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domingo, 28 de agosto de 2011

As voltas que uma palavra dá

A onda enrolava-se e desenrolava-se e ia desmaiar ao seu lado num doce enamoramento. Recolhia-se, indo formar-se de novo ao longe, encapelando-se e lançando da sua crista farrapos de espuma, convidando-a a entrar no jogo. De um salto a sereia tentou  atravessá-la. Mas a onda envolveu-a, enrolou-a e fê-la conhecer a sua força levando-a às profundezas. Depois, de mansinho, como que a rir-se, a onda seguiu, cabriolando, em direcção à areia dourada. Ela, já recomposta do turbilhão, ali ficou de costas no lençol líquido saboreando aquele doce marulhar. Consciente de que era apenas e só um pequeno elemento no meio daquilo tudo, assaltou-a de súbito o soberano desejo de ser alguma coisa mais na vida. Soberano desejo? Porquê soberano? Inusitadamente, passaram à frente dos seus olhos as vezes que tinha ouvido e lido tal palavra. Do seu significado, do contexto em que lhe tinha aparecido. Não se tratava aqui de ir em busca da raiz da palavra, da sua origem, etimologicamente falando. Era muito mais prosaico. Continha laivos e sabores de outros tempos, de reis, de rainhas. Era isso mesmo, a palavra era comummente atribuída a estas entidades: soberano, soberana, evidenciando a importância das casas reinantes.Mas não só.Com a evolução dos regimes políticos também o estado aparecia com a adjectivação de soberano, demonstrando assim a sua independência no concerto das nações. Algumas instituições até tinham a designação de órgãos soberanos. Contudo, ultimamente, a palavra aparecia com uma certa persistência e não propriamente de forma abonatória. ‘Dívida soberana', pois, era isto que andava na boca de toda a gente…Desde quando é que uma dívida é soberana? Não é verdade que cada dia que passa estamos todos mais dependentes dos outros e nem sabemos bem quem são? Dívida pública, talvez. Mas, pronto, lá deviam saber porquê…Mergulhando, pensativa, deixou-se ir. Afinal, ela era apenas uma pequena sereia naquele mar imenso...cheio de tubarões.