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terça-feira, 12 de agosto de 2025

A visão do Sr Napumoceno

 Ontem lembrei-me do "Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo", de Germano Almeida, escritor cabo-verdiano, laureado com o Prémio Camões, em 2018. 

Temos que o Sr Napumoceno, pequeno comerciante, encomendara 1000 guarda-chuvas e, por engano do fornecedor, recebera 10000. O que fazer com elas numa terra que não chove? Conservou-as e por fim recebeu o fruto da sua paciência. A chuva não se faz rogada em determinada altura e o Sr Napumoceno vê a sua paciência dar resultado. A corrida aos guarda-chuvas foi memorável. Este livro foi vertido em filme, com a colaboração de actores do Brasil.

Lembrei-me dele, é verdade. Na madrugada de ontem caiu uma tromba de água sobre São Vicente, que durou 3* horas ininterruptas. Notícias de lá dizem-nos que está um caos sem tamanho e que já fez vítimas mortais, incluindo crianças. Casas inundadas, carros a boiar e revirados, sem luz eléctrica, pessoas sem poderem sair à rua, sem possibilidade de carregarem os telemóveis, portanto sem poderem comunicar, caminhos desfeitos, sem táxis... Consta que muitas viaturas foram parar ao mar. A destruição é generalizada. Comerciantes com prejuízos incontáveis.

Muitas críticas têm surgido. O chão seco torna-se impermeável à chuva que leva tudo à frente. Não há, segundo parece, sistema de drenagem nem de captação. Os prédios feitos em estilo moderno não têm capacidade de escoarem a água, porque na realidade Cabo Verde é um arquipélago onde a chuva é rara.

Previsões metereológicas anunciam replica nos próximos dias.

Foi decretado estado de calamidade e luto nacional. A ilha de Santo Antão também foi afectada.


Sina de Cabo Verde
(Se a chuva não vem morre-se de sede,
se ela vem morre-se afogado).

Dudu Araújo


Ceuzany

Mindel D'Novas


Relato na primeira pessoa: Sílvia Moutinho - Visão


***


A "tromba de água" que refiro acima afinal tem nome:

É a tempestade  "Erin".

Recebi este apontamento:

"Em apenas 5 horas, São Vicente recebeu 192,,2 mm de chuva. Entre as 04h e as 05h, foram 108,5 mm, isto é mais chuva numa hora do que Lisboa tem num mês de Inverno"...

E a seguir faz uma comparação com outros países para se perceber a dimensão do desastre.


***


Os meus sentimentos, povo cabo-verdiano.

Abraços

Olinda


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*rectificando: 5 horas

Ver aqui - Germano de Almeida

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Da tomada da Ribeira Grande por Cassard

Aproximam-se os franceses! Devagar, em boa ordem, como uma mole imensa e compacta aproximam-se inexoravelmente da fortaleza . De dentro, o governador, o ouvidor, os demais oficiais, observam aquela marcha que mais parece uma manada cega e incapaz de ser detida. Mas mesmo assim, ao tê-los a uma distância que julga boa para o tiro, o governador manda abrir fogo nutrido sobre o inimigo.

Para seu espanto, quase imediatamente uma considerável parte da força de Cassard desorienta-se e bate em retirada. Mas o que é mais incompreensível é que a outra parte  mantém-se  ali firmemente a flagelar os sitiados, como se a parte debandada do exército nada tivesse a ver com a que ainda luta com ferocidade. Só depois se fica a saber que tudo aquilo tinha sido devidamente ensaiado para ser uma simples manobra de diversão: porque a tropa que fingiu retirar-se em debandada, na realidade contorna a fortaleza, desce à Ribeira Grande exactamente no sítio onde nasce a Maria Parda, e sem qualquer oposição entra e saqueia a cidade, e rouba tudo o que apanha a jeito, incluindo os paramentos da capela do Espírito Santo...

 A perda foi tão grave que o Bispo teve que ir negociar com Cassard a devolução de alguns objectos sagrados e paramentos, porque com esse saque tinha ficado impossibilitado de rezar a santa missa. ...

...a vergonha vai um pouco mais longe. A fortaleza está provida com pouco mais  de cinquenta homens, e diante do poder de fogo de que o inimigo está a mostrar-se capaz, começa-se a admitir a conveniência de uma capitulação. ...são enviados emissários de bandeira branca.

Cassard não entende uma única palavra de português... Porém, aceita tudo sem hesitar e assina de cruz o papel que lhe apresentam para esse efeito. As tropas sitiadas abandonam a fortaleza em boa ordem e dirigem-se para o interior da ilha.

