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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

"Os Seareiros"

Há cem anos um grupo de intelectuais resolve criar uma Seara Nova onde pudesse lançar sementes e cultivar ideias e espírito crítico, inicialmente com fins pedagógicos e políticos. Com efeito, esses intelectuais reunidos em torno do projeto editorial definiram-na como "de doutrina e crítica", tendo como objetivo, como se lê no editorial do N.º 1, datado de 15 de outubro de 1921, ser de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes. 

Era hora, na verdade.


Decorria a Primeira República que se caracterizava por desinteligências políticas, convulsões sociais e crimes públicos, sucedendo-se Parlamentos, Governos e Presidentes da República. Infelizmente, como que a dar-lhes razão, a 19 de Outubro verifica-se o episódio da Noite sangrenta que cobre o País de vergonha. No numero 2 da Revista, a 5 de Novembro, Raúl Proença dá o devido destaque crítico, repudiando tão bárbaro acontecimento.

E continuando o descalabro, a 28 de Maio de 1926 entra-se na fase da Ditadura Militar e, posteriormente, no regime político ditatorial, autoritário, autocrata e corporativista que fica conhecido por Estado Novo e que dura 41 anos (1933-1974). Durante esse tempo, com alguns hiatos, os Seareiros prosseguem o combate ideológico ao regime, mau grado a censura e as dificuldades financeiras. 

E chegados a este nosso tempo a Seara Nova prevalece pelo esforço, competência e dedicação dos seus Colaboradores. 

Este é o ano das Comemorações do Centenário que se estendem a 2022, com múltiplas actividades culturais, como sendo:

Exposição Itinerante "Seara Nova"100 anos de acção e Pensamento
Crítico - 5 de Outubro de 2021 a 4 de Junho de 2022
Várias cidades de Portugal
Continental

"Seara Nova - 100 anos de acção e Pensamento Crítico" em Lisboa
Biblioteca Municipal de Alcântara, Lisboa

Exposição para Venda
Setembro de 2021 a Outubro de 2022
Portugal Continental e Ilhas

Exposição e Colóquio "Seara Nova: Editora de Livros"
15 de Setembro de 2021 a 31 de Dezembro de 2021
Biblioteca Nacional de Portugal

Destaque de Colecção
6 de Setembro a Dezembro de 2021

Veja mais aqui:
 
Centenário - Seara Nova, onde encontrará um resumo da vida da Revista bem como os nomes dos seus Fundadores e Colaboradores ao longo do tempo.

De entre os actuais Colaboradores destaco o nosso amigo, o Poeta Manuel Veiga, Jurista, membro do Conselho Redactorial e que também faz parte da Comissão Promotora das Comemorações.




A importância da presença e acção da Seara Nova na vida portuguesa falam por si. Termino, transcrevendo uma frase do editorial do primeiro número, que trago do seu site:

«Possam os homens de boas intenções de todas as Pátrias erguer um dia, sobre um mundo que ainda hoje se debate em miseráveis disputas nacionalistas, o arco-de-aliança duma humanidade justa e livre, realizando na paz vitoriosa as conquistas da inteligência e da vontade desinteressada!».


Vida longa, Seara Nova!

                            Bem-hajam, Seareiros!



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Veja no Xaile de Seda - aqui
Desaires da 1ª República
Heróis Trágicos da República

Imagens: daqui e daqui

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Heróis trágicos da República

Os valores da República ou os que deveriam nortear a República são relembrados todos os anos. De um ano ao outro parecem, contudo, ser esquecidos. Com isto não quero dizer que não haja gente de muito boa vontade que trabalhe para o bem comum. Sempre que as instituições claudicam temos todos a esperança de que apareça alguém que lhes deite a mão. Temos impregnada em nós a síndrome do encoberto, de que alguém aparecerá do nada para resolver os nossos problemas. Acabamos por não avaliar verdadeiramente o que está mesmo à frente do nosso nariz. Especialistas em aplicar paninhos quentes, enrodilhamo-nos em casos que seriam anedóticos se não tivessem um cariz de muita gravidade.

Voltando ao passado, relembro aqui três homens de quem já falei em outras publicações deste blog. A diferença é que os apresento, desta feita e por minha conta e risco, com a auréola de heróis trágicos, no contexto da 1ª República. Não direi que trazem todas as características do herói trágico de Aristóteles. Só que noto neles uma heroicidade e uma tragédia que me fazem pensar e que me incomodam pelo insólito das suas mortes.

Conspiradores, revolucionários, republicanos. São eles, Miguel Augusto Bombarda, Carlos Cândido dos Reis e António Machado Santos. Os dias 2, 3 e 4 de Outubro de 1910, seriam cruciais nas suas vidas, acreditando eles que iriam todos poder festejar a implantação da República. Reza a História que Miguel Bombarda é atingido mortalmente por um doente mental, no dia 3; Cândido dos Reis, à ultima hora, é invadido por dúvidas e suicida-se no dia 4; quem se aguenta até ao fim é Machado Santos que ficou conhecido como o "herói da rotunda", mantendo depois uma vida política activa, para vir a ser assassinado na noite sangrenta, de 19 de Outubro de 1921, quando a camioneta fantasma andou a ceifar vidas, caçando-as nas suas casas e, em muitos casos, no seio das suas famílias.

