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terça-feira, 10 de agosto de 2021

O Ar Da Minha Dama



Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.



(A seguir, tradução de Jorge de Sena)

Tanto gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: — Suspira.

(Encontrará aqui várias outras traduções do soneto, contando-se entre elas uma de Vasco Graça Moura. 
Veja de qual gosta mais.)


Dante Alighieri, 1265-1321, foi um escritor, poeta e político florentino. É considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana, definido como il sommo poeta. Disse o escritor e poeta francês Victor Hugo (1802-1885) que o pensamento humano atinge em certos homens a sua completa intensidade, e cita Dante como um dos que "marcam os cem graus de gênio". E tal é a sua grandeza que a literatura ocidental está impregnada de sua poderosa influência, sendo extraordinário o verdadeiro culto que lhe dedica a consciência literária ocidental. Leia mais aqui

Consta que Beatriz de Folco Portinari teria sido a grande musa de Dante na construção de La Divina Commedia, a sua epopeia teológica.






Boa semana, meus amigos.

Abraço


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Poema: in 'Poesia de 26 Séculos, Jorge de Sena'
Imagem:
"Dante e Beatrice no jardim", 1903, obra de estilo pré-rafaelita
do pintor italiano Cesare Saccaggi.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Será isto o inferno de Dante?

O País continua a arder. Ainda não terminou um fogo e começa logo outro num ritmo alucinante, sem descanso para este povo que vê os seus pertences desaparecerem nessa voragem. Fogo que parece ter pernas, que salta de uma estrada para a outra e avança na vegetação como se fosse uma inundação, inundação mas de chamas. No outro dia fiquei boquiaberta a olhar para aquilo, não querendo acreditar nos meus olhos. E então o meu coração confrange-se perante a aflição das pessoas, desamparadas, com labaredas a aproximarem-se, de balde na mão, atirando a pouca água às paredes das casas, ao chão circundante. E o vento que não dá tréguas, numa dança brincalhona. E os bombeiros, vejo-os translúcidos mesmo no meio das chamas, confundindo-se com elas, também eles ajeitando as mangueiras, gritando mais mangueira, numa luta desigual e inglória. No fim, só cinzas e paisagem negra. Custa-me a acreditar que no meio disto haja o fito do lucro, como se ouve por aí. Seria muito cruel.