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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

"a paixão grega"

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

in: A faca não Corta o Fogo


Herberto Helder de Oliveira (1930 – 2015) foi um poeta português, considerado por alguns o "maior poeta português da segunda metade do século XX" e um dos mentores da Poesia Experimental Portuguesa. aqui



Imagine all the people
Living life in peace

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Poema - daqui

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Eu vim de longe, de muito longe

Balouçando-se na cadeira, com ar sonhador, Dufinha cantarolava, Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei pra aqui chegar... Este som e estas palavras não lhe saíam da cabeça. A lonjura era uma constante na sua percepção do mundo. Da sua ilha, na macaronésia, chegam-lhe agora outros sons e outras palavras: do mar que brame, batendo nas rochas, dos segredos trazidos pelos búzios quando, outrora, os encostava ao ouvido.


Minha beleza é mais dizível
nos segredos que perscruto 
no mar que um búzio retém.

Vozes que só eu escuto 
são a forma do meu corpo 
aqui absorto 
num sonho que depus além. *


Natália Correia













  
Internando-se pela laurissilva, procura desvendar e interpretar estes vestígios dos tempos antigos, pré-históricos, estuantes de vida e que resistem à acção da má conduta dos homens. O olhar é um pensamento que esvoaça e vai ao encontro de coisas belas, tantas, que compõem o universo. Mesmo quando a luz cambaleia e a beleza é ameaçadora o passo em frente é necessário. E o poeta consegue, sempre, escrever mais alto. É esta a sua convicção.

O olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
- Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.**

Herberto Helder
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Poemas de:
* Natália Correia, "O rosto que ninguém vê"
**Herberto Helder, "O olhar é um pensamento"

Eu vim de longe...Canção de José Mário Branco

Imagem:apontamento da floresta laurissilva-Madeira

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Ciclo Macaronésia