"Desapareceu tudo...
saíram todos,
faleceram os meus pais...
fiquei eu"
O último habitante de Casas da Serra, aldeia na serra do Barroso, em Boticas.
A casa do último habitante fica mesmo em frente, o estábulo faz parte da construção de granito. Está frio e vento; a chuva em breve será neve; por entre carreiros finos do chão que parece forrado de pedra que o tempo gastou, escorre acelerada a água da chuva que desliza da encosta. O cenário, ainda que de abandono, porque sabemos que mais ninguém ali mora, é o que Torga descreve, em parte, em Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes): "Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite."
Oiçamos, entretanto, o saudoso Roberto Leal que canta a sua Aldeia:
Minha Aldeia
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
Minha Aldeia é todo o mundo
Todo o mundo me pertence.
Boa semana, meus amigos.
Abraços.
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Leia aqui o artigo, no DN
Poema de António Gedeão - aqui