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terça-feira, 25 de março de 2014

Uma cidade...pode ser apenas um rio, uma torre, uma rua com varandas de sal e gerânios de espuma... pode ser um coração, um punho



Uma Cidade


Uma cidade pode ser 
apenas um rio, uma torre, uma rua 
com varandas de sal e gerânios 
de espuma. Pode 
ser um cacho 
de uvas numa garrafa, uma bandeira 
azul e branca, um cavalo 
de crinas de algodão, esporas 
de água e flancos 
de granito. 
                      Uma cidade 
pode ser o nome 
dum país, dum cais, um porto, um barco 
de andorinhas e gaivotas 
ancoradas 
na areia. E pode 
ser 
um arco-íris à janela, um manjerico 
de sol, um beijo 
de magnólias 
ao crepúsculo, um balão 
aceso 

numa noite 
de Junho. 

Uma cidade pode ser 
um coração, 
um punho. 

Albano Martins
in "Castália e Outros Poemas”

imagem: daqui

segunda-feira, 17 de março de 2014

Poesia Haiku: Um caminho pessoal de despojamento e de procura do essencial (1)






1

Ter à sua porta
o mar:
exportá-lo

2

Diz o vento
ao mar: sem mim,
não podes voar.

3

Velozes, as ondas
procuram a praia: regressam
a casa?

4

Os barcos
na areia: pássaros
em repouso.

5

Na crista das ondas
fazem ninho
as gaivotas.

6

Diz o vento
ao mar: sem mim,
não podes voar.

7

Ao luar, uma vela
é também
uma estrela.

8

Peixes: os sobreviventes
dos antigos
naufrágios.

9

Por que é que os peixes
dormem
de olhos abertos?

10

Algas: os cabelos
das rainhas do mar
destronadas.

11

Disse a terra
ao mar: cala-te,
quero dormir!

12

Faz do mar
a tua casa,
mas tira-lhe o sal e a espuma.

13

Há um navio
afundado
com todo o passado à proa.


Albano Martins

in:

DE FRENTE PARA O MAR, pgs. 12 a 23, Colectânea integrada por dez poetas portugueses e organizada por David Rodrigues que, no prefácio, nos diz, entre outras coisas:


A poesia haiku com a sua postura não didáctica, centrada no momento e no presente, frugal na expressão e ligada à Natureza constitui uma afirmação de valores que vão contra-corrente dos valores hodiernos da comunicação pessoal e social e da vida quotidiana das sociedades industrializadas. Assim, escrever haiku não é linearmente equivalente a escrever qualquer outro tipo de poesia: pressupõe - como dizia um dos seus maiores cultores, Matsuo Bashô - a procura de um conjunto de valores, uma via de transformação pessoal que aproxima o caminhante de uma visão do mundo da qual emerge a atitude e a escrita haiku. Um caminho pessoal de despojamento e de procura do essencial. (...)



Retrato e poema de Matsuo Bashō pelo artista Yokoi Kinkoku
Este quadro data de cerca de 1820, e portanto é da Era Edo

NOTA: No citado livro os poemas não vêm numerados. Cada poema ocupa uma página.
Imagem: net