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domingo, 23 de agosto de 2020

Eça de Queirós - um olhar sobre Júlio Dinis


Setembro 1871.

Um só livro seu, um romance, fez palpitar fortemente as curiosidades simpáticas -

As Pupilas do Sr. Reitor. Esse livro fresco, quase idílico, aberto sobre largos fundos de verdura, habitado por criações delicadas e vivas - surpreendeu. Era um livro real, aparecendo no meio de uma literatura artificial, com uma simplicidade verdadeira, como uma paisagem de Cláudio Loreno entre grossas telas mitológicas. Era um livro onde se ia respirar.

Júlio Dinis amava a realidade: é a feição viril e valiosa do seu espírito.

Nunca porém se desprendeu do seu idealismo e sentimentalismo nativo. A realidade tinha para ele uma crueza exterior que o assustava: de modo que a copiava de longe, com receio, adoçando os contornos exactos que a ele lhe pareciam rudes, espalhando uma aguada de sensibilidade sobre as cores verdadeiras que a ele lhe pareciam berrantes. As suas aldeias são verdadeiras, mas são poetizadas: parece que só as vê e as desenha quando a névoa outonal esfuma, azula, idealiza as perspectivas.

Nunca um sol sincero e largo bate a sua obra. Tudo nela é velado de névoa poética. Não é que não ame, não persiga a verdade: somente quando a fixa na página traz já a pena toda molhada no ideal que o afoga.

Dizem que os seus livros são memórias, e que ele faz a aguarela suave das paisagens em que viveu, e que personaliza, em criações finamente tocadas, os sentimentos com que palpitou; daí decerto a realidade que os seus livros deixam entrever, fugitivamente. Mas parece que não fora feliz, e que só ao compassar dos soluços o coração lhe aprendera a bater: daí pois aquelas meias-tintas azuladas e melancólicas em que se move, num rumor brando, o povo romântico dos seus livros, e com que ele procura esbater e adoçar a crueza das realidades humanas que o fizeram sofrer.

Era sobretudo um paisagista. As suas figuras só servem para dar expressão e vida à paisagem.

Os campos, as searas, os montes, as claras águas, os céus profundos, não são nos seus livros a decoração que cerca uma humanidade fortemente sentida: as suas camponesas romanescas, os seus galãs violentos e ternos, as meigas figuras de velhos, até as suas caricaturas - é que foram por ele colocadas assim para poder, em torno delas, erguer com cuidado, árvore por árvore e casal por casal, as aldeias que tanto amava. Há nos seus romances tal descampado, tal eira branca batida do sol, tal parreira onde os gatos se espreguiçam, que tem mais ideia, mais acção, mais vida, que as figuras vivas que em torno se movem.

Depois das Pupilas do Sr. Reitor as obras de Júlio Dinis passaram de leve, entre as atenções transviadas. Terá o seu dia de justiça e de amor. À maneira daqueles povoados que ele mesmo desenha, escondidos no fundo dos vales sob o ramalhar dos castanheiros, os seus livros serão procurados como lugares repousados, de largos ares, onde os nervos se vão equilibrar e se vai pacificar a paixão e o seu tormento.

Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte, tranquila e meiga, pomos a lembrança de Júlio Dinis. Que as pessoas delicadas se recolham um momento, pensem nele, na sua obra gentil e fácil, que deu tanto encanto, e que merece algum amor. Tal é o nosso mal, que este espírito excelente não ficou popular: a nossa memória, fugitiva como a água, só retém aqueles que vivem ruidosamente, com um relevo forte: Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve.

Foi simples, foi inteligente, foi puro. Trabalhou, criou, morreu. Mais feliz que nós, tem o seu destino afirmado, e para ele resolveu-se a questão.

Passemos pois... Já do outro lado, para além desta página serena, ouvimos, inumeráveis como abelhas vingadoras, as ironias aladas que, com um rumor impaciente, zumbem no ar!

Eça de Queirós - In: Uma Campanha Alegre/I/XXXII - aqui

Júlio Dinis viveu de leve,
 escreveu de leve, 
morreu de leve.
Diz Eça de Queirós. ´
Tenho lido esta asserção nos mais variados sítios mas sempre quis identificar onde o tinha lido pela primeira vez. Foi em "Uma Campanha alegre", mas já não me lembrava. 
No texto acima, Eça justifica o seu juízo. 
Demasiado simplista?






