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sábado, 1 de julho de 2023

O tempo que nos cabe (ainda)

 


É dentro da cabeça,

lá dentro,

que o tempo nos consome

e nos faz falta.

Não há chuva morna

nem sol

que nos aqueça, quando

nos falta o sopro,

a luz, a cega fé que nos mantém

despertos, quando

por fora, o corpo

já anuncia a noite

mais profunda.

Por isso,

é dentro da cabeça,

cá dentro,

para lá dos céus,

antes que o mar termine,

nesta imensa confusão

de meridianos

que nos dói e nos deslumbra,

que se aloja o segredo

indecifrável:

a cor, o som, a luz

que nos conforta,

neste intensamente breve

instante

que é o tempo que nos cabe.




(1949-2022)


Escritor, gestor e jornalista, António Mega Ferreira nasceu em Lisboa em 1949, fez o curso de Direito na Universidade Clássica de Lisboa e estudou Comunicação Social na Universidade de Manchester, Inglaterra.

Tem mais de vinte títulos publicados, entre ficção, poesia e ensaio.
O seu livro de estreia como ficcionista, O heliventilador de Resende (1986).

Em 2002, foi-lhe atribuído o Prémio Camilo Castelo Branco da APE para o melhor livro de contos publicado no ano anterior, A expressão dos afectos.
Ver mais aqui



Feliz mês de Julho, meus amigos.

Abraços

Olinda


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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

Se não estivesses

 

 


Se não estivesses,
se a concha dos teus dedos
não fizesse vibrar em mim,
gota a gota,
a tua voz,
se não esticasses os braços
sobre um qualquer
espaço
que nunca será nosso,
se o teu sorriso
agora distendido
não se mostrasse todo
nos gestos do amor,
se a tua mão não procurasse
a minha, ou os meus dedos
não pudessem, ainda
que ao de leve,
tocar a ponta frágil dos teus cabelos
escuros,
se eu não encontrasse
em ti o meu olhar,
às vezes,
quando finjo que não vejo
o teu olhar
em mim,
se os dias não fossem
confortados
com a ideia de que existes
sensivelmente existes,
e que, por isso, de alguma
forma, eu sou em ti
a minha forma de existir
– estas palavras, as frases
que as expõem, o poema
em que tudo se articula, no íntimo
sentido que só existe
dentro do poema, tudo o que
é
e, ainda,
o que possa caber em nós, secretamente,
seria uma triste passagem
pelo que resta
e nem os meus olhos, e nem as minhas
lágrimas
diriam o que dizem;
porque a mão que escreve, o seu último
argumento, está
na concha dos teus dedos
e no gemido que atraiçoa
a tua voz.

António Mega Ferreira
     (1949-2022)


António Mega FerreiraRomancista, ensaísta, poeta e jornalista, licenciado em Direito. "O fervilhante fazedor que sonhou e realizou", como li algures, faz lembrar, mutatis mutandis, o primeiro verso do poema "O Infante" de Pessoa, em Mensagem, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.  Tido como o mentor da Lisboa contemporânea, é visto como um vibrante realizador de tudo quanto a que metia ombros.

De entre as mais de três dezenas de obras publicadas só constam dois livros de poemas. Para ele a Poesia:

"É a arte da decantação. Digamos que em relação à poesia o meu grau de exigência é obsessivo, quase patológico. Não estou em paz com a minha poesia, e não estando em paz, o melhor é não publicar porque já sei o que me vai acontecer (...). A poesia é, de facto, a disciplina suprema (...). É conseguir chegar abaixo do osso de qualquer coisa que não é osso", disse quando lhe perguntaram da exigência da escrita." 
Ver mais aqui




Et si tu n'existais pas



Bom fim de semana, amigos.

Abraços
Olinda


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Poema: daqui