quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Partícula de Deus

Num sono solto, sentia que não estava sozinha. Algo etéreo incidia nos meus olhos, ora um pouco para lá, ora um pouco para cá. Como uma brincadeira. Abri um olho, depois o outro. Das frinchas da janela uma sombra alegre e esvoaçante dançava, acenando-me num chamamento. Pé-ante-pé fui ver, já com um sorriso nos lábios. As folhas da árvore envoltas na leve brisa saudaram-me e então dei uma gargalhada. Escancarei a janela, um Sol de inverno, suave, inundou-me e deu-me, mais uma vez, as boas-vindas. Um mundo lindo, perfeito, e eu faço parte dele... parte integrante da partícula de Deus, uma evidência preexistente que todos os dias se renova e nos faz sentir que vale a pena viver.


FELIZ ANO NOVO

Imagem google


VER:    
A partícula de Deus
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Aproxima a boca da nascente


Aproxima a boca da nascente:

não te importes
se for silêncio só
o que te chega aos ouvidos:
é música
ainda. Tenta uma vez mais
levantar a mão até ao bafo
da primeira estrela,
a pupila atenta
ao rumor de cada sílaba:
não tens outro país, não tens
outro céu.
Com a boca, com os olhos,
com os dedos
procura tocar a terra cheia
do teu coração.
Outra vez.

Poema de:
Eugénio de Andrade
in O Sal da Língua


FELIZ NATAL MEUS AMIGOS



foto:minha

domingo, 18 de dezembro de 2011

Viajantes no Tempo

Era só fazer uma pequena trouxa, pegar no menino e sua mãe, e fugir. Para onde? Talvez para a terra onde, por ironia do destino, os seus antepassados tinham sido escravizados. Assim ficariam longe da alçada dos seus perseguidores... Se ele pudesse ler o futuro veria que este menino, depois do regresso à terra prometida e já adulto, não teria a vida facilitada. A solução estaria em fugir de novo ou ficar. Uma escolha que já não seria dele, José.

Ao longo dos tempos, muitos têm sido confrontados com esta realidade: ter de partir para terras desconhecidas em busca de liberdade e melhores condições de vida. Dir-se-á que muitos migrantes correm pelo gosto de aventura ou para conhecer novos mundos. Mas haverá, sempre, por trás, um motivo que parece incontornável, de emergência.

É interessante verificar que nestas migrações forçadas, ou não, se dá a nossa renovação cultural e a abertura de novos ideais. É um caminho que se alimenta de cruzamentos entre quem chega e quem acolhe. Um acolhimento que nem sempre se pauta por sentimentos de solidariedade...


Hoje, assinala-se o Dia Internacional dos Migrantes. clique



Imagem : Oferta da amiga Maria Alice Cerqueira
http://www.mariaalicecerqueira.com/

DESPEDIDA




'O mundo e a música ficaram mais tristes hoje...'
Canto da Boca -Brasil & Cabo Verde


De:

'À Cesária Évora

Deste mundo eis que em doce despedida,
De humana história e que hoje não é mais;
Vertem prantos que no chão concebe a vida,
E que o chão acolhedor transforma em paz...

Do descanso almejado em tristeza e candura,
De singela despedida que a alma ora encerra;
Vão consigo seus segredos, alegria e doçura,
Vão as rosas, seu sorriso, e junto a terra...

Encerrada aura, dessa estrela radiante,
Que abrigada no negrume aconchego,
Apagado mundo tão soturno e silente...

Jaz segredos nessa esfera que a alma desce,
Tão espesso que de Deus emana u'a Luz,
Que triunfa sobre credos, sobre fé, bendita prece...'



(Clicar, p.f., nas referências)

sábado, 17 de dezembro de 2011

SODADE


CESÁRIA ÉVORA, sempre!






Imagem Google:Cabo Verde

Algures dentro de mim


Algures dentro de mim
uma nascente.
A merecê-la que cântaro?
Que canto?


Sinuoso
vertente
só precário
o trilho das palavras


A dor transborda
a sede permanece.


Rosa Lobato Faria
In 'As Pequenas Palavras'

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Homens do Presente


Homens do presente, nada no passado,
Antes de serdes as coisas que vemos,
Quem podia ter sabido ou pensado
Que seríeis hoje aquilo que temos?
Ah, passantes pela mesma via,
Quem pôde pensar-vos antes deste dia?


Homens do presente e pó de amanhã,
Ao passar dos anos aonde ireis ter?
Que rude mudez ou ânsia em pressa vã
Irá registar vossa dor e prazer?
Ondas ou cristas do mar desta vida
Quem vos pensará passado este dia?


Só o génio pode o fogo atiçar
Que na natureza em vós abrigais;
Só o génio pode a lira tocar
E erguer vosso nome aos céus dos mortais;
O génio pode a morte romper
E o nada de ontem num tudo verter.


Mas a virtude, como os choros humanos,
Pelos areais depressa bebida,
Mergulha no pó dos passados anos
E nem sabereis onde está escondida.
Que o génio, então, possa ser laureado;
Que o pó de amanhã seja eternizado

(Heterónimo F.Pessoa)

Poema de 1904:


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Levantar-me-ei de novo?

Um pouco à deriva, de joelhos dobrados, com estranhos cá dentro de casa a mandar e a desmandar pensei que jamais conseguiria soerguer-me sequer. Uns atrás dos outros, praticamente da mesma família, eles foram surgindo cada um impondo o seu ponto de vista e as suas exigências, aproveitando as brechas que eu não tapei. 
O tempo foi passando, com tudo a cair aos pedaços já não me reconhecia a mim nem aos meus. Passaram-se sessenta anos, mais ou menos, sobre a data em que o meu rei-menino, a minha esperança, resolvera ir perecer, levando as melhores promessas do meu reino, lá por terras de África. Chegou uma altura em que parei para pensar e perguntar-me para que lado é que eu queria ir. Aguentei até quase me faltarem as forças, mas ainda tive as suficientes para levantar a cabeça, endireitar o tronco e fazer-me ouvir. 
Ainda consegui reunir umas quantas cabeças pensantes. Conjugando esforços, delineando metas e o futuro próximo, gritámos: basta! Refiz a minha independência, não foi fácil tudo o que se seguiu, mas recomecei a pensar por mim mesmo e a trabalhar para reerguer todo o edifício que estava quase em ruínas.
Hoje, parece-me, sigo pelo mesmo caminho. São outros tempos, as coisas acontecem com uma velocidade estranhíssima. O que é hoje uma coisa amanhã já não é. As alianças que se fazem presentemente têm o valor de coisa nenhuma. Outros são os senhores do mundo. Os paradigmas são outros. A democracia, em todo o espaço em que eu estou inserido, apresenta-se periclitante. Com o presente e o futuro comprometidos, pergunto-me: Conseguirei levantar-me de novo?