Júlio Dinis,(1839-1871) pseudónimo de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, também Diana de Aveleda em pequenas narrativas. Faleceu com apenas 31 anos, vítima de tuberculose pulmonar. mais



José Maria de Eça de Queiroz, ( 1845-1900) contemporaneamente escrito Eça de Queirós, foi um escritor e diplomata português. Completaram-se, a 16 de Agosto, 120 anos sobre a sua morte. mais

Dois grandes vultos da Literatura Portuguesa e 
tão diferentes na sua interpretação da sociedade e da realidade..



Bom domingo, meus amigos.
E muita Saúde!

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Posts sobre Júlio Dinis, aqui, no Xaile de Seda.
E sobre Eça de Queirós, aqui, e onde aparecem referências a ele ou à sua obra, também no Xaile de Seda.

Ver, se interessar:

sábado, 4 de março de 2017

Iniciação - Júlio Dinis

Não sei se já vos terei dito que na minha adolescência li os romances de Júlio Dinis quase todos. Os meus pais eram grandes leitores de autores do século dezanove e, assim, transmitiram-me a mim e aos meus irmãos esse bichinho da leitura.

Sempre quis ler alguma poesia de Júlio Dinis para além daquela que ele inclui nos seus livros. Há poucos dias encontrei no escaparate de sugestões de leitura da biblioteca aqui da minha aldeia um livrinho de bolso, de 264 páginas, que ele próprio prefacia e ao qual também vai introduzindo notas de rodapé. Dele retiro o poema que hoje aqui vos trago, Iniciação: 


Além, naquela avenida,
De plátanos e salgueiros,
Foi que em teus beijos primeiros
Bebi a primeira vida.

Sob os copados verdores
Daquela frondosa rua,
Mal vistos da própria lua,
Falávamos nós de amores.

Todos em nossa procura,
Nós a rirmos escondidos.
Oh! que instantes decorridos!
Oh! que rápida ventura!

"Vai", disseste-me ao partires,
"Que estes beijos te dêem vida.
"Adeus, a infância é volvida!
"Luta e...se não sucumbires..."

E a voz faltava-te em meio;
E eu disse com modo brando:
Se não sucumbir?..." Chorando
Apartaste-me ao teu seio.

"Volta; e a sentida promessa,
"Que em meus beijos entendeste,
"Cumprida será." Disseste:
"Adeus. A luta começa."

E começava! Ai, por vezes
Me tomou o desalento:
Porém aquele momento
Lembrava-me nos reveses.

Lutei. E ao voltar agora
Com as lembranças do passado,
Dize, anjo, se me é dado
Recordar-te ainda essa hora?
                                    
                                    1865

(1839-1871)


Um outro préfacio é nele inserido por Egas Moniz, em 1946, (o nosso primeiro laureado com um Nobel) e a que intitulou: "Algumas Palavras". Logo no início ele diz isto: A notícia do seu desaparecimento emocionou o País e deixou no Norte um vinco forte de saudade, pois Júlio Dinis tem um culto muito especial no Porto e em longos arredores que envolvem o Minho, Trás-os-Montes e Beiras. Nestas regiões raros são os que não leram a obra romântica do seu autor predilecto: mas as poesias nem sempre têm tido a boa sorte de outros dos seus livros. Esquecem-nas uns, outros não lhes encontram os encantos da sua prosa.

Egas Moniz encontra explicação para isso no facto de Júlio Dinis ser um admirador de Soares de Passos cuja obra fez derramar muita lágrima de emoção. Mas, segundo ele, à época já "Agonizava aquele romantismo saudosendo e tristonho que se acoitava à sombra dos ciprestes. A arte tomava novos rumos sob rajadas fortes de revolta e salutar protesto."

Bem, meus amigos, lede e dizei-me da vossa justiça se vos interessardes por este género de literatura.

Desejo-vos um bom fim de semana. Hoje está Sol e um pouco menos frio, o que poderá fazer-nos ver as coisas com mais optimismo perante os imbróglios que se desenrolam à nossa volta.

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Poema transcrito de: Júlio Dinis - Poesias , página 154 e 155
Imagem: internet

sábado, 12 de setembro de 2015

Júlio Dinis ou Diana de Aveleda ou ainda...

