura em que comecei o blog e foi com esta imagem que fiz um post falando da sua arte de cozinhar, do seu encanto, das paisagens de São Tomé, onde fazia os pratos no programa de culinária que a RTP1 transmitia. 

Culto, dinâmico, carismático, não deixava de fazer uma referência poética ou filosófica no Sal na Língua. Eis o escrevi nessa altura, quando ainda tinha os bons propósitos de fazer posts pequenos:

“Na roça com os tachos”, João Carlos Silva deliciou-nos em tempos com a sua arte de comunicar e tanto nos fazia saborear as palavras, lendo-nos poemas, como criava em nós a vontade de participar das paisagens idílicas de São Tomé e Príncipe. Penso que os pratos que ele preparava eram apenas acessórios.

Ei-lo de novo, agora no programa “Sal na Língua”,RTP, com o objectivo de percorrer os 8 países da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste), dando a conhecer usos e costumes de cada um e, em especial, a gastronomia.
Os caminhos da Lusofonia são infinitos.



Apresentou nos dias 15 e 16 de julho, de 2023, showcookings às 18h e 21h, 
do evento "Há Prova", no Centro Histórico de Paço de Arcos.


Reencontrei-o não há muito tempo, numa das minhas pesquisas e quis saber dele.Mantém-se a ideia que tenho da sua personalidade, que a gastronomia é apenas uma das suas artes, somando o de "um dinamizador cultural em São Tomé e Príncipe, querendo que o país seja "um entreposto de cultura" porque "a arte pode levar São Tomé e Príncipe para o mundo e trazer o mundo para São Tomé. Veja mais: aqui

Amanhã, o Xaile de Seda faz 13 anos e escolhi festejá-los convosco recordando uma figura que fez parte das minhas primeiras publicações. A ementa para esta festa, está bem de ver, é precisamente a que consta do video acima, pela mão do Chef João Carlos Silva.

Mas aproveito, já que estou com a mão na massa, e trago um poema de Olinda Beja, autora natural de São Tomé e Príncipe:




RAÍZES

Há rumores de mil cores enfeitando o espaço
de gorjeios infantis
transportando aquele abraço de anãs juvenis
árias que perduram na mensagem
da nossa voz e da nossa imagem.

São rumores de tambores
repercutindo a esperança de olhares inquietos
toada de lembranças
liturgia de afectos.

São rumores maternais
presos à terra que nos diz
que só o maior dos vendavais
arranca da árvore a raiz.


***



Abraços, meus amigos.
Tudo de bom vos desejo.

Olinda



===

Numa biografia de João Carlos Silva li que ele:
Nasceu em Angolares, S. Tomé em 1956. Estudou em S. Tomé, Angola e Portugal, onde frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra. Exerceu jornalismo, tendo, como artista plástico, iniciado as suas actividades em Lisboa. Fundou O CIAC e o Espaço Teia d'Arte (artes plásticas, teatro, dança, debates, oficina de letras, ateliers infantis, cine-clube) em S.Tomé. Participou em várias exposições colectivas de artes plásticas em S. Tomé e no estrangeiro. Dirige o Projecto Integrado de Desenvolvimento da Roça S. João (agricultura, pecuária, educação não-formal, ambiente, património, cultura e turismo) e é o coordenador da Bienal de Arte e Cultura de S. Tomé e Príncipe.

-João Carlos Silva, o "Chef" que cozinha utopias em São Tomé e Príncipe (leia esta entrevista, aqui)

-Imagem: Flor - daqui, Blog "Viagens a São Tomé e Príncipe"

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Sóya

Há-de nascer de novo o micondó —
belo, imperfeito, no centro do quintal.
À meia-noite, quando as bruxas
povoarem okás milenários
e o kukuku piar pela última vez
na junção dos caminhos.

Sobre as cinzas, contra o vento
bailarão ao amanhecer
ervas e fetos e uma flor de sangue.

Rebentos de milho hão-de nutrir
as gengivas dos velhos
e não mais sonharão as crianças
com gatos pretos e águas turvas
porque a força do marapião
terá voltado para confrontar o mal.

Lianas abraçarão na curva do rio
a insónia dos mortos
quando a primeira mulher
lavar as tranças no leito ressuscitado.

Reabitaremos a casa, nossa intacta morada
.

CONCEIÇÃO LIMA
in: A dolorosa raiz do micondó




Conceição Lima nasceu em 1961 na ilha de São Tomé, em São Tomé e Príncipe, país africano de língua portuguesa que se tornou independente de Portugal em 1975, após 500 anos de colonização. Ela cresceu em meio às lutas políticas pela independência de seu país. Formada pelo King’s College de Londres, Conceição é jornalista e trabalha para a BBC.  aqui

E mais:

Estreou com a colectânea de poemas O útero da casa publicado em Lisboa pela Editora Caminho em 2004. Dois anos depois publicou, também na Caminho, A dolorosa raiz do micondó. O micondó, ou imbondeiro, é uma árvore considerada sagrada por muitos povos africanos. Espécie de baobá, é conhecida como árvore da vida, devido à sua longevidade, que chega a seis mil anos. Portanto, em muitas comunidades, as gerações passam e as árvores sagradas permanecem, assistindo a tudo. É por isso que no poema “Sóya” (lenda) Conceição Lima escreve: “Há-de nascer de novo o micondó — / belo, imperfeito, no centro do quintal”. A árvore é uma referência ― quase certeza ― de futuro e de esperança. (...)



Boa semana, meus amigos.



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Sóya - Lenda, conto, fábula


terça-feira, 15 de maio de 2012

A lenda do Rei Amador - São Tomé e Príncipe


O dia 4 de Janeiro tornou-se feriado nacional em homenagem ao Rei Amador, líder da revolta de escravos em 1595. Segundo a mitologia pós-colonial em São Tomé e Príncipe, o Rei Amador, representado nas notas bancárias do país, era rei dos angolares. A todos os visitantes do arquipélago, interessados na sua história, conta-se esta lenda, que foi divulgada desde a independência. No pequeno texto ‘Esboço Histórico das Ilhas de S. Tomé e Príncipe’, publicado em 1975 e atribuído ao historiador Carlos Neves lemos que “A 9 de Julho de 1595 o célebre Amador à frente dos Angolares, levanta o estandarte da revolta, mas é preso e morto em 1596.” Esta versão também se encontra em obras literárias da temática santomense.
Por exemplo, na sua peça ‘Teatro do Imaginário Angolar’ o escritor português com ascendência santomense-angolar Fernando de Macedo Ferreira da Costa, explica que Amador é o “célebre guerreiro que, comandando as hostes Angolares (reforçadas de outros negros revoltados), ousou avançar sobre a capital de S. Tomé”.

Texto retirado de:
Imagem:internet