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terça-feira, 6 de setembro de 2022

Ocupação Feliz

Resolvi examinar as diversas ocupações que as pessoas têm na vida, procurando escolher a melhor entre elas; e, sem desejar dizer algo a respeito delas, concluí que não poderia fazer nada melhor do que continuar naquela que encontrei para mim, ou seja, ocupando toda a minha vida no cultivo da razão e na busca do conhecimento da verdade, seguindo o Método que prescrevi a mim mesmo. Eu senti um contentamento tão profundo desde que comecei a usar esse Método, que não acreditava que alguém pudesse obter algo mais doce ou mais inocente nesta vida; e, ao continuar a descobrir, a cada dia, por meio dele, verdades que me pareciam dotadas de certa importância e das quais os outros não estavam em geral cientes, a satisfação que senti preencheu a minha mente de maneira tão plena que nada mais de modo nenhum me afectava.

René Descartes, (1596-1650) 
in Discurso do Método

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A Felicidade reside, por vezes, em tão pouco! Difere de pessoa para pessoa, de conformidade com a sua formação, com a terra que habita, com o ambiente onde cresceu... ou com o momento em que determinada situação intelectual eclode.

Por isso, não me espanta que as elucubrações filosóficas de Descartes lhe tenham trazido essa satisfação que lhe preencheu a vida. Esvaziando o cérebro de tudo o que aprendera, dos ensinamentos da Escolástica ao conceito de Deus, eis que o nosso homem encontra a ocupação suprema. 

Conhecemos sobejamente a máxima Cogito, ergo sum, que o filósofo descobre depois de duvidar de todas as coisas, prevalecendo como verdade incontestável a sua própria existência como "coisa" pensante. Método tão perfeito para ele que nada nem ninguém o afectava, como ele próprio afirma.

Será que isso bastaria?

Parece que sim, para Descartes. Outros filósofos viriam contestar essa descoberta, dizendo de sua justiça, nomeadamente, G.Leibniz, F.Nietzsche, B. Russell, tendo este frisado: no máximo, Descartes poderia inferir que há o pensamento, e não que “eu penso".

Já António Damásio, médico neurologista português, que trabalha no estudo do cérebro e das emoções, escreveu o livro "O Erro de Descartes", que muita polémica tem suscitado. Descartes errou, segundo Damásio. Mas em quê? Muitos perguntam porque é que não reclama essa atenção para Platão ou Kant, pela natureza das suas posições.

Mas o próprio autor diz que "Cogito ergo sum", é a afirmação mais famosa da história da filosofia. Assim, porque não escrever um livro falando das emoções e dos sentimentos, do corpo e do cérebro, pondo Descartes em evidência quanto mais não seja no título






Mas é de Felicidade que aqui se fala. Que pode surgir num sorriso, no perfume
de uma flor, no brilho de uma linda manhã. Nas coisas simples da vida, em suma.


Mas também pode ser breve, como nos diz Vinicius, na voz de
 Tom Jobim



 A Felicidade é como a pluma 
que o vento vai levando pelo ar


Desejo-vos uma boa semana, meus amigos.

Abraços
Olinda



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Análise crítica de "O erro de Descartes" - aqui

-Ter em atenção "Meditações Metafísicas", de Descartes.

Imagens: pixabay

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ignorância sábia




Aconteceu aos verdadeiros sábios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem e amadurece o grão, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado considerável de coisas tão diversas, renunciaram à sua presunção e reconheceram a sua insignificância.(...)

Quando perguntaram ao homem mais sábio que já existiu o que ele sabia, ele respondeu que a única coisa que sabia era que nada sabia. A sua resposta confirma o que se diz, ou seja, que a mais vasta parcela do que sabemos é menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. Em outras palavras, aquilo que pensamos saber é parte — e parte ínfima — da nossa ignorância. 

in:Ensaios

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Texto:Citador
Imagem:Pixabay

domingo, 15 de novembro de 2015

Onde se situará a cura para o fanatismo?

O fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático.

Pequeno excerto de um grande texto de Voltaire, onde ele prevê e aconselha a cura para essa doença detestável através da assumpção do espírito filosófico, devidamente difundido, para adoçar a índole dos homens. Ele refere que as leis e a religião não não suficientes para a cura dessas almas doentes, aliás, a religião longe de ser para eles um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.

Ele recorda  o fanatismo dos burgueses da noite de São Bartolomeu e o massacre ocorrido, bem como o fanatismo de juízes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles, de convulsionários que, falando dos milagres de S. Páris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarniçavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.