Machado Santos seria feito senador e ocuparia cargos ministeriais no governo de Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, o mesmo Sidónio Pais que com um golpe de Estado ascende a Presidente da República em 1917 e, de forma ditatorial, suspende e altera por decreto algumas normas da Constituição de 1911, inaugurando assim a República Nova. Com a auréola de herói, nasce o Presidente-Rei, epíteto grafado por Fernando Pessoa no seu extenso poema, "À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais".


"(...)
Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o ermo céu.
Mas a alma acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.
Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!
Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei
A Vida fê-lo herói, e a Morte

O sagrou Rei!
(...)"

Sidónio morre assassinado, a 14 de Dezembro de 1918, à entrada da estação de comboios do Rossio, criando-se-lhe assim a imagem de mártir. A sua acção no âmbito de uma República recém-nascida, com instituições criadas diferentemente do regime destituído a 5 de Outubro de 1910, deveria ser interpretada como? Poder-se-ia falar já em populismo esse bicho-de-sete-cabeças de que se fala tanto e quase ninguém sabe bem o que é?

Grandes transformações no panorama mental em relação a ideologias estão a verificar-se. Se há uns anos os espaços ocupados por partidos de esquerda e de direita eram compreendidos por toda a gente, hoje andamos à deriva. Suponho que os conceitos que lhes serviram de base estão um tanto esvaziados de conteúdo. E quanto a debate de ideias, ideários políticos? Tudo aponta no sentido de que estamos a viver já uma nova Era. Até onde nos levará é que é a grande incógnita.


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Ler no "Xaile de Seda": Os desaires da 1ª República


domingo, 5 de outubro de 2014

Desaires da 1ª República

Sempre me impressionou o facto de o Almirante Cândido dos Reis, o militar principal e um dos cérebros da chamada insurreição, se ter suicidado a 4 de Outubro, na véspera da proclamação da República. Diz-se que à notícia de que a Infantaria 16 teria saído para a rua e começado a fuzilar o povo e que ao rebate "Está tudo perdido...Está tudo perdido!", o nosso homem não resiste à pressão. Ele é depois encontrado morto na Azinhaga das Freiras. Mas, não teria ele a obrigação de fazer uma avaliação criteriosa e corajosa da situação? Que pânico aquele que o leva a pôr fim à vida? Ou não se trata de nada disso? 

E que dizer de Miguel Bombarda, médico, chefe civil da causa revolucionária, que é morto por um doido, seu antigo doente, como ele próprio ainda consegue dizer, no dia 3 de Outubro? Pela cidade corre a notícia de "Lá o mataram!". E várias especulações ainda vigoram. Machado Santos consegue segurar a coisa e ele e o seu grupo transformam-se nos "doidos" da Rotunda, pela eficiente resistência no Alto da Avenida da Liberdade, com pouquíssimos recursos.




Desde esse dia 5 de Outubro até ao golpe de 28 de Maio de 1926 decorre um período conturbado de dezasseis anos, pleno de convulsões sociais e desmandos políticos. Sucedem-se de forma alucinante, parlamentos (7), governos (39), presidências da república (8), e outras instituições.

Um dos exemplos desses desvarios é Sidónio Pais que em 1917 detinha o cargo de presidente do ministério (actual primeiro-ministro), acumulando-o com as pastas da Guerra e dos N. Estrangeiros, e que também toma para si o lugar de presidente da república, destituindo sumariamente Bernardino Ribeiro. Através de decretos altera a Constituição de 1911, governa de forma ditatorial, e a República passa a ser conhecida como a República Nova. Sidónio Pais é assassinado em Dezembro de 1918.

A situação criada por Sidónio é, no entender de alguns, precursora do Estado Novo. Com o golpe de 28 de Maio de 1926 pretender-se-ia sanar os problemas criados durante estes atribulados anos como, por exemplo, equilibrar as contas públicas. Para isso, são solicitados os serviços de António de Oliveira Salazar. 

Mas antes de Salazar e do Estado Novo temos a noite de 19 de Outubro de 1921, conhecida por noite sangrenta*, trágicaem que uma camioneta fantasma com pessoas dentro anda pela noite ceifando vidas, as vidas de António Granjo, então presidente do Ministério, Machado Santos e José Carlos da Maia, dois históricos da proclamação da República, o comandante Freitas da Silva, secretário do ministro da Marinha, o coronel Botelho de Vasconcelos, entre outros. 

É este o nosso país, o tal de brandos costumes
         
          Meus amigos desejo-vos um excelente dia.


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*Tomei contacto, pela primeira vez, com a realidade dessa noite trágica através de um jornal da época, quando, em tempos, pesquisava para um trabalho. Depois disso li A Noite Sangrenta, de José Brandão, de 1991, e outros escritos sobre a matéria.

-Imagem retirada da Net. 
Consta também da capa do Vol. XI da História de Portugal de Joaquim Veríssimo Serrão, sobre a 1ª República (1910-1926), mas um pouco mais recortada. Não é das minhas imagens preferidas.