Acho que a grande revolução, e o livro «Ensaio sobre a Cegueira» fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estariam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá, não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem pelo este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damo-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram da sua vida uma sistemática acção perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.
José Saramago, in " Folha de S. Paulo, Outubro 1995"
Interessante o facto de José Saramago citar este seu livro, "Ensaio sobre a Cegueira", onde o caos se instala através da chamada cegueira branca que afecta todos ou quase, lugar de horror em que os instintos mais baixos do ser humano se manifestam numa dança macabra.
Talvez, depois do caos a bondade se instale para mostrar que ainda existe algo de bom no íntimo da humanidade. De tal cegueira escapa uma mulher, testemunha dos horrores perpetrados naquela sociedade sem rumo.
Em continuação desse livro surge "Ensaio sobre a lucidez", em que o terreno explorado são os votos em branco que invadem o acto de eleger representantes do povo. Nesse contexto são postos em prática perseguições e torturas que denotam total ausência dos princípios éticos que norteiam a vida em democracia.
Personagens do livro "Ensaio sobre a cegueira" são encontrados neste livro, o que me causou um certo espanto e, ao mesmo tempo, um estranho sentimento de solidariedade, acompanhando-os eu pelas provações por que voltam a passar.
Continua em foco, no "Xaile de Seda", o Centenário de José Saramago.
Bom domingo, meus amigos.
Abraços
Olinda
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Texto em itálico: Citador
Imagem: Pixabay


