De vestido de chita, cabelos ao vento, ela segue olhando ao seu redor com olhar curioso. Tudo lhe interessa: as pedras da calçada que fazem desenhos tão interessantes, talvez de tempos idos; admira essa arte e a paciência de quem, de cócoras, afaga os paralelepípedos até se encaixarem nos respectivos lugares; os azulejos que enfeitam as paredes de prédios de outrora, muitos deles, todos com motivos surpreendentes. Pega no telemóvel e vai registando alguns. Regra geral, prefere olhar, interiorizar, registar mentalmente. Dá outro sabor ao passeio. Sente-se apenas ela e os elementos que a envolvem. A um canto sob uma reentrância vários bocados de papelão a tapar pertences em sacos de plástico de alguém que estará algures, mas bem perto. Um abrigo quase permanente para passar a noite. Ela ouve um apito. Um barco-cruzeiro passa não muito longe. Leva dentro o sonho de uns dias bem passados, com passagem por vários portos. Sonho de uns dias, para depois se voltar ao rame-rame habitual e enquanto assim for tem-se de dar graças a Deus. Que o mundo não está para graças. Passa pelo mercado, uma obra de arte lá dentro, nas paredes painéis de azulejos retratando as várias actividades. Atenta, ouve queixas daqui e dali. Tudo caro. Tudo pela hora da morte. Em poucos dias, os artigos de primeira necessidade subiram de tal modo que quase se não lhes pode chegar. Então peixe e carne, um luxo. Na ansiedade e pânico das carências, quem pode enche os carrinhos, nos supermercados, com artigos de vária ordem, ou seja, açambarcando aquilo que pode fazer falta a outros de poucas posses. Ela olha à volta. Vislumbra uns belos limões. Era do que precisava.
Bom domingo, amigos.
Abraços
Olinda
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Foto da filha- Alentejo
A Rosinha dos Limões-Letra e música de Artur Ribeiro- aqui
Canção interpretada por Max