São os velhacos que conduzem os fanáticos -diz elee que lhes põem o punhal nas mãos. Assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia - segundo se diz - imbecis gozarem as alegrias do paraíso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condição de assassinarem todos aqueles que ele lhes apontasse.

E ele coloca esta questão fulcral:Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, está certo de merecer o céu se vos degolar?

E assim estamos nós como na noite dos tempos, como se nascêssemos agora, não com aquela pureza própria da infância, mas velhos por dentro sem nada termos aprendido sem nada para dar. Andamos às arrecuas, vazios, estupefactos, interrogando-nos sobre o porquê das coisas. Nós que já pensávamos ter chegado a um estádio tal de evolução que não era preciso mais nada, teremos agora de rever tudo e voltar ao princípio de tudo.




Talvez assim a minha Paris, a minha bela cidade, se revigore depois desta tragédia. Talvez assim nos reencontraremos num domingo de manhã numa esplanada a conversar, sem medos, gozando este sol outonal vindo dos céus. Meu Deus, o que será preciso fazer para que se instale a paz nos nossos corações? Será o espírito filosófico, no sentido de nos interrogarmos de modo a encontrarmos respostas para os nossos males, o suficiente? 

Uma coisa é certa: há que não baralhar situações. Há os fanáticos que atacam e matam indiscriminadamente e há aqueles que precisam do nosso apoio e da nossa solidariedade. Estou a falar dos refugiados, como é natural. Se conseguirmos distinguir isso, nesta confusão de sentimentos que nos assola, então poderemos dormir descansados, na certeza de que, afinal, esses séculos vividos sempre serviram para alguma coisa. 

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Ler o texto em itálico, na íntegra, aqui 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ideias que fundamentam a nossa filosofia de vida. São ideias que funcionam na realidade?

Por estes dias tenho lido um pouco sobre o Iluminismo, movimento intelectual posicionado em termos temporais no Sec. XVIII, mas parece que não, começa a partir de 1680 segundo alguns e segundo outros enraíza-se mesmo no Sec. XVI. Afinal que sabemos nós disto, quando é que o nosso pensamento inicia um processo capaz de espoletar uma onda de ideias que irá condicionar ou influenciar gerações futuras? Diz-se que este movimento terá terminado aquando das guerras napoleónicas, mas sabemos que não é assim. A prová-lo temos as suas reverberações veículadas pela Revolução Francesa (1789) e que ainda hoje inspiram países e pessoas, desejosos de uma vida de liberdade, que redigem as suas leis fundamentais nessa base, não se esquecendo dos dois outros itens: fraternidade e igualdade. 

São fascinantes estes pensadores. Procuram fundamentar as suas ideias no sentido de condicionar o governante num mundo criado por ele em que se considera detentor de um poder divino. De entre eles, destaco o nosso tão conhecido, Monsieur le Baron de Montesquieu. Ele é o homem que nos diz no seu L'Esprit des lois que para haver equilíbrio de poderes, uma limitação do poder, o mesmo tem de ser tripartido: poder legislativo, poder executivo, poder judicial. Independentes entre si mas que interagem no sentido de levar a bom porto o sentido de Estado. Nós sabemos que esta cláusula consta das Constituições dos países que se dizem livres e democráticos, assim como na nossa Constituição, a nossa Lei Fundamental, o nosso contrato social, se levarmos em linha de conta o pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1762) e de outros antes dele como Thomas Hobbes e John Locke, que lançaram as suas sementes a germinar neste sentido. 

Mas paira no ar uma onda céptica: será que é mesmo assim? São ideias que funcionam mesmo? Na vida real existe uma teia de relações que enche o nosso íntimo de descrença. E não precisamos ir muito longe à procura de exemplos para fundamentar isso. É corrente pensar-se ou dizer-se que esta ou aquela decisão é uma decisão política, logo, dissociando-a da vida real, sabendo nós que é a própria política que condiciona a nossa vida. Todos os nossos passos como cidadãos são passos políticos. Se hoje estamos dominados pela hegemonia financeira, vendo a banca presente, praticamente, em todos os aspectos da economia, arruinando-nos em alguns casos, é nas decisões políticas que deveremos procurar a solução.  

Bom seria, realmente, que a Filosofia retornasse às nossas vidas, que a arte de pensar nos envolvesse, devolvendo às emoções o seu devido lugar. É o que falta antes de mais a esta Europa sem rumo...

Desejo um bom dia aos que por aqui passarem.