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domingo, 9 de abril de 2023

Lídia/Lydia

 

Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]

Sofro, Lídia, do medo do destino.

Qualquer pequena cousa de onde pode

Brotar uma ordem nova em minha vida,

        Lídia, me aterra.

Qualquer cousa, qual seja, que transforme

Meu plano curso de existência, embora

Para melhores cousas o transforme,

        Por transformar

Odeio, e não o quero. Os deuses dessem

Que ininterrupta minha vida fosse

Uma planície sem relevos, indo

        Até ao fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca

Amor ou justa estima dessem-me outros,

Basta que a vida seja só a vida

        E que eu a viva.

Sofro, Lídia, do medo do destino. [2]

Sofro, Lídia, do medo do destino.

A leve pedra que um momento ergue

As lisas rodas do meu carro, aterra

        Meu coração.

Tudo quanto me ameace de mudar-me

Para melhor que seja, odeio e fujo.

Deixem-me os deuses minha vida sempre

        Sem renovar

Meus dias, mas que um passe e outro passe

Ficando eu sempre quase o mesmo, indo

Para a velhice como um dia entra

        No anoitecer.













BRISA DE VERÃO

“Deixemos, Lydia, a ciência que não põe
Mais flores do que Flora pelos campos,
Nem dá de Apolo ao carro
Outro curso que Apolo...”

Ricardo Reis – in Obra de Fernando Pessoa.
Ed. - Assírio&Alvim

......................................................

Se como Lydia viesses cobrir meu rosto
Com o perfume de teus cabelos...

E como rosa abrupta
Te abrisses ao mistério de meus dedos...

Se meus olhos
Abrasassem como o sol da tua boca...

Se o grito e o mel povoassem meu deserto
Na glória de teu corpo...

Lírios em círio acesos
Luziriam no altar de meu desejo

E rosas e lírios te daria
Nas rosas e nos lírios que não ouso...
....................................................

Enfim, brisa de Verão. A que não resisto...


No blog - em 22/06/2009


BORDADO DE TEUS DEDOS

Benignos são os deuses e serenas as águas
Depois de os rios transbordarem.
Aceitemos, por isso, Lydia, o destino
Das coisas perecíveis.
Sem indagar da Mentira
Ou da Verdade
A distância.

Apenas o perfume
E a glória de ser…

E sejamos!... Entre o espinho
E a rosa apenas um suspiro breve
E o devir do tempo. E o fluir leve
De nossos passos.

E o bordado de teus dedos
Entrelaçados. A desenharem sinfonias
E afagos. Harpejo de poeta
Soltando maduros bagos e
Pétalas no carmim
De teus lábios…

Manuel Veiga

No blog - 09/01/2021



Dois tempos, dois Poetas, e a inspiração em alta. Ricardo Reis
com a sua Lídia aqui num tom sofrido...

Manuel Veiga parafraseia-o e recria Lydia e dá um tom outro à palavra. 
Conta com os deuses, mas nem sempre, e leva-a à beira-rio 
e canta o seu amor. Deparamo-nos com essa personagem não só nos seus livros, 
mas também esparsamente. 

Em "Caligrafia Íntima" encontramos nada mais nada menos do que 
cinco poemas "Em Louvor de Lydia", com a indicação de que a mesma é 
uma criação de Ricardo Reis, indicação essa que o autor tem o cuidado de repetir sempre que produz um poema que lhe é dedicado. 


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FELIZ PÁSCOA

Abraços 

Olinda



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Poema 1
26-5-1917

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) 

Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. 

 - 80.
Poema 2
11-8-1918

Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) 

Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. 

 - 80a.