domingo, 31 de agosto de 2025

O Tejo






XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.


Alberto Caeiro






Lara Brenner
Sobre o poema, sobre Fernando Pessoa,
sobre os heterónimos, sobre o Tejo, 
símbolo de
poder ...




Abraços, amigos.


Olinda





====

7-3-1914

“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).

  - 46.
“O Guardador de Rebanhos”. 1ª publ. in Athena, nº 4. Lisboa: Jan. 1925.
In: Arquivo Pessoa
Ver Fernando Pessoa aqui, no Xaile de Seda

terça-feira, 26 de agosto de 2025

O pipo

  Imaginem uma dúzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um pipo de vinho. Como nenhum deles tem mais direito que os outros a beber do pipo, combina-se que cada um ponha a boca ao espicho e beba enquanto os pontapés dos outros o não contundirem até ao ponto de o obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida pelos golpes aplicados pela companhia. É exactamente o que há muito tempo tem sido feito pelos partidos portugueses com relação ao usufruto do poder que eles acharam na estrada, perdido.

Chegou finalmente a vez de pôr o pipo à boca a um partido excepcionalmente valoroso de sede e incontundível de fibra. Este partido não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações escandalizadas, de almocreves, retroam.

_Este partido abusa!

_Isto não vale!

_Isto não é jogo!

_Ele esvazia o pipo!

_Larga o pipo, pipa!

_Larga o pipo, pimpão!

_Larga o pipo, ladrão!




E incitam-se uns aos outros até à ferocidade:

_Chega-lhe rijo!

_Mais! Que lhe doa bem!

_Rebenta-me esse odre!

_Racha-me esse tonel!

_Ah, cão!

  O partido, porém, continua a beber, e é insensível a tudo: à dor, ao insulto, ao chasco, ao impropério, à graça pesada, à insinuação pérfida e à alusão venenosa!

  Em vista de tal pertinácia, que nós mesmos somos forçados a taxar de irregular, os partidos em expectativa do pipo confederam-se, ferem o pacto da Granja, constituem-se num só partido novo - numa só boca para o pipo. Fazem um programa, redigem um manifesto, vão de terra em terra pedindo ao País que intervenha. Precisamente lhes ocorreu esse momento que o pipo tem dono! Que é do País o pipo! (...)

Ramalho Ortigão, As Farpas


NOTA:

Meus amigos,

Desculpem o atraso na moderação dos comentários.

Estive fora, mais a Sul.

Abraços

Olinda


====

In: Diário da Liberdade, pg.303, de Aniceto Afonso
Imagem: pixabay
Ver Ramalho Ortigão aqui, no Xaile
Pacto da Granja - aqui

sábado, 23 de agosto de 2025

Depus a máscara


Comemoração dos 16 anos do 

blog Espiritual-Idade

da amiga Rosélia Bezerra




Tema proposto:
Máscaras Sociais



***


Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a 
um terminus de linha.

Álvaro de Campos, 
in "Poemas"

 
***



A infância tempo de ingenuidade
de inocência e de amor
As falsidades não têm espaço
tudo é translúcido na sua
forma de ser e de proceder

Depois crescemos e vemos
o mundo a transformar-se
primeiro com olhos espantados
a seguir tentando compreender

Na voragem dos dias assimilando
o que a sociedade nos transmite
mas tendo sempre em conta
os valores dos nossos pais

O mundo dá voltas e mais voltas
E analisamos aquilo que nos chega
O que nos faz bem e o mal
que nos poderá atingir

Com estranheza vemos a hipocrisia
que grassa e assim aos poucos
com a consciência atenta tal como
 o Poeta dizemos:

DEPUS A MÁSCARA !


Olinda



PITTY
MÁSCARA

 

OS MEUS PARABÉNS, QUERIDA ROSÉLIA

VIDA LONGA AO 

ESPIRITUAL-IDADE


***



Selo de participação
ofertado pela Rosélia

(Fui buscá-lo à Chica pois não consegui copiá-lo
do original)


===

NOTA:

Meus amigos,

Desculpem o atraso na moderação dos comentários.

Estive fora, mais a Sul.

Abraços

Olinda

====
Poema de Álvaro de Campos, in Citador - já publicado no Xaile de Seda, aqui

Imagem: Máscara: Blog da Rosélia