Mal tinha falado quando de súbito a nuvem que os envolvia se rasga e se dissipa na extensão do éter. Eneias surgiu resplandecente de uma clara luz, com os traços e a majestade de um deus: pois a própria mãe, com o seu sopro divino, dera ao filho uma cabeleira magnifica e o esplendor corado da juventude, e enchera os seus olhos de uma luminosa beleza. Tal o encanto que emprestam ao marfim as mãos do artista, ou o que a prata ou a pedra de Paro recebem do ouro amarelo.
Então ele dirige a palavra à rainha, diante da multidão espantada da sua presença imprevista, diz-lhe: «Ei-lo, aquele que buscas, o troiano Eneias, arrancado às ondas da Líbia. Ó tu, que és a única a apiedar-te das desgraças indizíveis de Tróia, tu que abres a tua cidade e a tua morada aos restos do furor do Dánaos, extenuados por todos os reveses sofridos sobre a terra e sobre o mar, e destituídos de tudo o que há no mundo, não, não está na nossa mão, Dido, reconhecer dignamente os teus benefícios, nem tão-pouco na mão do que resta da nação dardânia, dispersa sobre a vasta terra. Que os deuses, se existem favoráveis à piedade, se a justiça e o amor do bem têm algures a sua paga, te proporcionem as riquezas de que és digna. Que séculos afortunados te viram nascer? Que pais ilustres deram à luz uma princesa como tu? Enquanto os rios correrem para o mar, enquanto as sombras das florestas cobrirem os flancos das montanhas, enquanto o céu alimentar as constelações, a tua glória, o teu nome e os teus louvores permanecerão sem cessar entre nós, seja aonde for que o destino me chame.» Tendo dito, ele estende a mão direita a Ilioneu, seu amigo, a esquerda a Seresto, em seguida aos outros, ao valente Gias, ao valente Cloanto.
A ENEIDA, Virgílio, - pgs 25/26
A ENEIDA, Virgílio, - pgs 25/26
Do Século I a.C convoco Virgílio com a sua obra A Eneida, para preencher as minhas horas de ócio. Que o ócio não é coisa pouca. Em sua defesa diz-se que se trata de momentos de criação e reflexão. Uma forma de estar. Postura filosófica. E é com este espírito filosófico que deveremos percorrer os livros das nossas estantes à procura deste ou daquele que, em dado momento, poderá levar-nos a viajar para tempos outros.
E connosco as personagens, apresentadas num ritmo poético e grandiloquente no qual entrevemos intrigas, batalhas, heróis, deuses. Mitologia pródiga que disponibiliza um deus para cada circunstância.
Bem precisados estamos agora...
Bom fim-de-semana, amigos.
Abraços
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Imagem: Eneias abandonando Dido - net
