Mordaças...A um poeta? Loucura! E por que não, Fechar na mão uma estrela. O Universo num dedal? Era mais fácil Engolir o mar Extinguir o brilho aos astros Mordaças a um poeta? Absurdo! E por que não Parar o vento Travar todo o movimento? Era mais fácil deslocar montanhas com uma flor Desviar cursos de água com um sorriso Mordaças! A um poeta? Não me façam rir!... Experimentem primeiro Deixar de respirar Ou rimar...mordaças Com liberdade
Este é o homem das palavras excessivas e emotivas, como vimos em "Não vou para Pasárgada" e "Os flagelados do vento leste", aqui publicados anteriormente. Nasceu em São Vicente, Cabo Verde, em 17 de Setembro de 1928. Poeta, jornalista, co-fundador do Suplemento Cultural (1958, São Vicente). O seu envolvimento em actividades de promoção da independência valeram-lhe a pena de prisão e o exílio nos Países Baixos. Em Ilha a ilha. Dor a dor,post deste Xaile de Seda, tive a oportunidade de falar sobre o seu posicionamento face ao evasionismo, no que diz respeito aos poetas cabo-verdianos da geração claridosa.
Ovídio Martins dedica o poema "O único impossível", a Baltasar Lopes da Silva, também poeta e publicado neste blog, por diversas vezes.
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Poema: "O único impossível", in No reino do Caliban
Concluir o post anterior "Vou-me embora para Pasárgada" ou fazer um novo mas continuando com o mesmo tema? Opto pela última hipótese, bem se vê. E digo-vos, meus amigos, que apreciei imenso os vossos esclarecidos comentários sobre este belo poema de Manuel Bandeira. Momento que pretendo reviver aqui, agora falando um pouco de Ovídio Martins e de outros poetas não menos talentosos que realizaram a ruptura com um mundo limitativo, e encontraram inspiração na Literatura brasileira.
Para já, o poema de Ovídio Martins que referi anteriormente, e dedicado a João Vário, o homem de palavras profundas que nos submergem num mar de reflexões desencontradas, como vimos no post, "Oh a maturidade não nega o que tememos".
ANTI-EVASÃO
Ao camarada poeta João Vário
Pedirei Suplicarei Chorarei Não vou para Pasárgada
Atirar-me-ei ao chão e prenderei nas mãos convulsas ervas e pedras de sangue Não vou para Pasárgada
Gritarei Berrarei Matarei Não vou para Pasárgada
Porquê este grito de rebelião? De Ovídio Martins sabemos que ele não deixa as coisas por dizer, nem as deixa a meio caminho. Assim o vemos em "O único impossível", no qual lança o repto de "mordaças a um poeta?" e ainda "Flagelados do vento leste", A nosso favor/não houve campanhas de solidariedade/não se abriram os lares para nos abrigar/e não houve braços estendidos fraternamente para nós,poema vivo, homónimo da obra de Manuel Lopes.
Detenhamo-nos aqui, com Manuel Lopes. Com ele e com Baltasar Lopes (da Silva) e Jorge Barbosa, da geração de '36. E é Baltasar que nos diz: Tínhamos um problema. Um problema que tinha de ser resolvido e, para isso, tiveram de ir beber longe a forma e o modo de o fazer. Os homens da Claridade, rompendo com o status quo vigente inauguram uma poesia de entrega e pertença, comungam da partilha da fome, da seca, do chão que se estiola a cada ano, da morte vivida a cada instante. Mas também, a par e passo, de um certo pendor evasionista.Uma tendência literária tão centrada em Pasárgada que aparece grafada como pasargadismo. Algo chamado agora, por alguns, de terra-longismo.
E Pasárgada começa a representar uma possibilidade bastante tangível mas também uma quase-obsessão, em termos literários. Se Manuel Bandeira escrevera o poema num momento de puro desânimo, segundo ele próprio, visionando esse campo dos persas como um país de delícias, para os poetas cabo-verdianos representa um lugar de evasão e demonstram-no em diversas criações.
Baltasar Lopes da Silva (Osvaldo Alcântara), em Rapsódia da Ponta-de-Praia, na revista Claridade no qual a voz poética quer se evadir de um arquipélago colonial imerso na miséria: “Eu vou-me embora/ não vou ficar mais/ avassalado/ pelo Astral Inferior,/ vou fugir/ naquele Grange/ ou naquele suíço. Em 1986 publica Cântico da manhã futura onde insiste, em vários poemas, no tema Pasárgada. Do mesmo modo Jorge Barbosa ao utilizar a palavra “evasão” como um desejo, reafirmava em Poema do mar, na Claridade n. 8, de Mai. 1958, os poetas claridosos e sua revista enquanto adeptos do evasionismo: “Este convite de toda a hora/ que o Mar nos faz para a evasão!/ Este desespero de querer partir/e ter de ficar”*
E deixando muito por dizer sobre essa época fecunda,foquemo-nos em Ovídio Martinsque veio abalar essa estrutura, afirmando-se anti-evasionista e vendo em Pasárgada, visão querida dos poetas da velha guarda, uma forma de fugir ao que deveria ser realmente resolvido. Gerador de polémicas, obviamente. Voltaremos a ele, numa outra ocasião, para falar disso e do que o movia.
Mas, antes, guardemos em nós este verso do poema "Ilha a Ilha": Cá vamos nós reconstruindo o país. Devagar, é certo, mas avançando. Ilha a Ilha. Dor a dor.* Entretanto, e aproveitando a época que atravessamos, pensemos um pouco na passagem para o novo ano, de como queremos fazer a transição do velho para o novo, do que desejamos deitar para trás das costas, do que não presta, e almejar vivências novas. Também evasões, naturalmente. Sem deixar de resolver problemas de fundo ou aqueles que vão surgindo, decorrentes do nosso quotidiano, há momentos em que o nosso espírito precisa de descanso, de ser alimentado com o que cada um de nós enquadra na sua própria maneira de ser. E há todo um mundo à nossa espera, dentro de nós e lá fora.
CORNEILLE
Parce qu'on vient de loin
Bom fim-de-semana, meus amigos. Abraços.
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Ovídio Martins dedica "Flagelados do Vento Leste" a Manuel Lopes
e "O único Impossível" a Baltasar Lopes.
In: No Reino de Caliban, pgs 180 e 181/182, respectivamente.
Poema ora publicado: Anti-Evasão, dedicado a João Vário, pg.186
não houve campanhas de solidariedade
não se abriram os lares para nos abrigar
e não houve braços estendidos fraternamente para nós
Somos os flagelados do
Vento-Leste! O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento o bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos
Somos os flagelados do Vento-Leste! Morremos e ressuscitamos todos os anos para desespero dos que nos impedem a caminhada
Teimosamente continuamos de pé num desafio aos deuses e aos homens E as estiagens já não nos metem medo porque descobrimos a origem das coisas (quando pudermos!...)
Somos os flagelados do Vento-Leste!
Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos
E as vozes solidárias que temos sempre escutado
São apenas as vozes do mar
que nos salgou o sangue as vozes do vento
que nos entranhou o ritmo do equilíbrio e as vozes das nossas montanhas
estranha e silenciosamente musicais
Nós somos os flagelados do Vento-Leste! (Claridade - 1962)