Joaquim Guilherme Gomes Coelho de seu nome. Escritor e médico, nascido em 1839. Morreu jovem, em 12 de Setembro de 1871, a dois meses de completar 32 anos, vítima da tuberculose. É o homem de quem Eça de Queirós disse, ao que consta:"Júlio Dinis viveu leve, escreveu de leve, morreu de leve". Não percebo o alcance destas palavras, assim arrancadas do seu contexto. Para mim como para qualquer pessoa que tenha lido os seus livros, Júlio Dinis é um autor de referência pelo seu humanismo e forma sadia como enfrentava a vida.



O primeiro livro que dele li foi A Morgadinha dos Canaviais, teria eu doze anos. Hoje convido-vos a lê-lo ou a relê-lo comigo. 
Aos poucos, fui tomando contacto com os outros títulos através da minha mãe que tinha o hábito de, muitas vezes, ler em voz alta. De vez em quando dou por mim a fazer o mesmo, quase inconscientemente.

Aproveito esta data para referir a suma importância da descoberta, em 1882, do bacilo da tuberculose por Robert Koch, doença infecto-contagiosa que causara tantas mortes. Ainda hoje chegam-nos notícias de casos que nos preocupam, por cá, em instituições hospitalares ou outras e ainda da falta da BCG, uma das vacinas da primeira infância. Todo o cuidado é pouco. Não facilitemos.

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Imagem: daqui


domingo, 29 de dezembro de 2013

Consoada - Natal à Portuguesa

Bem escura, bem ventosa, bem fria e húmida surjas tu sempre, noite de 24 de Dezembro, que melhor então se avaliará pelo contraste a luz, o calor, o aconchego dos lares e mais íntimos se estreitarão os círculos da família em roda da ceia patriarcal.
"A Morgadinha dos Canaviais"
Júlio Dinis




Um romântico incorrigível este nosso Júlio Dinis, citado num livrinho que me chegou às mãos, há dias, e que fala do "Natal à Portuguesa", no qual são apresentadas receitas dos pratos que fazem a nossa tradição. A autora, Edite Vieira Philips, refere a definição específica e muito bela da ceia da noite de Natal, Consoada, e indica a sua raiz e significado: consonare, soar juntamente, ou seja, uma coisa feita em conjunto, em reunião. Também traz referências aos diversos usos e costumes de cada região. De entre as variadíssimas receitas destaco: bacalhau com todos, arroz de polvo, roupa velha, peru recheado, pato com arroz, arroz doce, leite-creme, rabanadas, filhós, coscorões, broas, bolo-rei, enfim tudo pratos e doces que conhecemos e muitos mais. 




Este ano resolvi voltar ao bacalhau com todos, pondo de lado outras experiências culinárias experimentadas nos últimos dois ou três anos. E, confesso, é como o bacalhau me sabe melhor, com batatas, couves, cenoura e grão, que não pode faltar, e tudo temperado com o nosso bendito azeite. No dia seguinte, a roupa velha, como não podia deixar de ser.

O arroz doce tem o seu lugar de destaque na minha mesa, feito à minha moda, isto é, aldrabado, o que envergonharia sobremaneira a minha avó, se fosse viva. Ainda me lembro de como ela descrevia os ingredientes indispensáveis a um bom arroz doce, o que, decididamente, colocaria o meu no final da lista se fizesse parte de algum concurso de culinária, desses que já tomaram conta das nossas vidas televisivas. Aliás, não há receita que não sofra transformações nas minhas mãos. E nem sempre bem sucedidas.

Outra iguaria natalícia que eu não dispenso: as fatias douradas ou rabanadas. Eu já sei que se não são comidas logo, acabadinhas de fazer, depois já não são saborosas porque ficam meio duras... mas, faço-as sempre e, claro, provo logo uma.

Porquê esta conversa agora que o Natal já passou e a Consoada já foi? Este post era para ter sido publicado, com o verbo no correspondente futuro próximo, no dia 23 ou 24, mas não tive oportunidade. É o que acontece com muitos tópicos que armazeno nos rascunhos e que depois acabo por não desenvolver e finalizar por falta de tempo e, consequentemente, não publicar. Mas como ainda estamos na quadra festiva, pareceu-me que este tema não estaria fora do tempo... 

 Imagens: recolhidas na Internet