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domingo, 19 de abril de 2020

Liberdade





Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

  (1888-1935)


Meus amigos

Convido-os a ler e a interpretar este poema de conformidade  com a vossa disposição. Um pequeno exercício para testar este conceito de liberdade.

Mas, adivinho aqui um "quero lá saber" do Poeta, jogando com algumas ideias feitas, valorizando outras. Será? Não façam caso.

De vez em quando deixamo-nos envolver por um certo nihilismo. Permitamo-lo apenas por momentos. Como bem sabemos, dos fracos não reza a história.





Bom domingo.

Abraços.


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Poema - Citador
Imagem : aqui

quarta-feira, 25 de março de 2020

Sentimentos e emoções em tempos de ... confinamento


Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?

Agustina Bessa-Luís






Um destes dias ouvi alguém, na rádio, discorrer sobre reciclagem de sentimentos.  Não ouvi toda a exposição pelo que não a sei reproduzir na íntegra. No essencial percebi a mensagem. A necessidade de revermos a nossa postura perante a vida e o nosso relacionamento com o outro. A pressa com que vivemos o dia-a-dia, a sobrevalorização de pequenas coisas que nos assoberbam, deixando para depois o mais importante e, acima de tudo, a reflexão necessária.

Estamos a viver em espaços confinados, todos juntos vinte e quatro sobre vinte e quatro horas e há que encarar isso no seu aspecto mais positivo. Sabemos que o confinamento pode levar-nos a situações de nervosismo, falta de paciência, um certo egoísmo em relação àqueles que nos rodeiam. Isso não quer dizer que, também, sentimentos de compreensão e harmonia não estejam nos nossos corações. Mas o nosso lado lunar aborda-nos, especialmente, em momentos de provação.

Por uma associação de ideias, tem-me visitado nos últimos dias o título de um livro de Gabriel García Marquez, O amor nos tempos de cólera. Nunca o li, não sei se o tema trata de cólera-doença, se de cólera-sentimento ou emoção. Seja qual for a sua vertente penso que se ajusta ao momento que atravessamos. Qualquer que seja a circunstância, cataclismo ou pandemia, o amor e a tolerância terão de sobreviver para que nós próprios possamos passar à fase seguinte. É um desafio que se nos coloca a nível físico e psicológico, que não dá tempo para nos prepararmos e sopesar os prós e os contras. O importante é que temos grande capacidade de adaptação e, ainda mais, de renovação e de inovação. Em ocasiões difíceis e de carência somos capazes de arranjar soluções, de dar um salto qualitativo, para a frente.

Temos notícias de laboratórios por todo o mundo a trabalhar afincadamente à procura de uma vacina que contenha este vírus; Contactos e mais contactos de conhecidos e desconhecidos no sentido de se providenciarem máscaras, luvas, ventiladores. Empresas que voltam a sua atenção para o fabrico desse material de suporte indispensável. Voluntários preocupados com os idosos, batendo-lhes à porta para saberem das suas necessidades. Pessoas oferecendo a profissionais de saúde kits de sobrevivência, num sinal de solidariedade e de muita ternura. Esses profissionais, médicos, enfermeiros, auxiliares, são os mais isolados e sacrificados de todos, sem poderem voltar para as famílias, enquanto durar a pandemia, sujeitos mais do que ninguém, ao contágio.

E que dizer das formiguinhas laboriosas que velam para que possamos ter água, luz, comida? Basta um telefonema e vêm a casa trazer-nos o necessário, dos supermercados, dos restaurantes. E as farmácias que continuam... E as transportadoras que nos trazem tudo e mais alguma coisa e, dentre elas, os imprescindíveis camionistas que atravessam fronteiras, e os padeiros...e o nosso lixo que é recolhido, nem sabemos a que horas. Tudo gente que corre grande risco, mas que continua porque a vida não pode parar.





Dos nossos sofás lamentamos o espaço exíguo, as limitações, a caminhada que não fazíamos mas agora apetecível, a ida ao café, ao restaurante, enfim ... aproveitemos este tempo para que seja um tempo de reflexão. 

O apelo é: "Fique em casa". E os sem-abrigo?

Boa quarta-feira, meus amigos.

Abraços.


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Projecto Radar

Imagem: aqui 

Citação de Agustina Bessa-Luis - Citador