E Cassard toma posse física da mesma... De seguida as suas tropas restantes descem também para a cidade e acabam de saquear o que os seus camaradas tinham deixado para trás: as casas do bispo, do ouvidor-geral, do almoxarife, do feitor, de D. Isabel de Barros, avó do nosso coronel, e também do seu filho tenente Pedro Cardoso a quem, aliás, até se permitiram fazer judiarias como tomar-lhe o bastão, puxar-lhe a gravata, meter-lhe as mãos nos bolsos, etc. E para tudo concluir em grandeza, terminam arrebanhando cento e dez peças de escravos, belos rapazes e belas raparigas, cativos e forros misturados.

E vão-se embora finalmente, não sem antes terem minado com explosivos grande parte da muralha da fortaleza, abrindo nela grandes e avultados rombos.

E assim termina o ataque do pirata francês à Ribeira Grande...

...a consolação que historicamente restou aos enganados ilhéus foi terem ficado a saber que a seguir a esse saque Cassard foi para França, onde acabou preso.

In: "A morte do Ouvidor", de Germano Almeida, pgs 121 a 124


A bem dizer, os ilhéus nunca se recuperaram dessa afronta. Tantos anos volvidos, ainda se conta com emoção o ataque de Jacques Cassard à ilha de Santiago, a 5 de Maio de 1712, ao comando de uma frota de 12 navios.

Os corsários ocuparam uma boa parte da ilha, tendo o bispo da Diocese de Santiago de Cabo Verde à época, D. Francisco de Santo Agostinho (1708-1719), retirado para o interior, onde reorganizou as forças de defesa, liderando a resistência e incentivando o contra-ataque. Na retirada, os corsários levaram tudo o que conseguiram transportar...

Deste livro, fiz há algum tempo um post no qual apresento o co-narrador Luís Henriques que mantém com o narrador conversas deliciosas. Cada um tem a seu cargo a narração de acontecimentos de determinados anos, dentro do espaço temporal em que que decorre este romance histórico.

Voltarei com mais uma ou outra passagem.

Tenham uma boa semana, meus amigos.

Saúde!

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Imagens net : Forte de São Filipe, Santiago , Cabo Verde

Ribeira Grande de Santiago - hoje Cidade Velha

Maria Parda - Ribeira Grande de Maria Parda

sábado, 19 de maio de 2012

Memórias de um espírito

Morri precisamente às cinco da tarde de um dia 30 de Setembro. Calhou que justamente nessa manhã eu tinha completado mais um ano de vida e a Alda estava numa grande azáfama nos retoques finais de um jantar que queríamos oferecer aos amigos mais próximos e também a mais uns quantos esfomeados da cidade de Mindelo. Mas de repente caí no chão. Redondo, sem um ai, como um desamparado saco de batatas mal cheio.
Lembro-me perfeitamente: nada daquelas confusões de tonturas que fazem uma pessoa agarrar-se aos móveis mais próximos e levar na cambalhota tudo o que estiver à mão. Não senhor! Foi uma queda limpa, elegante, como se estivesse preparando uma sessão de flexões de braços na alcatifa da sala. Felizmente! De contrário todo o nosso serviço de cristal, uma porradaria de copos de tamanhos variados que estava já sobre a mesa, teria tombado comigo, e agora é que se poderia dizer e com razão que por cima da queda, coice! porque seria um  prejuízo bastante considerável e eu mesmo ficaria cheio de pena, pois ainda que não seja particularmente bonito, está carregado de recordações pessoais e familiares, na medida em que há anos o tinha comprado na Casa Serradas, com pagamento a prestações, para oferecer à Alda como prenda de homenagem aos primeiros cem dias da nossa vivência.
(...)a Alda olhando-me com ar severo de quem se prepara para dizer, estas não são horas para brincadeiras de mau gosto! Fiquei, pois, à espera, só para ver como ela iria reagir àquela emergência inesperada, mas ainda se ria: Hoje não, disse enquanto me dava um pontapé na ilharga, hoje não está um bom dia para brincadeiras, estou cheia de trabalho, vem antes ajudar a Rosa a limpar os talheres. E baixou-se para me apertar o nariz, uma coisa que fazia sempre que me dava na cabeça fingir-me de morto.
Foi só então que deve ter reparado nos olhos do meu corpo, porque foi nesse momento que gritou, um grito que certamente me teria assustado se ainda estivesse vivo. (...)

As memórias de um espírito
Germano Almeida
excertos - pgs 11,12,23



Imagem:Internet