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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Uma questão de perspectiva, talvez...





Comecei a achar que já não reconhecia aquela rua. Parecia-me muito pequena. Lembro-me que saía de Lombo do Meio para ir a Armazém e fartava-me de andar. A ponte que atravessava a vila tinha uma boa extensão. De um lado e do outro, agora, casas que me parecem sem traça, enormes. Os bancos da ponte desapareceram. Nas noites de lua cheia costumávamos percorrê-la dando uns bons passeios e neles nos sentávamos, contávamos anedotas, rindo às gargalhadas. E também nas noites escuras. Conhecíamos todos os desníveis da calçada. Nem um tropeço acontecia. A ribeira, seca em tempo de estio, também já não tinha aquela largura que eu atravessava a correr como se tivesse asas nos pés, alternativa para não passar pela ponte à saída da escola, quando queria fugir aos piropos dos rapazes. Não poucas vezes, nessa pressa, estatelava-me e então é que eram risos trocistas. Por conta disso, tenho boas marcas nos joelhos que o tempo conservou. Uma das minhas decepções foi já não ver o chafariz. O progresso fê-lo sumir restando apenas aquele recanto irreconhecível. Também as árvores-da-borracha, que davam uma bela sombra, foram arrancadas...



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imagem: net